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sábado, 27 de junho de 2009

TERCEIRIZAÇÃO?

O vereador Claudines de Oliveira (PMDB) apresentou na sessão da câmara de vereadores de 17 de março uma indicação à prefeitura de Maracaí: estudos para contratar empresas terceirizadas. Baseado na indicação do vereador, o vice-presidente do Sindicato dos Funcionários e Servidores Públicos Municipais de Maracaí, José Antônio da Silva, escreveu carta aberta questionando a terceirização.

O Sindicalista José Antônio da Silva perguntava – mas não afirmava nem acusava ninguém – se o vereador possuiria algum amigo, proprietário de empresa, que almejasse a privatização dos serviços públicos, se o PMDB estadual e o nacional concordariam com eventuais terceirizações e, pertinente e interessante, se gostaria que seu cargo de vereador e de sindicalista fosse terceirizado/privatizado.

Incomodado com as perguntas – questionamentos perfeitamente realizados em um Estado Democrático de Direito – o vereador entrou com pedido de explicações na Justiça por não conseguir interpretar o conteúdo absolutamente claro da carta.

Assessorado pelo Dr. Marcelo Cruz, o Sindicalista José Antônio da Silva respondeu as cinco perguntas do vereador. A população precisa saber que o Sindicalista José Antônio da Silva exerceu constitucionalmente o direito de questionar as atitudes do agente público. Qualquer pessoa pode questionar os agentes públicos, prefeito, vice-prefeito e vereador.

Em entrevista à rádio “comunitária” de Maracaí, o vereador falou por mais de cinco minutos da resposta que dava à sociedade. Que resposta? Na interpelação à Justiça, afirmou que “apenas solicitou” informações. Se solicitou informações, o vereador não pretenderia a terceirização do serviço de limpeza? Ninguém vai ao cardiologista se não tem problemas de coração. Ninguém procura um pedreiro se não quer reformar ou construir uma casa! Se não queria terceirizar, para que “apenas” informações? “Apenas” para ocupar a prefeitura? “Apenas” para causar preocupação geral?

Se ler as entrevistas de Orestes Quércia, presidente do PMDB de São Paulo, perceberá que o ex-governador é contra a privatização. Em entrevista ao Jornal de Araraquara em agosto de 2006, o candidato Quércia afirmou que reveria os pedágios nas rodovias paulistas. Em novembro de 2000, barrou judicialmente a privatização do Banespa. Em 2006, afirmou que transformaria a Nossa Caixa num novo Banespa descartando qualquer possibilidade de privatização. Asseverou que a venda do Banespa era “crime”. Se, na concepção de Quércia, a privatização é um “crime”, o que seria a terceirização? O vereador não deveria seguir os passos de seu líder maior? O PMDB sofreria de falta de identidade e de objetivos?

Uma rápida busca no portal G1 (www.g1.com.br) expõe resumo de decisão da Justiça Federal determinando o fim da terceirização dos serviços de saúde no município de São Paulo. Quem comanda a prefeitura da capital paulista é Gilberto Kassab. Alda Marco Antônio (PMDB) é a vice-prefeita de Kassab. Também consta do G1 a informação de que a Justiça barrou a terceirização em Nova Granada (SP) porque o prefeito queria criar empresas privadas para administrar serviços públicos.

Com tantas informações negativas, não é motivo de preocupação a possibilidade de terceirização?

O Sindicalista José Antônio da Silva fez bem. Continuará buscando informações e alertando a população contra atos que possam eventualmente marginalizar ou desprestigiar os funcionários públicos municipais. A Justiça assegura o cumprimento da Constituição Federal. Entre as garantias da Constituição Federal estão a liberdade de expressão e a sindicalização! A Justiça jamais servirá para intimidar pessoas, sindicalistas e cidadãos! Vivemos numa Democracia pautada pela transparência. A transparência só é exercida quando cobramos e questionamos os agentes políticos.

Claudines de Oliveira disse na rádio “comunitária” que estava satisfeito com as respostas do Sindicalista José Antônio da Silva. Não tem importância o vereador estar ou não satisfeito. Não houve acusações, mas perguntas pontuais sobre as diretrizes administrativas do município: todos queremos saber e podemos criticar os rumos da cidade, do prefeito, dos vereadores, dos funcionários e do dinheiro públicos!

O agente político incomodado esqueceu de responder a pergunta-chave da carta aberta: Claudines de Oliveira gostaria que seu cargo de vereador e o de sindicalista da alimentação fossem terceirizados/privatizados?

Se a terceirização aparentemente interessa aos serviços públicos, por que o vereador não abre mão de seu belo salário de mais de dois mil reais e não propõe, na qualidade de sindicalista que é vereador, aumento salarial satisfatório aos funcionários da prefeitura?

Um sindicalista não briga por melhores salários? Por melhores condições de trabalho? Um sindicalista não é contra arbitrariedades e perseguições políticas protagonizadas por administradores públicos recalcados?

O Sindicato dos Funcionários e Servidores Públicos Municipais de Maracaí acionou a Justiça do Trabalho contra decisões absolutamente discutíveis da prefeitura de Maracaí. São transferências mal explicadas, descontos salariais indevidos e desestruturação dos parâmetros de insalubridade? Quantas vezes o vereador e sindicalista defendeu os funcionários públicos prejudicados?

Sem acusar ninguém, exercendo meus direitos constitucionais de liberdade de expressão e de fiscalização dos princípios constitucionais da moralidade, da eficiência e da publicidade na Administração Pública, concluo perguntando: De que lado está o vereador Biúna?


*Publicado originalmente na Folha do Vale (Tarumã – SP) de 27 de junho de 2009.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sindicalismo de araque

Ora os sindicatos se apresentam como resposta às necessidades de organização grupal, ora como centro de apoio para decisões travestidas de patrões/empregadores/empresas que mantêm capachos e bajuladores na direção das instituições. Pela omissão, também contrariam os interesses dos trabalhadores.

Durante a ditadura militar (1964-1985), os sindicatos desempenharam importante papel na luta pela redemocratização. Nos anos do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), organizaram marchas gigantescas em capitais ou grandes centros ou rumo à Brasília, reivindicando melhores salários e condições de trabalho.

Quem não se lembra da cavalaria da Polícia Militar lançando bombas nos professores que, em passeata, protestavam pacificamente na Avenida Paulista contra o arrocho salarial do governador Mario Covas? Quem esqueceu dos discursos de Lula? Em prol de grevistas, quando candidato, e contra os trabalhadores, depois de eleito presidente?

Os rumos do sindicalismo se perderam: milhões colaboram anual ou mensalmente com mensalidades que servem para tudo, menos para defender seus interesses. Daí, as demissões em massa nos últimos meses respaldadas por sindicatos que deveriam defender a dignidade de seus sindicalizados e simplesmente silenciaram.

O sindicalismo glorioso do passado se transformou num sindicalismo de araque em que bajuladores e assessores valem-se de seus cargos não para garantir o trabalho das pessoas, mas para obterem vantagens pessoais, ampliando seus patrimônios, promovendo a mazela da condição laboral e desaguando naquilo a que o jurista e filósofo Bobbio alcunhou de privatização do público, que significa “(...) a revanche dos interesses privados através da formação dos grandes grupos que se servem dos aparatos públicos para o alcance dos próprios objetivos”. (“Estado Governo Sociedade”: 1999, p. 27)

Embora a maioria esqueça dos interesses coletivos – principalmente os que misturam interesses sindicais e políticos e, com suas negociatas, prejudicam descaradamente o trabalhador – ainda podemos contar com sindicalistas corajosos, que não se acovardam, não se vendem e nem deixam os interesses pessoais se sobreporem aos anseios do grupo.

Nesse seleto grupo de sindicatos e sindicalistas comprometidos, podemos incluir alguns nomes. Um deles é o sindicato dos comerciários de Assis, cuja diretoria trabalha diuturnamente em prol da classe na região. O sindicalista Zambito, de Cândido Mota, coordenador da mais recente greve em Palmital. Dessa pequena lista não podem faltar o psicólogo José Antônio da Silva e o líder comunitário José Aparecido dos Santos, popular Zeca, diretores do Sindicato dos funcionários públicos municipais de Maracaí que, de maneira corajosa, têm combatido as estratégias questionáveis do governo municipal.

Respondendo a pergunta de um leitor que se disse enganado e apunhalado por seu sindicato, concordo que a configuração sindical atual é lastimável, mas ainda existem líderes sindicalistas de verdade como os acima enumerados.

A exceção deve se tornar regra: o sindicato deve responder aos anseios de seus associados. Você acredita que seu sindicato trabalha por você? Ou, assim como o leitor, você “sabe” que seu sindicato está vendido, enriquecendo diretores fajutos que têm boa vida à custa de suas mensalidades e de seu trabalho?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 24 de junho de 2009.

Farmácia nova

Transitara pelo ramo de alimentos, de construção e de prestação de serviços – uma pequena empresa de encanadores e eletricistas que ajudavam mulheres sozinhas – mas não se identificara. A euforia inicial se extinguia. Problemas, altos impostos e mão-de-obra desqualificada.

Lendo uma dessas revistas de pequenas empresas, interessou-se pelo segmento de farmácia e, comparando-o aos demais, achou que poderia desenvolver bem a atividade. Uma auxiliar de enfermagem para curativos, suturas, machucados e injeções.

Alugou o térreo de um prédio de dois andares, mudou a fachada, reformou a parte interna, construiu um banheiro razoável e uma cozinha apertada onde cabiam um fogão de duas bocas, um filtro e um frigobar.

Bem conhecido, resolveu não promover inauguração nem investir em publicidade. A melhor publicidade seria a de boca em boca pelos transeuntes que, vendo-o atrás do balcão, entrariam para comprar nem que fosse um comprimido para dor de cabeça.

A auxiliar de enfermagem chegou cinco minutos antes da abertura, acomodou pertences em cima de um banquinho, verificou se o rabo-de-cavalo estava bem preso assim como forçou os dentes para remover eventuais resquícios de pão.

Ninguém entrou durante toda a segunda-feira. Terça-feira? Vazia. Quarta – feira, nem pedido de informações. Quinta-feira, a auxiliar levara algumas palavras-cruzadas, um vidro de esmalte e cartas de quiromancia. Sexta-feira, pensou em mudar o letreiro, colocar uma caixa de som anunciando os produtos. A funcionária, chegara pouco depois das dez horas, advertiu que o conselho de farmácia proibia aquela espécie de iniciativa.

No sábado, abriu antes das seis da manhã, varreu a calçada, lixo em sacos amarelos, recolhido ao fundo do estabelecimento, jogou um pouco de água na rua, quis acabar com os pombos. A ajudante entrou, sacou um novelo de lã e pôs-se a tricotar pacientemente.

Almoçou pouco, não conseguiu cochilar e se arrependia de um negócio que também desaguaria no fracasso. De volta ao trabalho, pensou que poderia abrir a farmácia perto da igreja – cultos três vezes por semana – ao lado da escola – quem sabe alguma mãe buscasse o filho e comprasse o remédio da avó enquanto esperava o sinal – ou da assistência social – dezenas de pessoas entrando e saindo todos os dias.

O fim do movimento intenso no comércio coincidiu com o desespero do pagamento do salário. Além dele, insalubridade, cesta básica, vale-refeição, vale-transporte e horas extras dos fins de semana. Se ninguém entrasse em duas semanas, escolheria nova empreitada para investir. Não gastaria com agências e materiais de publicidade, não aplicaria um centavo em outdoors, jornais e rádios.

Parecia completamente decidido a se livrar da nova empresa na primeira semana. Olhava os valores dispostos no papel. Dinheiro jogado fora. Reclamaria, xingaria, esbravejaria. Pensava nisso quando parou à porta, leu com dificuldade o letreiro e entrou.

Sorriu de animação, passou os olhos na auxiliar que escondeu seus entretenimentos. Avançou para mulher por um lado enquanto a auxiliar, pelo outro, colocava-se à saída.

- O senhor vende remédio para febre de cachorro?

Tomou-lhe o papel, enrolou um frasco, cobrou vinte reais. Perguntaria da eficácia do medicamento, porém preferiu se calar diante do misto de prazer e demonismo estampado nas faces do proprietário, erguendo efusivamente a assistente, também amedrontada.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 25 de junho de 2009.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O cunhado

Rapaz de boa índole: ajudava a sogra, pescava com o sogro e até levava o cachorro para passear pelos arredores nos fins de semana. Agüentava tudo, menos o irmão da esposa.

O cunhado se achava inteligente, falava reiteradamente de viagens, de pessoas ilustres com quem jantava, de lugares caros e badalados que freqüentava. Se não o conhecesse, alguém engoliria o viajado, culto, inteligente, bem versado e rico que se propagava.

Churrasco entre familiares, falou mais de quarenta minutos sobre fantasiosa viagem à Europa.

- Pois é, visitei a casa do Papa, passei no museu do Louvre e na torre Eiffel, no palácio da rainha da Inglaterra. Ajoelhei no túmulo de Nietzsche e de Goethe. Comi num restaurante em frente da casa do Miguel de Cervantes e, no palácio de campo onde Thomas Mann e Hermann Hesse passavam o verão, conversei mais de duas horas com um historiadorzinho inglês... Como era mesmo o nome dele? Peter? Peter Borca? Peter Corp?

- Peter Burke, complementou um estudante de história, servindo-se de um pedaço de lingüiça, completando o copo de Coca-Cola.

- Isso mesmo! Falei com esse cara.

- Mas, questionava a fim de comprometê-lo, se você não fala inglês, como você conversou com um historiador inglês?

A máscara do cunhado ruiria se o estudante de história, vaidade intelectual inerente, não interviesse e explicasse que Peter Burke falava português. Era casado com uma brasileira.

Visitar a casa do Papa e tagarelar com um intelectual? Perdeu o fim de semana pensando numa maneira de encrencá-lo. Por mais que quisesse, idéias não lhe surgiam. Dormiu no domingo resmungando: - Nada como um dia atrás do outro. Deus escreve certo por linhas tortas. É só esperar.

Como se os pedidos secretos transgredissem os ventos e arrebentassem as nuvens, surgiram oportunidades de constrangimento.

A primeira na capital do Mato Grosso do Sul. O sogro precisava de pessoas de confiança para averiguar a separação de terras e bois do inventário do pai. Ele e o cunhado seguiram para Campo Grande. Tomaram desvios errados e perderam mais tempo do que o normal, entrando na cidade pela periferia. Passava das dez da noite. De longe o cunhado vislumbrou um corpo esguio, alto, pernas lisas. Percebendo a empolgação, silenciou sobre quem se aproximava.

O cunhado baixou o vidro. Perguntou se a moça estava bem. Ela respondeu positivamente. Ele levantou o vidro, esfregou as mãos e falou que ela disse que estava tudo bem. Fez mais quatro perguntas, sempre fechando o vidro e as repetindo ao motorista. A quinta o amedrontou. Em tom animado, qual o nome dela? A meretriz: - João Cláudio.

- Vamos embora, vamos embora! É um homem!

Na volta, conversaram com o velho e receberam a missão de se deslocarem a São Paulo. Providenciariam documentos para liberar os bens no Mato Grosso do Sul.

Como morara alguns anos em São Paulo antes de casar, conhecia bem a região do Largo do São Mateus, entre o terminal rodoviário e o acesso a Santo André. Um inferninho masculino chamado “Piu-piu” escondia-se numa fachada discreta.

Estacionou na frente de um bar:

- Vês o fervo? Uma boate. Boate das boas. Não precisa conversar. É chegar, passar a mão, beijar, acariciar o pescoço.

Sentou-se, tomaria uísque. Aproveitasse a noite. Assim que entrou, acionou um cronômetro: - Em dez minutos ele volta, falou para o garçom.

Engoliu o resto do uísque, pediu uma dose de conhaque. Finalizava o segundo copo quando, gritando, tropeçando, caindo, camisa aberta e sapato esquerdo perdido, despontou do fundo da casa de espetáculo. Olhou o relógio: sete minutos e dezesseis segundos. O garçom piscou, fingiu limpar a mesa.

- Estava tudo bem. Entrei, vi aquela mulherada dançando, pulando, se abraçando. Pulei no meio. Beijei, abracei uma, mordi o pescoço de outra. Já partia para a quarta. Aí percebi que se tratava de homem. Tudo homem. Tudo homem vestido de mulher!

Levantou-se, jogou uma nota de dez reais na mesa.

- Como pode? Tão inteligente, elegante e viajado? Ainda não aprendeu a diferenciar um homem de uma mulher?

O bar inteiro caiu na gargalhada, apontando para o cunhado arrasado, escondendo-se envergonhado no carro.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 18 de junho de 2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ladrão de música clássica

O delegado sentou. Olhou a relógio quase escondido na última prateleira de uma estante e, como de costume, chamou o auxiliar.

- Estou aqui, chefe.

- O que temos para hoje?

- A noite foi tranqüila, apenas um ladrão que pulou o muro da casa do dr. Machado para roubar alguns discos. Levou somente quatro. Quando a viatura parou, não correu nem resistiu à prisão.

- Mas esse cara é louco? Pular o muro do dr. Machado? Não sei como não levou um tiro!

- Não levou porque não tinha ninguém em casa.

O delegado ingeriu rapidamente o café, tirou o paletó, afrouxou a gravata e encaminhou-se para as celas. O condicionador de ar quebrado e o calor impeliam-no a desejar roupas mais leves.

Sentado na ponta de uma cama de jornais improvisada, o ladrão levantou-se tão logo viu o volumoso homem entrando pelo corredor. Ou o medo ou o constrangimento do furto causavam-lhe receio. Os olhos iam e vinham de um a outro lado das grades inferiores da jaula.

O delegado suspirou forte, olhou bem as roupas simples e o jeito do matuto.

- Desde quando você rouba, filho?

- Ontem, a primeira vez. A voz saía entrecortada e baixa.

- Quem anda por maus caminhos acaba se lascando. Você pulou um muro de mais de três metros de altura, entrou na casa do homem mais rico da cidade, teve a pachorra de escolher o que ia roubar e pegou apenas quatro discos?

- Isso mesmo, doutor.

- Doutor eu não sou. Não fiz doutorado, respondeu o delegado, sorrindo e quebrando o gelo da conversa que pretendia informal. Rapaz muito educado e silencioso. – Abre a cela aqui. Vamos conversar na minha sala. Lá pelo menos tem ventilador. Então mate minha curiosidade, filho. Você entrou na casa do dr. Machado, forçou a porta para roubar quatro discos? Por que não roubou uma caixa inteira?

- As portas estavam destrancadas.

O delegado procurou o boletim de ocorrência. Portas destrancadas. Ele não as forçara. O calor o forçava agora a desabotoar os pulsos das mangas compridas, arregaçando-as à altura dos cotovelos.

- Por que você roubou quatro discos? Achou que venderiam mais para comprar droga?

- Não. Peguei-os porque precisava exatamente daqueles quatro.

- Precisava? Como assim precisava?

- Toco piano. Perdi o emprego oito meses atrás. Sem salário, não pude continuar minhas aulas. Um colega me deu uma cópia de método de música. Nela estão Chopin e Schumann. Precisava desses dois compositores. Depois devolveria os discos.

Um riso largo da autoridade policial rasgou a delegacia, despertando a atenção dos funcionários que davam plantão naquele domingo de manhã. Da sala vizinha trouxe um teclado de três oitavos embaixo do braço.

- Toque alguma coisa de Chopin. Quero ver e ouvir.

Deitou-se no sofá. O pianista advertiu que provavelmente não sairia o mesmo som, a mesma qualidade, o mesmo impacto.

Mesmo impacto verás no teu lombo caso não consigas executar Chopin, pensava de olhos fechados, ensaiando uma madorna.

Apontou a mesa do delegado. Fixar bem o teclado para não fugir.

- Sinta-se à vontade, filho. A casa é nossa.

Depois da instalação, estalou os dedos, baixou a cabeça, fechou e abriu os olhos em concentração. As mãos baixaram sobre o instrumento, o delegado sentou-se, ficou de pé, sentou-se novamente. Em dezoito minutos de execução seus pensamentos transbordavam lembranças diversas.

O auxiliar entrou na sala.

- Onde estão os discos que ele pegou?

Tempos depois, no teatro municipal, o pianista agradecia com gestos e palavras ao delegado e ao dr. Machado, que dividiam o mesmo camarote.

- Afinal, perguntava o delegado ao dr. Machado, não valeu perdoar um crime como este?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 11 de junho de 2009.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vendedor de carros

O caso se deu em um dos estacionamentos de carros usados. Carros bem usados, diga-se de passagem. Tão usados que a avó, sem entender nada nem de carros, nem de motocicletas, nem de bicicletas advertiu o neto que trabalhava diuturnamente, economizava todos os dias e sonhava em desfilar no veículo no sábado à noite. Suspirava pensando nos olhares curiosos de amigos, conhecidos, desconhecidos e transeuntes sobre o condutor, a acompanhante e o carro.

Ignorando os conselhos da avó, optou por uma revendedora próxima de um instituto de línguas. Como a ansiedade o sufocasse e o vendedor o pressionasse, ameaçando negociar o produto com o primeiro interessado, pagou à vista.

- Mas você comprou um carro de noite? Perguntava o avô, olhos esbugalhados, voz contrariada. Não se pode comprar carro à noite.

Irritado com a intromissão, fechou-se no quarto. De quem era o carro? Quem pagara por ele? Quem iria mantê-lo? Comprava carro de noite, de manhã, de tarde e, se abusasse, de madrugada. Qual o problema?

O problema surgiu assim que a claridade que antecede o sol invadiu a pequena garagem, mostrando a pintura riscada na porta do lado do motorista, o vidro traseiro levemente trincado, a falta de pneu sobressalente, de macaco, de limpador de pára-brisas, os faróis da frente que não acendiam, os de trás que nem existiam, o teto queimado e o estofado do banco de trás rasgado.

O avô o flagrou reclamando sozinho. Os olhos de ambos se cruzaram.

Pensou em devolver o automóvel, mas a devolução imediata representaria fracasso e perda de respeito. O avô, a avó, a namorada, os amigos e alguns vizinhos curiosos comentariam exaustivamente a situação. Resgatou o resto do dinheiro da poupança e reformou as partes complicadas, deixando a pintura para outra ocasião.

Como trabalhasse na cidade vizinha, viajaria duas vezes por semana, alternando oferecimentos e recebimentos de carona. Viajaria se o radiador não estourasse na primeira noite de sábado que saíra com a namorada. O valor de guincho, radiador novo, troca de algumas peças e conserto do capô compraria duas bicicletas ou possibilitaria três dias em Florianópolis com acompanhante.

Amanheceu terça-feira à porta do estacionamento. Experiente nas ciências da ladroagem e nas práticas do ludíbrio, o vendedor desdenhou dos argumentos alegando descaradamente que, se não funcionava, o cliente tinha provocado danos ao automóvel. Evidenciou seu descontentamento e falou que o carro vendido estava totalmente sucateado.

- Se o carro está ruim, não posso fazer nada. O que posso fazer é comprá-lo de volta.

Inicialmente contente com a oferta, a fúria subiu pelas têmporas ao ser informado do valor: oito mil reais.

- Mas eu comprei por quinze mil.

- Comprar, comprou. Só que você o danificou e vou precisar da diferença para consertá-lo. É pegar ou largar!

A voz paciente e o temperamento calmo fizeram o vendedor acreditar que ele caminhava para ir embora fracassado. Depois de remexer no porta-malas, o cliente, espingarda doze engatilhada:

- Você sabe correr?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 4 de junho de 2009.