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sexta-feira, 25 de maio de 2012

PEIXE E EPISTEMOLOGIA

Uma de minhas alunas convidou-me a almoçar num domingo. Cheguei à chácara antes do meio-dia e conversei com o pai, a mãe, o tio, a avó, o irmão, o namorado, a cunhada, um sobrinho e alguns amigos quando a mãe, curiosa por saber mais da disciplina que lecionava, perguntou-me o nome dela.


- Epistemologia, respondi pausadamente.


- Psicologia? Perguntou-me a avó.


- Não, interveio o irmão, ou antropologia, ou sociologia.


- Também não, retrucou um dos amigos. Acho que ele disse filosofia.


Entre idas e vindas, esclareci que Epistemologia consistia numa matéria ampla que discute a construção do conhecimento. Se falamos de aviões, de economia, de jogos de vôlei, de turismo, de roupa ou de comida, de remédios ou de belezas arquitetônicas precisamos construir e consolidar o conhecimento. A construção e a consolidação do conhecimento nos impedem de dar voltas sobre determinado assunto de maneira que, uma vez descoberta a receita de filé de frango empanado, outro cozinheiro não precisará quebrar a cabeça para inventá-la.


Construído o conhecimento da receita de filé de frango empanado, os próximos a consolidarão e inventarão pratos a partir dos conhecimentos já existentes. Essa construção do conhecimento – organizado, testado, discutido e aprovado ou reprovado – é importante na descoberta de curas. Os remédios que controlam ou minimizam os efeitos do câncer ou da Aids são resultados da construção do conhecimento através de décadas. Se alguém vive atualmente muitos anos depois da constatação das doenças, estudiosos ou cientistas, décadas atrás, contribuíram para que estudiosos e cientistas de hoje avançassem em suas pesquisas.


Observei que minha explicação mais se aproximava de discurso pedagógico de que de conversa de almoço no fim de semana. Alguém começou a falar de futebol, um segundo ligou a televisão para ouvir os comentários esportivos, um terceiro perguntou dos cavalos. Senti um cheiro forte vindo da cozinha: peixe. Nada tenho contra peixe, mas o esforço de retirar o mínimo de carne das espinhas em longo tempo me faz perder a fome. Sempre evito comê-lo. Quando almoço ou janto na condição de convidado, salgadinho e Coca-Cola antecipam imprevistos como aqueles. Saindo meio apressado de casa, esqueci-me do detalhe.


Enquanto os homens concentravam-se na sala em busca de respostas satisfatórias do desempenho de seus times ao fim do campeonato estadual, as mulheres fecharam-se na cozinha procurando acertar no encantamento gastronômico. De repente, a avó sentou-se ao meu lado indagando um pouco mais sobre Epistemologia.


- Fazemos alguma coisa. Aqueles que vêm depois não precisam fazer. Aprendem com nossa experiência?


Respondi positivamente. Quais experiências transmitira aos filhos e aos netos? Quais experiências assimilara dos pais e dos amigos? Quais experiências admirara e rechaçara?


- Experiência da fome, respondeu-me tranquilamente.


Quando ela e o esposo chegaram àquelas terras, tomaram empréstimos em bancos, plantaram, ora colhendo abundantemente, ora perdendo sucessivamente o dinheiro investido em dezenas de alqueires que, no fim das contas, reduziram-se a seis ou sete. Viviam de doação de vizinhos e da igreja até que, depois de muito tempo, alguém deu a idéia de criarem peixes. O marido recusou a sugestão. Como criar peixe num fim de mundo seco? A explicação: tanques. Peixes criados em tanque com compradores certos. Depois de doze anos, construíram casa melhor – aconchegante, mas longe de ser confortável – e criaram filhos e netos conscientes de que se tinham boa vida – pelo menos não passam nem fome, nem sede, nem necessidades básicas como roupa, remédios e cobertores durante o frio – deveriam agradecer aos peixes.


Minha aluna colocou quatro travessas sobre a mesa, legumes e verduras, arroz com ervilha, ovo e milho, suco de acerola e de laranja. Diante de minha paciência, retirando lentamente as carnes da espinha, questionou-me:


- Não sabia que gostava tanto de peixe, professor.


- Nem eu, disse, piscando para a avó dela. Nem eu.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de maio de 2012.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

APRESSADO


O perito participara de audiência pública em Rancharia, entregara laudos em Paraguaçu Paulista, demorara-se quase duas horas em Assis e rumava a Londrina, segunda maior cidade do Paraná e quarta mais populosa da região Sul, quando, sem controlar os pedidos insistentes do estômago, avistou a placa indicativa de três quilômetros de distância de Florínea. O início do perímetro urbano apresentava transformações arquitetônicas: um centro de convivência do idoso e um prédio de recreação talhados em estilo arrojado e completamente espelhados.





Metros adiante, a inovação de calçadões intercalados com ruas pela metade despertou a curiosidade imediatamente sufocada por uma padaria de ares modernosos que, na ausência de restaurantes, churrascarias ou lanchonetes apresentáveis, assumia o papel de fornecedor oficial de comida. Vislumbrou opções de salgadinhos, doces, lanches, produtos industrializados e caseiros, escolheu um enroladinho de salsicha, um pastel de carne, um de frango e um de queijo, uma fatia de pizza, duas coxinhas, pedaço considerável de pudim e cinco brigadeiros aos quais alcançou uma Coca-Cola de seiscentos mililitros.





Engoliu a comida com a rapidez indispensável – precisava chegar ao centro comercial de Londrina em menos de uma hora – e direcionou-se ao caixa. A fila pequena – apenas três senhoras o antecediam – inspirou tranqüilidade. Os bons motivos de viver numa cidade pequena: os compromissos resolviam-se eficientemente. Buscou, ao fundo da padaria, dois pacotes de bolachas recheadas, um de suco de laranja e um de batatas fritas. As três mulheres continuavam imóveis. O relógio diagnosticava quatro minutos. Preocupado com o tempo, percebeu que o caixa – um homem de barba preta e cabelos cinematográficos – conversava com a cliente, respondendo sobre o período adequado de remédios de reumatismo.





A mulher do reumatismo saiu, a segunda cliente aproximou-se e, agora, depois de solicitar a soma dos produtos – cinco pães, uma caixa de leite e cem gramas de queijo – discorria sobre os vestidos de duas adolescentes que entraram no meio da missa de domingo, roubando a cena do padre, destoando olhares femininos e pensamentos masculinos. O homem assentiu, contou as moedas, perguntou se não gostaria de deixar pago o frango – a padaria também vendia frangos aos domingos – e satisfez-se com a negativa: receberia parentes no fim de semana e ela mesma providenciaria a refeição. Talvez a segunda mulher finalmente concluísse sua operação, entretanto, por ordem e desígnio da consciência incontrolável, detalhou as operações da coleta de mantimentos para cestas básicas distribuídas aos pobres. Aproveitou para falar de seu desapego das coisas materiais, de sua devoção aos santos e anjos, de seu compromisso inabalável do dízimo mensal – atrasava de vez em quando, é verdade – do comprometimento com as crianças da escola...





O perito consultara o relógio inúmeras vezes e, angustiado com a demora, pensou em pedir licença à terceira cliente e adiantar-se na fila, mas sua decisão encerrou-se ao convencer-se de que, finalmente, a segunda mulher pegava seu embrulho, conferia o troco e saía pela porta lateral parando, assim desceu o degrau, o primeiro transeunte. O que ele achava da reforma da casa da professora?





Quase dezesseis minutos transcorreram desde que entrara na fila de três pessoas. A terceira cliente pagava um refrigerante comprado fiado na véspera e, ao mesmo tempo, falava pausadamente a respeito dos problemas dos netos nas lições de matemática, obviamente culpando o professor da matéria que vinha de Sertanópolis numa moto empoeirada...





Deduzindo que a conversa alongar-se-ia ao máximo, calculou o valor total do consumo e dos produtos de mão, consultou novamente o relógio e jogou trinta reais sobre o balcão. Jogou os produtos no banco do carona, colocou o cinto, ligou o rádio, entrou na rua paralela e já alcançava a rotatória de acesso à rodovia quando a polícia, acendendo a luz vermelha giratória e o som característico de averiguação, mandou parar no acostamento.





O policial indagou de onde vinha, para onde ia, se entrara em algum estabelecimento comercial e, declarando o consumo na padaria, obteve resposta negativa ao pedido de liberação. Dez, dezessete, vinte e três minutos. Já perdera o compromisso e mentalizava o prejuízo. Trinta e dois minutos depois, o homem da padaria, guiando uma bicicleta, encostou:





- O senhor é muito apressado, moço. O dinheiro que deu estava errado.





O perito procurava uma nota de vinte reais na carteira quando o padeiro completou:





- Aqui está seu troco.





Quarenta e cinco centavos.





*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de maio de 2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

BORGES


Artifícios foi a primeira obra que li de Borges. Livro de bolso, escrito originalmente no idioma do escritor argentino, consagrado por sua vasta cultura e prodigiosa memória que, entre outras coisas, declarou seu amor à Literatura e à Leitura em, pelo menos, duas frases instigantes e oníricas.






A foto acima foi tirada no Centro Cultural Borges, em Buenos Aires. Numa tradução livre: “E eu imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca”.



Num dos contos de Artifícios, a paixão livresca volta à tona quando ressalta que apenas aos cavalheiros interessam causas perdidas. Quando pensou nisso, Borges referia-se a si mesmo, encenando o papel de monstro literário universalmente admirado numa terra em que, apesar dos bons índices de alfabetização, briga, maltrata e despreza as letras até hoje?

sábado, 12 de maio de 2012

DUPLA PERSONALIDADE

O rapaz de cabelos empastelados percebeu largo sorriso vindo do outro lado da pista improvisada de dança. Bebeu dois ou três copos de mistura de gengibre, tomou fôlego, evidenciou a fivela de boiadeiro do tamanho de um prato, ajustou o chapéu, colocou o relógio de prata, expôs os grossos e chamativos cordões de ouro:


- A moça me daria o prazer da dança?


Dançaram boa parte da noite, tomaram refrigerante. Ele comeu duas porções de batatas fritas – tão transparentes quanto folhas de papel manteiga. Ela preferiu pamonha e dois milhos cozidos cujos caroços insistiam em se prender aos dentes. Atenciosa, cabelos pretos e lisos escorriam até os ombros e, à intensidade do vento, balançavam poeticamente, criando clima romântico.


Encontraram-se no segundo dia de festividades, voltaram a dançar, a conversar, a trocar telefones e endereços eletrônicos e, três semanas depois, entravam no cinema para assistir ao filme agraciado com prêmios de festivais nacionais. Os amigos dele já se acostumavam com o ar delicado, diplomático e elegante da moça que falava o essencial, distanciava-se de polêmicas e esquivava-se de conversas desinteressantes. Os pais, o irmão e o primo também se familiarizavam com o rapaz, primeiro a se servir da macarronada de domingo e voluntário na organização da cozinha após a refeição.


O relacionamento deslanchava ao ponto de, no sétimo mês, rendido aos encantos, pronunciar-se formalmente numa festa de fim de semana. A mãe se emocionou, o pai discursou, o irmão animou a bagunça. Uma prima aproveitou: - Tens certeza de que vais te casar com ela? O noivo espantou-se, mas, antes de qualquer palavra: - Podes escrever: vais aprender o que é bom para tosse...


Enquanto trabalhava e juntava dinheiro das festividades e da entrada substancial num apartamento popular, as palavras da prima ressoavam. Por que aprenderia o que era bom para tosse? Tentou captar deslizes do sogro, atrevimentos da sogra, atividades discutíveis do futuro cunhado e até o primo, que morava com a família, entrou na investigação.


A noiva desdobrava-se em carinhos e nos pratos preferidos, optava pelas decorações mais baratas, sonhava com uma viagem a Bonito, no Mato Grosso do Sul, caminhava no fim de tarde e, ao chegar em casa, trancava-se no quarto por quase uma hora praticando exercícios que enrijeciam o bumbum e proporcionavam firmeza aos seios. Silhueta e medidas perfeitas para o casamento.


Pouco mais de dois meses para a cerimônia quando, numa lanchonete de que eram fregueses, jogou-se de unhas e dentes sobre a garçonete que, por equívoco, trouxera mostarda no lugar de maionese. Uma hora depois, agia como se o incidente protagonizado por ela na frente de clientes perplexos e crianças extasiadas fosse algo comum.


Uma vez o irmão esqueceu-se de levá-la ao dentista e, em retribuição, destroçou o quarto e jogou as roupas dele numa imensa fogueira. O pai disse qualquer besteira e a coleção de vinhos – os mais raros, cento e doze anos – amanheceu esfacelada. O carteiro sugerira a ida ao correio a fim de procurar a conta do cartão de crédito e uma barra de ferro atingiu-lhe as costas. O entregador de pizza atrasara dez minutos e misteriosamente caiu da moto quando chegava à esquina. Um professor atribuíra-lhe nota menor do que nove e o carro anoiteceu riscado, vidros quebrados, pneus rasgados.


Adotava um comportamento na frente das pessoas, mas bastavam virar as costas para que colocasse os planos em ação. Mesmo advertido pelos amigos da tempestade em que viveria, o noivo convencera-se de que ela mudaria definitivamente. Faltava mais ou menos uma semana para o enlace quando, chegando à casa dela, percebeu o fraque embrulhado, estendido sobre a mesa.


- Vieram deixar à tarde, disse, orgulhosa. Vamos ver como ficou.


O noivo abriu, contudo percebeu o olhar fulminante:


- Pensei que tivesse recomendado a você uma gravata de nó Windsor e, pelo que vejo, desobedeceu-me. Escolheu um nó simples.


Sem nada acrescentar, ela entrou na cozinha, mexeu em alguns talheres. Quando voltou à sala, ele tinha desaparecido.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 11 de maio de 2012.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

AVENTURAS DE JÚLIA


Uma menina que mora com os pais, estuda regularmente, desempenha suas atividades rotineiras, exterioriza os problemas da impaciência e instabilidade de temperamento, implica com o irmão mais novo e seu camundongo Rabico, diverte-se com as amigas, possui bom relacionamento com os vizinhos e admiração das crianças para as quais, segundo nos conta o narrador, criou inconscientemente a imagem de alguém que cura as enfermidades ou patologias infantis, adora seu gato Inácio...


Se transportada à vida cotidiana real, Júlia conviveria sem desconfianças na escola, na igreja, no clube, nas ruas, na vizinhança, nas festas, nas disputas esportivas ou nos leves trabalhos rurais. O temperamento explosivo com o irmão e seu rato de estimação, o amor pelo gato encontrado entre a vida e a morte no trajeto da escola, a conversa com o pai, a convivência com a secretária residencial e a curiosidade são rotinas nas casas das famílias que, com problemas e felicidades, vivem nas grandes ou pequenas cidades. Até a visita a um sítio, a exploração do lugar, a história de que mulher idosa, que vivia no imóvel rural, ter morrido e sido enterrada na capela em estado de abandono, o encontro de um caderno velho ou as indicações de Inácio sobre acontecimentos dentro da casa também nada possuem de novidade.


O que prende o leitor ao enredo de “Júlia e a parada do pen drive dourado”, de autoria de Maria Otília Iamarino Farto Pereira, são os telefonemas ou mensagens anônimas descrevendo o que ela está fazendo, aonde está indo, com quem está falando, compromissos ou afazeres que deixou de praticar. Inicialmente Júlia deduz que as mensagens e telefonemas sejam brincadeiras de amigas, de engraçadinhos da escola ou de integrantes do Clube do Livro.


Os mistérios sucedem-se. Inicialmente Jorginho, o irmão de Júlia, descobre um pen drive que poderia ser da irmã, mas não é. Em seguida, Júlia, seu gato, o irmão, os pais e duas crianças visitam um sítio, adquirido posteriormente pela família. Na hora de voltar, ela, o irmão e as crianças procuram o gato por quase uma hora e, sem sucesso, abandonam o bicho que teria de esperar a segunda parte da busca dias depois. Antes de retornarem ao sítio, o gato aparece cansado e faminto, enrolado numa pedra que poderia ser um pingente, usado pela menina como acessório de roupa. Jorginho descobre um duende em busca do pen drive que, para aguçar a curiosidade do menino e instigá-lo a procurar o eletrônico, diz que o aparelho está cheio de jogos. Apesar da posse, Jorginho garante que não viu nada e o introduz ao computador na primeira oportunidade. Sem conseguir acessar as diversões, cobra satisfações do duende que explica que os jogos conduzem ao outro mundo. Insatisfeito, Jorginho procura o vizinho na esperança de que desarme códigos de bloqueio para finalmente acessar as informações.


A descoberta do responsável pelos telefonemas e pelo envio de mensagens é um dos pontos mais interessantes. Júlia, visitando novamente o sítio com os pais, o irmão e o amigo do irmão, recebe mais uma mensagem e constata que o duende, o mesmo que conversara com Jorginho, aprontava as travessuras. Deixa transparecer – pela irritação e pelas perguntas implacáveis – que já o conhecia e quase avança sobre ele ao detectar um celular que, jogado ao alto, transforma-se em aviãozinho. A criaturinha então convida a menina para visitar seu reino e conhecer sua rainha.


Desde quando Júlia conhecia o duende? Jorginho e seu amigo conseguiram realmente acessar as informações do pen drive? O que o duende queria com os dois irmãos? Quais os segredos do pen drive? Para que servia o pingente que Júlia encontrou amarrado a Inácio?


Essas e outras respostas poderão aparecer ao leitor – criança, adolescente, jovem ou adulto – que se, talvez por uma passagem secreta, se jogue no mundo de aventuras e descubra as peripécias de “Júlia e a parada do pen drive dourado”, livro bem construído, articulado e inteligente com que Maria Otília Imarino Farto Pereira nos contempla.


JÚLIA E A PARADA DO PEN DRIVE DOURADO
Maria Otília Iamarino Farto Pereira – Arte & Ciência Editora – 180 p. – R$ 35,00


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de maio de 2012.