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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CÂMARA DE VEREADORES


Rumava ao trabalho numa cidade trezentos e oitenta quilômetros de casa quando, estacionando num posto para completar o tanque, comprei jornais numa banca improvisada. Sentei-me ao restaurante, pedi suco de laranja. As notícias se repetiam e, algumas vezes, incrementavam o rol informando mediocridades sobre jogadores de futebol, modelos, atores, músicos, amantes de ricaços, viúvas de milionários e brigas em torno de mulheres que, nas entrelinhas, se candidatavam às mais fúteis do século.

 

O título em letras garrafais de uma matéria na página política despertou-me a atenção: “Câmara de Vereadores vota projetos importantes”. Obviamente três quartos do mundo e eu desconfiamos dos políticos profissionais e, especialmente, dos vereadores com quem, nas cidades pequenas, facilmente esbarramos nas ruas, na agência bancária, na fila dos correios ou do hospital. À falta de assuntos mais interessantes, deslizei os olhos e, nas primeiras linhas, me surpreendi.

 

A jornalista destacava a aprovação de projetos de grande impacto no orçamento do próximo ano, entre eles, aumento de vinte e cinco por cento aos servidores públicos municipais (sendo quarenta e dois por cento no caso de professores e funcionários da saúde) além de estabelecimento de plano de carreira com direito a afastamento remunerado para cursar mestrados e doutorados, isenção de IPTU para todos os imóveis – grandes, pequenos, médios, comerciais, industriais ou residenciais, nos bairros pobres ou ricos – diminuição de secretarias e dos salários dos secretários e, pasmei, quase engolido o copo de suco de laranja, corte total das remunerações dos vereadores. Ou seja, cidadão que desejasse ocupar vaga no legislativo municipal assumiria a bomba desde já consciente que não levaria um só centavo dos cofres públicos. Li a notícia mais três vezes, solicitei ao caixa que lesse o parágrafo bem escrito e, já sentado em meu carro, mal compreendia como a cidade de poucos mais de trinta mil habitantes, enterrada no sertão paulista entre nada e coisa nenhuma, despontava com tal brilhantismo na esfera pública nacional e – por que não afirmar com muito orgulho? – internacional. Aqueles vereadores – planejavam racional e estrategicamente a aplicação de recursos – tinham ajustado que, dali em diante, nenhum centavo pagaria publicidade: jornais, revistas, agências de publicidade, internet e rádios à míngua.

 

Guardei cuidadosamente o exemplar na intenção de assombrar meus alunos na aula noturna e, sem mais perder tempo, voltei à estrada. Já no hotel, sentei-me à mesa, li novamente a matéria e, com caneta vermelha, ressaltava os pontos que virariam temas de nossos debates na turma de gestão pública, integrada tanto por jovens egressos dos cursos de administração pública, contabilidade pública e direito público quanto de profissionais tarimbados de prefeituras, câmaras de vereadores, fundações, autarquias e demais órgãos que integravam os governos da região.

 

A movimentação do legislativo da pequena cidade serviria de exemplo de boa gestão e, para evitar que a leitura ficasse solta no ar, vesti-me, atravessei a rua e tirei cópias do texto de maneira que, durante a aula, os alunos acompanhassem as reflexões e, ao fim dela, levassem as brilhantes idéias para suas cidades de origem. O dono da papelaria – onde aguardava as fotocópias – entusiasmou-se com a notícia prometendo conversar com o amigo radialista que, defendendo a idéia em seu programa, fora tachado de louco pelos sanguessugas do dinheiro do povo.

 

À noite, entrei muito contente na sala da aula, escrevi algumas palavras no quadro-negro, estimulei debates, distribuí a matéria, lida rapidamente, seguida de grande alvoroço. Já tínhamos correntes que defendiam ou se posicionavam favoravelmente ao nepotismo, lei da ficha limpa, eficiência de serviços, aplicação transparente de recursos públicos, participação popular, meios de fiscalização cidadã quando, esbaforido, aluno da cidade em que ocorrera a revolução dos vereadores, por sinal, funcionário do legislativo, instado a se manifestar, disse-nos que “aquelas crianças” eram realmente geniais.

 

- Crianças? Perguntei.

 

- Sim, professor. Crianças. O jornal não estampou aqui, mas essas são as decisões aprovadas pela Câmara de Vereadores Mirim, agrega crianças de oito a doze anos.

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 30 de novembro de 2012.

 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

JÁ ARRASOU SEU MARIDO NA CAMA HOJE?


Vasculhava as prateleiras quando arrastei o título acima – provavelmente pertencente à auto-ajuda – dos volumes de crônicas. Li orelha e contra-capa. Devolvê-lo de onde o tirara. Senhora de pouco mais de cinqüenta anos. Saia longa, camiseta apertada e cabelos pretíssimos: realmente acreditava naqueles conselhos? Antes de informar que encontrara casualmente a obra inserida na prateleira errada, contou-me parte da vida, alegando que, desde o terceiro ano de casamento, identificando o esfriamento natural da relação, começou a montar pequena biblioteca com trabalhos de psicólogos, psicanalistas, historiadores, antropólogos, sociólogos, meretrizes, empresários do prazer e, até mesmo, para quem desconhecia o mundo editorial específico, economistas, bibliotecários e jardineiros.

 

Ameacei levantar-me, mas ela puxou banquinho, colocou a bolsa aos pés e os óculos escuros charmosos em cima da cabeça, acenou para a atendente que, provavelmente sabendo de quem se tratava, trouxe café sem açúcar.

 

- Comprei durante vários anos livros e mais livros ensinando a afastar o tédio e a monotonia do casamento, apresentando os passos de enrolar o coração do homem, listando as artimanhas de que nós, mulheres, precisaríamos ter na cama, na mesa, no sofá, no carro, no dia a dia. Certamente mais de duzentos livros em casa, misturados aos de Literatura, Economia e Geografia: sou professora universitária aposentada de Economia da Universidade do Estado.

 

Devolvi o livro à prateleira, entretanto me lembrei que alguém o tinha inserido no lugar inadequado e, por essa razão, perdera vinte minutos de meu tempo ouvindo economista especialista nas artes de prender o marido. Quando percebeu que retirava o livro e, antes que, mais uma vez, tentasse explicar que o entregaria à atendente a fim de que o destinasse ao local correto, ela se empolgou:

 

- Então, mesmo alertado, insiste em levá-lo? Acha que uma mulher de boa estirpe não saberia arrasar o marido na cama? Aliás, para que uma mulher arrasaria o marido na cama?

 

- Não faço a mínima idéia, expliquei pausadamente, tamborilando os dedos na capa dura.

 

- Pelo simples fato – assegurou como se tivesse larga experiência no assunto – de que, esgotado em casa, ele não procurará outras mulheres quando sair para cerveja, churrasco ou futebol. Todos os maridos são homens famintos. O que se faz com o faminto? Comida até empanturrar-se. Entendeu? Se estiver satisfeito, nem cachorro-quente, nem pastel, nem pizza, nem carne mal passada, nem frango, nem caviar, nem brigadeiro, nem doce, nem salgado, nem frutas, nem legumes. Problema resolvido!

 

Agradeci com a cabeça e, livro nas mãos, levantei-me. Ela pegou a bolsa aos pés, ajustou os óculos escuros às vistas, impôs ar de superioridade. Justificou novamente a perda de tempo em comprar aquelas duzentas páginas que, no máximo, repetiriam conselhos estúpidos, ineficientes e primitivos. Além do mais, cinqüenta reais – eu ainda não me interessara pelo valor, mas incrivelmente ela já o sabia – comprariam cinco ou seis edições de bolso de excelente qualidade. Cinco ou seis livros que atrelariam mais glamour à minha biblioteca: no enjôo de um, lançaria mão de outro.

 

Ainda não me dera tempo de explicar que desejava apenas entregar o livro à atendente. Dirigi-me ao balcão. A economista atrás de mim enumerando os motivos pelos quais jogava dinheiro no lixo. Quando faltavam mais ou menos cinco metros, tive a impressão de que colocou o pé esquerdo na minha frente, desequilibrei-me, bati numa montanha de livros infantis que, sem grande esforço, estrondaram no chão. Ruborizado pela confusão, continuei meu trajeto sem arrumar a bagunça que tinha feito e a economista, dois saltos sobre a baderna, voltou a me azucrinar.

 

Ela tentou novamente colocar o pé em minha frente, mas desta vez o pulei, expliquei à funcionária o problema causado por algum leitor relapso. A economista tomou o livro das mãos da atendente, jogou cinqüenta reais no balcão, meteu-o dentro da bolsa e, à saída, cumprimentou-me cordialmente.

 

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de novembro de 2012.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SEJA SEMPRE SINCERO


Os “expertos” orientadores de talentos dão dicas fabulosas que, tenho quase certeza, nem Deus sabe de onde as tiraram. Durante viagem de ônibus entre Londrina e Maringá um rapaz de aparentes vinte anos, segundo período ou termo de administração, contabilidade, economia ou qualquer outra faculdade às quais se dirigem os alunos na esperança de enriquecer, desabafava com a amiga.

 

- Olhe aqui! Batia o dedo indicador num quadro de resumo de revista de negócios lida pelo menos trinta e duas vezes antes de entrar na sala do entrevistador. – Eu não disse? Veja! Escrito em letras grandes: “Seja sincero. Seu interlocutor saberá recompensar sua sinceridade!”

 

A mulher que o acompanhava pôs os óculos de fundo de garrafa e aros grossos, deslizou os olhos à capa, voltou a conferir a informação resumida, entregou o periódico ao proprietário salientando que, como frisava, a revista indicava comportamento baseado nas relações de sinceridade, de franqueza, de verdade, de objetividade e de transparência.

 

- Não fui sincero? Indagou, jogando a revista na bolsa, ajustando os colarinhos, fechando os botões das mangas compridas, conferindo o reflexo na janela. – Fui sincero ao extremo. Assim que entrei na sala, o entrevistador perguntou-me como estava. Fui sincero: dor de cabeça, ônibus lotado, insônia, três ou quatro bolachinhas na barriga. Em seguida, pediu-me que sentasse e perguntou que experiência tinha no ramo de alimentos. Que resposta poderia dar?

 

- Que resposta você deu?

 

- Disse que jamais, repito, jamais tivera experiência e acrescentei, ainda sendo bem sincero, que faço faculdade para trabalhar no mercado financeiro, bolsa de valores, corretoras, bancos internacionais, mas que, em razão da vida complicada, da falta de inglês, de francês, de espanhol, de compreensão global tanto econômica quanto política, sobrara-me apenas a alternativa de alimentos à qual me agarrava naquele instante, como uma tábua de salvação aparecendo depois de tormenta tenebrosa no mar agitado do desemprego e das falsas esperanças.

 

- Qual a reação do entrevistador?

 

- Ele não disse nada. Simplesmente baixou a cabeça, anotou itens em minha ficha, questionando, depois de alguns segundos, se eu não falava nenhum idioma e por que, já que não entendia nada do ramo de alimentos, tentava vaga justamente numa indústria do ramo.

 

- O que respondeu?

 

- Fui sincero: reforcei minha ignorância em idiomas e, saindo pela tangente, como sempre faz um bom homem de negócios, assegurei que, em nenhum momento, abriria mão de contratar tradutores simultâneos caso necessitasse viajar ao exterior. De maneira muito educada, reclamei da temperatura da sala. Condicionador de ar com defeito? Por que não abrir as cortinas, escancarar as janelas? Enfatizei meu interesse nos mercados de ações e no mundo bancário. Afinal, tinha nascido para isso. Entretanto, já que meus idiomas e meus conhecimentos eram limitados, apenas aquela empresa – que nem era tão grande assim – dera-me oportunidade de mostrar minha competência de múltiplos saberes.

 

- E o entrevistador? O que disse?

 

- Ele não disse nada. Baixou a cabeça, anotou alguns pontos em minha ficha. Daí, sem mais nem menos, perguntou qual dos produtos fabricados por eles freqüentavam minha mesa. Sinceridade total: nenhum!

 

Nesse instante, eu não me agüentei. Desatei a rir com tamanho estrondo que todo o ônibus concentrou-se em meu escândalo. Justificativa: lera ótima piada.

 

O ônibus parou numa dessas cidades intermediárias do trecho de modo que, entra e sai de passageiros, perdi parte da conversa dos dois amigos atrás de mim e, por mais que esticasse as orelhas e disfarçasse a curiosidade, nada mais ouvi. Ao fim da linha, quando o veículo dava as primeiras voltas para entrar na rodoviária da Cidade Canção, o rapaz – que adoraria trabalhar no mercado de ações e ocupar a diretoria de bancos – explodiu:

 

- Mas, me diz, resmungou para a amiga, quem vai comer aquela manteiga com gosto de banha de porco e engolir iogurte que mais parece resto de leite estragado?

 

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de novembro de 2012.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA


Sempre tive problemas nas aulas de Ciências, de Educação Física e de Educação Artística.

 

Quando a professora de Ciências – tive muitas, desde as mais atraentes até às menos amadas – entrava na sala segurando cadernos, livros, bolsas, cadernetas de chamada, papéis, giz e apagador, sabia que minha vida se transformaria em inferno nos quarenta e cinco ou noventa minutos em que – estratégias habituais de transmissão de conhecimento – desenharia esquemas complexos da digestão dos peixes. Embora morasse numa cidade praticamente praieira, não entendia – e continuo sem entender – os motivos que me levavam ao sistema digestivo do animal que sequer acompanhava-me nas refeições. Saí do ensino fundamental, entrei no médio, concluí o superior sem assimilar as atividades piscianas, bactérias, moluscos, reino monera e mariposas mortas em decorrência da poluição na Inglaterra.

 

Outra matéria que me tirava a paciência: Educação Física. Busquei artifícios convincentes para fugir das aulas, entretanto obrigavam-me a entrar na fila rumo à quadra de esportes de onde voltava cansado e entediado uma hora e meia depois de assistir aos jogos dos meninos e de testemunhar as confissões dos primeiros prazeres labiais de minhas colegas. Como em todas as escolas – públicas e particulares – os tempos de treinos em busca de resultados satisfatórios transformavam-se em mera recreação semanal. Nada aprendi das regras dos esportes. De modo que, nas copas do mundo, “tiro de meta”, “escanteio” ou “impedimento” são termos desconhecidos.

 

Ciências e Educação Física constituíam matérias nas quais ainda poderia aplicar métodos retóricos para driblar os professores. Aplicaria idênticos métodos em Educação Artística se, no fim do primeiro bimestre, a professora não tivesse imposto calendário por meio qual exigisse, a cada sexta-feira, cópia simétrica proporcional das bandeiras do Distrito Federal e dos vinte e seis estados seguidos, de perto, das dos países das Américas, alertando-nos sobre as semelhanças entre as cores originais e as que pretendíamos transpor às obras de arte de nossa lavra.

 

Régua e compasso: dois monstros que me metiam medo. Vez por outra desenhava casas em papéis de rascunho utilizando, para tanto, a ajuda de réguas de trinta e de vinte centímetros. Por mais que me esforçasse e contasse exaustivamente os centímetros, os quartos, os banheiros, as salas, as cozinhas, os escritórios e as bibliotecas nunca saíam do tamanho desejado. Se, régua em punho e no sossego de minha casa, meu fracasso mostrava-se estrondoso, o que dizer das tentativas sob pressão?

 

Enquanto meus amigos pulavam de alegria com as notas variando entre nove e dez, eu, envergonhado e aflito, dobrava meu caderno antes que meus seis e meio, seis, cinco ou quatro pudessem ser vistos de maneira mais clara pelos colegas. Conforme previra desde o início das atividades de pintura, cheguei ao fim do segundo e do terceiro bimestres com notas vermelhas e consciente de que entraria na prova final. Já imaginava as desculpas a fim de escapar das cacetadas paternas que, sem dúvida, não engoliriam as explicações de dificuldades.

 

Esforcei-me o quanto pude. Alguns colegas chegaram a ajudar-me, mas minhas bandeiras se distanciavam do ideal mínimo aceitável. Quase sete meses após o início da jornada, o coração disparava ao fim das sextas-feiras quando minha condenação parecia acertada. No último dia de aula, a professora de Educação Artística entregou-nos papel em branco com a finalidade de projetarmos desenhos livres. Uns iniciaram a configuração de casas simples; outros, de paisagens cheias de nuvens brancas, céu azul, árvores verdes, frutas variadas, animais diversos. Entre o desespero pela penalização paterna e a convicção de derrota pela incapacidade de, à semelhança dos outros alunos, desenhar casas ou campos, peguei quatro ou cinco vidrinhos de tinta guache, embaralhei-os integralmente na página em branco – mas respeitando as quatro linhas de limites – e, meio corajoso, meio despeitado, integralmente desesperado, entreguei o trabalho à professora que, diferentemente do que imaginara, abriu um sorriso: - Finalmente vejo uma obra de arte!

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de novembro de 2012.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

COISAS DE LAURINHA

Anos atrás, Paulo Gracindo e Glória Menezes interpretavam um casal da tradicional sociedade paulistana. Paulo Gracindo já desfilava os cabelos brancos e Glória esbanjava a jovialidade da mulher de quarenta. Diante das ações da esposa, benéficas ou demoníacas, o personagem do grande ator respondia: - Coisas de Laurinha!

A diferença entre homens e mulheres reside na capacidade feminina de interpretações. Os mais filosóficos atribuirão a elas a percepção profunda da busca da felicidade enquanto os literatos reverenciarão o domínio das metáforas. Na disputa entre os filósofos e os literatos, restrinjo-me às surpresas.

Se um cara de quarenta anos é chamado de pançudo, dia seguinte – ou, dependendo da ocasião, na mesma noite – estaciona na frente do espelho, murcha e estufa a barriga, aperta o cinto, afrouxa a calça, prende a respiração, põe a camisa para fora e, em seguida, ajusta-a nas possibilidades desenhadas. Suspira: - Pançudo! Já a mulher não leva desaforo para casa: reage prontamente ao comentário, argumentando que a protuberância não se trata de descuido, mas de excesso de gostosura. Mulheres esqueléticas? Apenas as modelos. Homem gosta de mulher que sabe que se tem onde pegar.

Se o cidadão comete erros de ortografia – troca “s” por “ss” ou “c” ou “ç” – certamente irá envergonhar-se de sua burrice. Já a mulher indiscutivelmente chamará o interlocutor de medíocre: ele não sabe que ela – fluente em alemão, grego, francês e sueco – trocou as letras por pensar na palavra em outro idioma?

Se o homem sai de calça branca desbotada, camisa verde, paletó amarelo, gravata azul, cinto creme, meias roxas, sapatos pretos e chapéu cinza dão-lhe a alcunha de mal vestido. Ficará cabisbaixo, meio triste, decepcionado pelo erro estético. Consultará alguém versado em cores e formas. Anotará as sugestões numa caderneta pesquisada duas ou três vezes ao dia. Se – trajando roupas em todas as cores do arco-íris – a mulher recebe crítica idêntica, tenha convicção, eventual leitor, ela responderá: - Idiota! Não sabe que é o último grito da moda na Europa?

Se o homem dedica-se ao árduo trabalho braçal, joga futebol, afunda na lama, nada na poeira, rola no chão, toma banho de teias de aranha e, ao fim do dia, eventualmente encontra conhecidos, rapidamente será apontado como porco. Humilhado, acatará a sugestão de banho. Já a mulher – ah, sim, a mulher – buscará argumento histórico e lembrará que Napoleão Bonaparte advertia as amantes que ficassem longe das águas três dias antes de encontrá-lo. – Porca, eu? Confrontará a mulher. – Meu cheiro é um perfume natural.

Mas, sem sombra de dúvidas, se existe situação em que a mulher supera o homem é na discussão sexual. Quer sepultar o sorriso do machista? Escancare que ele é ruim de cama, nega fogo, foge da raia. Pouco esforço e grande resultado: o homem atacado se esconderá longas semanas até que – se Deus quiser! – os vizinhos, os colegas de trabalho, os parentes e os amigos esquecerão os vitupérios, as injúrias, os achaques contra sua virilidade. Se vociferarem contra a mulher argumentos semelhantes, não se surpreenda se ela atacar: - Eu? Ruim de cama? Não, bebê. Você é que não dá conta do recado. Ou ainda não percebeu que sou muita areia pro seu caminhãozinho que morre em qualquer subida?

Os homens são limitados: duas ou três palavras de impacto os desmontam. Já as mulheres – sempre as mulheres! – três ou quatro centenas de frases de guerra estimulam a ironia, a ferocidade e as garras lancinantes. Quem vai entender esse complicado, complexo e, ao mesmo tempo, fascinante universo feminino tão previsível e tão cheio de surpresas, de amor e ódio, de delicadeza e de agressão, de sensualidade e de arrogância, de perspectivas e de desespero? Pintura, foto, música, peça ou filme eventualmente poderiam definir o mistério. Poderiam? Desvendaremos esse segredo um dia? Se imaginarmos toda mulher mistura de humildade e de soberba, pensaremos que a mulher é seu próprio segredo e, apenas por isso, simplesmente inexplicável. Como diria o personagem de Paulo Gracindo: - Coisas de Laurinha!


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 2 de novembro de 2012.