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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OBRIGADO E DESCULPE-ME

Obrigado e desculpe-me! Já ouviu ou falou essas frases hoje? Ontem? Antes de ontem? Mês passado? Antes, durante e depois do almoço, do jantar ou do café da tarde? Entrando no banco, saindo da padaria, esbarrando numa mulher na loja ou num homem no caixa do posto de gasolina?


Agradecer e desculpar-se aparenta comportamento subserviente, submisso ou serviçal, mas na prática consiste em palavras tão mágicas quanto as dos maiores magos para enfeitiçar platéias com seus truques. Alguns homens pensam que perderão a masculinidade ou a virilidade se agradecerem uma barra de chocolate, a lembrança simplória de viagem ou as cartas da caixinha presa à grade do jardim. Alguns julgam normal a ausência de desculpas quando se avança o sinal vermelho ou se estaciona temporariamente em cima da faixa de pedestres. Outros não julgam inconveniente o discurso à flor da pele, soltando cobras e lagartos pelos lábios de onde deveriam sair rosas, jasmins, eflúvios e melodias. Pedir desculpas?


Os homens não são os únicos na lista dos que se esquecem de dizer obrigado e desculpe-me! As mulheres desfrutam da estupidez, do descaso e da deselegância masculinas. Uma delas entrou no salão de beleza gritando com a cabeleireira que, ao telefone, informara que não encontrava nem seu horário muito menos seu nome. Se essa mulher tivesse um pingo de discernimento descobriria que a beleza feminina mais intensa não repousa nos cabelos e nas unhas, contudo na sutileza de, uma vez perdida a cabeça pelo nervosismo, pedir desculpas e agradecer pela compreensão.


Agradecer e desculpar-se, mesmo quando se está correto, é a maneira mais inteligente de evitar contendas. Deus nos ofereceu dois olhos, duas mãos, dois ouvidos e uma boca. Precisamos olhar mais, ouvir rotineiramente e apalpar sempre.


Uma mulher linda passou na sua frente? Olhe (você tem dois olhos), ouça sua conversa (você tem dois ouvidos) e, se possível, apalpe seus pensamentos, entretanto, em nenhum momento, fale com ela ou sobre ela. Embora algumas mulheres se digam evoluídas ou amadurecidas, boa parte delas jamais compreenderá os elogios pelo vestido bem cortado, os esmaltes em plena harmonia com o batom, o jeito único de andar ou os cabelos que nos enfeitiçam. Se algum dia sua esposa, namorada, parceira, ficante ou quebra-galho der-lhe um beliscão, não se esqueça: obrigado e desculpe-me!


Se possuir amantes – lindas, sorridentes, sedutoras, dotadas de sensível estupidez e notável ausência de educação – use os comandos essenciais: obrigado e desculpe-me! Tenha paciência e tente domesticá-las. Um cavalheiro jamais possui a intenção de subjugar a mulher desejada, mas sim a de sobressair a informação de que Machado de Assis se distinguiu dos demais escritores pela contenção, pela sutileza, pelos silêncios.


Machuca-se com maior eficácia pelo silêncio contínuo do que pelos gritos momentâneos, pelas cobranças ridículas ou pelas argumentações desarticuladas. Trinta quilômetros no carro em silêncio – ou ouvindo tangos instrumentados sem barulhos alheios – são mais arrasadores do que oitocentos metros de ataques.


Agradecer e desculpar-se correntemente. Em casa ou na rua, na escola ou no jogo de bola, no restaurante ou na associação de moradores, no trabalho ou na diversão, no campo ou na cidade, afundado em dívidas bancárias ou recebendo o prêmio da loteria... Qualquer lugar é lugar, qualquer hora é hora, qualquer pessoa é pessoa para se agradecer por atos ou presentes ou se desculpar cordialmente por ações impensadas ou involuntárias.


Trinta anos atrás meu pai, que não ingere bebidas alcoólicas, comprou uma garrafa de uísque. Armazenou-a na geladeira três dias e três noites até que os amigos, chegando a nossa casa, esperaram ansiosamente a “surpresa” prometida. Quando viram a garrafa transpirando, riram-se:


- Logo se vê que você não é do ramo.


Para quem aprecia, serve-se uísque na temperatura ambiente acrescentando-lhe pedras de gelo. Meu pai, desconhecedor da arte e estupefato com a informação, não pensou duas: - Vocês me desculpem! Eu não sabia.


Se essas linhas serviram para alguma coisa, obrigado. Se elas apenas tomaram seu tempo e encheram-lhe a paciência, desculpe-me.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 30 de dezembro de 2011.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

LANÇAMENTO DE EDITAL DE CONCURSO DE CRÔNICAS


AVISO

Temos a grata satisfação de informar que o edital do CONCURSO DE CRÔNICAS LAURA FERREIRA DO NASCIMENTO foi publicado.

Solicitamos aos interessados que leiam o edital COM ATENÇÃO a fim de evitar desencontros, atendo-se integralmente ao disposto e, principalmente, às regras de que as correspondências enviadas antes ou depois do prazo serão desclassificadas.

Informamos também que qualquer dúvida deve ser enviada para o seguinte e-mail: concursosdecronicas@yahoo.com.br

Aproveitamos para desejar a todos um 2012 repleto de realizações e indicar os blogs onde o edital está disponível:

- ADPCIM (Associação de Defesa e Proteção do Patrimônio Público e dos Direitos do Cidadão de Maracaí): http://associacaodedefesadopatrimoniopublico.blogspot.com/2011/12/edital-do-concurso-de-cronicas-laura.html

- ACULTIM (Associação de Cultura e Turismo de Maracaí): http://www.acultim.blogspot.com/2011/12/edital-do-concurso-de-cronicas-laura.html

- CONCURSO DE CRÔNICAS LAURA FERREIRA DO NASCIMENTO: http://www.concursosdecronicas.blogspot.com/

Boa sorte!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O CASAMENTO DO MEU IRMÃO


O Homem descobre que pode dar-se sem limites a tudo o que faz. (Pierre Teilhard de Chardin)





Meu irmão – quatro anos mais novo do que eu – casou-se no início de setembro numa Basílica. A imponência, a modernidade e a suntuosidade do lado externo contrastam com a simplicidade e o aspecto antigo do interior. Apesar das intervenções dos últimos vinte anos, um toque de outros tempos se manteve na constituição de beleza.





Vinte e quatro horas antes da cerimônia, os familiares de São Paulo – cujo trajeto de carro leva em média cinco horas e meia – meteram-se numa aventura que culminou na troca de bateria de um dos automóveis, acionamento do seguro, espera do guincho, vinda de taxis, procura de oficina, localização de malas...





Qualidades dos contratos em cartório civil: rapidez, eficiência e praticidade. Saímos todos do cartório direto para a churrascaria. Da churrascaria ao hotel – que ficava em outra cidade – iniciamos o primeiro transporte coletivo. Eu, no carro com minha namorada e mais três passageiros. Meu pai e minha mãe, carona com amigo de meu irmão. O sogro de meu irmão carregando mais quatro passageiros, malas e bolsas de viagem.





Quando chegamos à cidade, o resto da tarde procurando van para transportá-los à noite. Fui deixar minha namorada em Paraguaçu Paulista. Depois, passear em Pedrinhas Paulista com Bernardino, Otávio e Tiago. Na volta, banho, lanche e retorno a Assis onde, à porta da igreja, minha namorada e minha filha já nos esperavam.





O padre levou menos de uma hora para pronunciar o novo estado civil. Em seguida, os convidados saíram ao salão de festas tais quais tigres atrás de gazelas selvagens. Sem van – o motorista comprometera-se apenas a trazer os parentes – levei os primos, primas, maridos e esposas da igreja ao salão de festas em quatro ou cinco viagens.





Entrei finalmente no salão. Minha namorada e minha filha sentadas à esquerda do palco, acompanhadas de casal desenvolto com quem geralmente se firma amizade nessas situações. Antes de servirem o jantar, dois telões se abriram: um filme das pessoas que integraram as vidas de solteiros dos recém-casados. As imagens de nossa família surgiram, comecei a chorar. Disseram a minha mãe que me acharam sério demais durante o casamento. Geralmente, grito, berro, esculhambo, dou risadas em tons altos, ridicularizo a todos e a mim. Justamente entre as fotos, dona Laura almoçando, faca numa mão, olhar seco. Meu irmão, sorriso aberto, abraçado a ela.





Dona Laura é minha avó materna. Faleceu em primeiro de fevereiro de 2005. O Concurso de Crônicas de abrangência nacional, cuja Comissão Organizadora presido, leva o nome dela. Chorei ininterruptamente assim que vi a foto de Dona Laura. Meu irmão mais novo, o neto preferido. Aquele a quem chamamos de “queridinho da vovó”. Para ele, os melhores pedaços de carne, as mais saborosas porções de arroz e feijão, chocolate, goiabada, Coca-Cola, salgadinhos, queijo, presunto... Para ele, compreensão eterna, paciência inesgotável, simpatia permanente. Se alguém deveria presenciar o enlace, deveria ser dona Laura. Alguém que colaborou definitivamente na vida dele – e de todos nós – contudo não teve tempo de chegar. Alguém que não ficou pelo caminho, mas que fez o caminho.





Dias atrás, concluí que Natal é mais ou menos como o casamento do meu irmão: existem pessoas que estão ali pelo amor; outras, pela comida; outras, para aparecer nas fotos; outras, de bicão; outras, pela amizade. Mais importantes do que as presentes são as que, quaisquer que sejam os motivos, não tiveram a oportunidade de comparecer. O casamento me fez refletir: antes de comemorar, agradecer a quem se lançou na lama para evitar que nos sujássemos, a quem jejuou para nos livrar da fome, a quem secou a garganta para nos oferecer água, a quem fantasiou as próprias dores para nos fazer acreditar em nossos sonhos, a quem chorou para que sorríssemos. A meu irmão, esplêndido casamento. A minha avó Laura, muito obrigado! A você, que eventualmente leu essas linhas, Feliz Natal!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, do caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de dezembro de 2011.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ABAFANDO

Gisele entrou na pós-graduação de lingüística muito mais interessada em vigiar o namorado – estudante de letras focado na escrita limpa, direta e objetiva que pudesse ser utilizada tanto em jornais quanto em anúncios publicitários – do que em desvendar mistérios científicos de constituição de signos, significantes, significados, repertórios, códigos abertos e fechados.


Acessou a página do curso aberto na Universidade Estadual Paulista – campus de Assis – preencheu os requisitos necessários, fotocopiou a documentação, montou um projeto às pressas e, por um desses motivos que só Deus explica na lavra das memórias milenares, classificou-se para estupefação do namorado que, saindo de Prudente no sábado por volta das seis e meia, encontrou-a lindamente vestida na frente de casa.


Durante o caminho, o namorado esboçou dezenas de sorrisos por saber que Gisele, advogada frustrada e insegura, finalmente aproximava-se de algo que exigisse inteligência, bom senso e desempenho intelectual. Gisele providenciara novíssimo dicionário de língua portuguesa e, da bolsa preta com que trabalhava na rotina forense, sacou um de expressões latinas demonstrando que, sem dúvida, dedicava-se ao aperfeiçoamento do idioma.


Pensou que dissimularia sua ignorância. Sem muito esforço, limitava-se a copiar aleatoriamente alguns dados explicados pelos docentes. Sintagmas simples ou compostos, orações complexas e coordenadas, frases e interjeições? O que isso mudaria em sua vida? Assim como fizera na graduação e especialização em direito penal, bastava disfarçar, desconversar quando os colegas perguntassem da matéria e, sempre que possível, revirar os olhos, exaltar suas qualidades jurídicas, abordar qualquer tema fútil, enumerar as centenas de vestidos e de pares de sandálias.


A estratégia funcionou eficazmente até o quarto ou quinto sábado – as aulas aconteciam uma vez por semana – quando um dos professores distribuiu calendário de seminários individuais, estipulando o tempo de vinte minutos para exposição, indicando os pontos que gostaria de frisar e recusando-se a fornecer bibliografias ou roteiros de leituras.


A advogadinha entrou em desespero, consultou trabalhos na internet, confrontou algumas informações, emprestou alguns livros da ampla biblioteca, procurou ex-colegas de escola que tinham se tornado professores de português e até desembolsou quantia razoável num curso de redação de duas horas na internet. Por mais que tentasse, nada da matéria entrava na cabeça. O desespero tomou conta gradativamente. Numa audiência defendendo ladrão de galinhas, perguntada se desejava se manifestar, saiu com essa:


- Qualquer inclusão de sintagmas no discurso fechado, para um receptor sem o repertório suficiente, constitui ruído na comunicação, tornando-a parcial ou absolutamente ineficaz.


O juiz olhou para o escrevente que digitava os depoimentos. Empertigou-se. No fim da noite daquela audiência, trancou-se no quarto. Como se safar do seminário de lingüística no sábado seguinte? Como exporia as principais problemáticas, os confrontos teóricos e os novos estudos? Na sexta-feira, o professor de faculdade de fundo de quintal entregou-lhe impecável trabalho sobre o tema. Cobrou mais trinta reais por uma hora de explicações ao fim da qual, engolindo duas xícaras de café, cinco pães de queijo e taça de vinho do Porto, esbravejou a estupidez da intrépida aluna.


Na sexta-feira à noite, o namorado recebeu o telefonema: estava em Assis e amanheceria repassando os temas, ensaiando situações intricadas, antecipando perguntas do professor e dos colegas.


O professor de português teve pequeno incidente automobilístico no trajeto entre Presidente Prudente e Assis. Ao entrar na sala, por volta das onze horas, a aula já terminara e Gisele, sorridente, abraçava as colegas de curso. Ela simplesmente abafara: os vinte minutos da explanação dos meandros lingüísticos usara-os defendendo a pena de morte, relatando sua viagem a Vitória e mostrando, para desespero do namorado, trinta e cinco pares de sapatos que fariam sucesso no próximo verão.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de dezembro de 2011.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AZEITONAS

Carlos Eduardo convidou a mim e a dois amigos para visitarmos um tio que considerava maluco, cuja chácara localizava-se entre Cornélio Procópio e Londrina – ambas as cidades situadas no norte paranaense. A mãe preocupava-se com o irmão. Meses sem notícias. Adoentada e impossibilitada de viajar, solicitou ao filho que se deslocasse para saber das condições dele. Morava acompanhado de alguns cachorros, gansos e marrecos, isolado praticamente de tudo. A mãe já cansara de telefonar. Por mais que chamasse, ninguém atendia a ligação, perdida depois de alguns minutos.


Montamos no carro por volta das oito da manhã, cruzamos a divisa por volta das nove e às nove e vinte e oito percorríamos a estrada de terra – única lembrança de meu amigo – que teoricamente daria acesso à chácara. Para quem vive, viveu ou freqüenta chácaras, sítios e fazendas, compensa-se a ausência de sinalização com a gentileza dos moradores que informam onde fulano, beltrano ou cicrano residem. Por incrível que pareça, nenhum dos nove transeuntes ou proprietários tinham ouvido falar do tal tio.


Quase meio-dia quando meu amigo, reconhecendo velho Flamboyant sem folhas e um rio seco, recordou-se do atalho, entrou nele e cinco minutos após batíamos palmas em frente do alambrado enferrujado. Os cachorros apareceram primeiro. Em seguida, os marrecos. Os gansos, geralmente atrozes, vigiavam de longe. Um homem de bermudas rasgadas, segurando copo de líquido escuro – vinho do Porto da safra de 1970, conforme nos comunicou sem grande orgulho – abraçou efusivamente o sobrinho, cumprimentou-nos, perguntou-nos se tinha acontecido alguma desgraça. Qual o motivo daquela tropa?


Meu amigo revelou as angústias maternas. Por que não mandava e-mails? Por que não os visitara mais? Por que não atendia aos telefonemas? Engolindo pequenas doses, segredou outros projetos. Se gastasse dinheiro visitando os familiares, pagando internet ou telefone, aplicando em roupas de grife – os olhos de um de nossos acompanhantes espantaram-se com os trajes praticamente de mendigo – ou jogando as economias em festinhas com os amigos, os projetos ficariam prejudicados.


A conversa prolongou-se, passeamos pela casa e, a cada cômodo que entrávamos, espantávamo-nos com a bagunça: pia cheia de pratos, roupas sujas no banheiro, varanda forrada de barro, ninhos na área de serviço e na garagem. O tio de meu amigo, professor universitário aposentado, gostava de seu estilo de vida. Quando o colega que se espantara com seu jeito inquiriu, após visualizar velha lata de azeitonas como única fonte de alimentação disponível na geladeira desbotada, se não seria mais vantajoso diminuir as aplicações em seus planos para adquirir alguns produtos, reformar a casa e contratar empregada, o tio de meu amigo interrogou-nos:


- Tenho setenta e dois anos. Caminho, nado três vezes por semana, escrevo, leio, traduzo, analiso esteticamente, diferencio os acordes mais sublimes das mais complexas músicas, sei de cabeça os mais importantes pintores desde a Idade Média. Já viajei trinta e oito países, todos os estados brasileiros, nadei no Mar Morto, engoli neve da casa dos maiores poetas de todos os tempos, visitei os escritórios e bibliotecas dos filósofos da modernidade, entrei em campos de concentração desativados, bailei com mulheres com quem jamais nem vocês, nem seus pais, nem seus avós e, muito menos, seus filhos terão o inigualável prazer de dançar. Nos próximos meses, tomarei nos braços as mais belas damas de Viena, farei amor com as mais lindas da Costa do Marfim, beijarei as mais fulgurantes da Dinamarca, conversarei com os melhores dramaturgos da Noruega, provarei os melhores pratos da Finlândia, da Grécia, de Marrocos e da Hungria, provarei os vinhos da Macedônia, da Irlanda e de Mônaco. Lançarei dinheiro em reformas e empregadas?


Quando nos sentamos em um restaurante de Londrina, dois pediram filé de peixe, meu amigo, salada acompanhada de cremes e molhos orientais. A garçonete me frisou: seguia o pedido dos amigos ou desejaria algo diferente?


- Uma lata de azeitonas, por favor.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de dezembro de 2011.
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TRABALHO DE ESCOLA

O mundo se transformou quando completei treze anos. Gozava de respeito de pais, familiares e conhecidos, a diretora da escola reconhecia minhas qualidades, mas, na prática, por um desses mecanismos que infestavam as cabeças nesse período, minhas notas começaram a despencar. Até mesmo em matérias como inglês, português e matemática, com as quais desde sempre me dei bem, minhas médias variavam entre dois e cinco. Sem recursos para esconder de meu pai as notas vermelhas que pululavam o boletim.


Provas finais de ciências, geografia e educação artística. Provavelmente ficaria pendurado em inglês, contudo a professora, conversando comigo ao fim do recreio, sentenciou nova chance desde que, dali a uma semana, sem rodeios e de maneira séria, assumisse o compromisso de entregar trabalho sobre o conteúdo do primeiro e do terceiro bimestres além de redação de trinta linhas.


Pelo menos de inglês meu couro salvava-se de levar cacetadas corretivas. No fim de semana, peguei as apostilas da escola, livros do curso que freqüentava duas vezes por semana, anotações avulsas. Uma hora e meia depois, o trabalho impecável – folhas coloridas, desenhos bem articulados e capa repleta de flores de campo – repousava na minha escrivaninha para, na terça-feira, depois do intervalo, colocar nas mãos da professora.


Arrumei minha mesa, abri a gaveta e coloquei o trabalho lá dentro, protegido por um plástico, fechado cuidadosamente com grampo. Limpei o guarda-roupa, encontrei um compasso e duas réguas antigas, uma caixa de lápis de cor, um caderno de desenhos meio amarrotado. Tive saudades do tempo de quarta-série. Instintivamente abri a última página, espalhei os lápis na mesa, comecei a desenhar um coração e, mesmo mal acabado, identifiquei o motivo de meus devaneios, a causa de minha desatenção e a resposta de minhas concentrações nos últimos meses: Lara.


Lara transferira-se de escola militar do Rio de Janeiro. O pai dela, oficial da Marinha, recebera a designação de trabalhar no Porto de Presidente Epitácio, mas optou pela instalação da família em Presidente Prudente. Apesar de vagar pelos bancos da sétima série, pensava numa maneira de romper os limites de idade e de convivência de grupo para me aproximar daquela morena de dentes perfilados que terminava o terceiro colegial. Ainda não tivera coragem de declarar meu amor. Riscava alguns versos na contra-capa de meus cadernos. Os professores acreditavam que eu estivesse anotando assuntos relacionados às disciplinas quando, na prática, escrevia acrósticos inspiradores.


Dias e mais dias, lendo, relendo, escrevendo e inventando poesias com o nome da garota de meus sonhos, de meus devaneios, de meus desejos e de minhas vontades. Bastava uma folha de guardanapo de lanchonete de beira de calçada flanar no vento para iniciar versos de homenagem a Lara.


Justamente escrevia versos para a menina de meus sonhos, sentado no banco improvisado de ponto de ônibus, quando uma sombra se fez em minha frente. Ergui os olhos. Lara sorria: - Você não estuda na mesma escola que eu? Gelei, a respiração descompassada prejudicou a articulação de alguma frase de imediato. Conversamos por cerca de vinte minutos até eu perder minha condução e o ônibus dela com destino a Indiana interromper meus momentos de regozijo.


Entrei em casa apressadamente, tranquei-me no quarto, recusei o jantar – minha mãe batendo à porta de cinco em cinco minutos até se entreter com as novelas – e me pus a desenhar corações, olhares, bocas, lugares para onde viajaria com Lara. Poderia ser Indiana, Teodoro Sampaio, Álvares Machado ou, quem sabe?, Presidente Epitácio. Tempos depois, embarcávamos num cruzeiro que visitava Inglaterra, Portugal, Espanha, Grécia e Itália. Seguíamos de trem para Rússia, Suíça e França. Comecei a cochilar. Agendei-me mentalmente: dia seguinte, pegaria a bolsa, a bola de futebol, o agasalho para devolver à minha prima, a roupa de educação física e o trabalho de inglês.


Adormeci sobre a mesa. Dia seguinte, minha mãe gritava: meu pai sairia em cinco minutos. Vesti a camisa ao avesso, troquei as cores das meias, saí correndo com os sapatos na mão. Recolhi os objetos de minha lista mental: bolsa, bola de futebol, agasalho, roupa de educação física.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 2 de dezembro de 2011.