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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O CASAMENTO DO MEU IRMÃO


O Homem descobre que pode dar-se sem limites a tudo o que faz. (Pierre Teilhard de Chardin)





Meu irmão – quatro anos mais novo do que eu – casou-se no início de setembro numa Basílica. A imponência, a modernidade e a suntuosidade do lado externo contrastam com a simplicidade e o aspecto antigo do interior. Apesar das intervenções dos últimos vinte anos, um toque de outros tempos se manteve na constituição de beleza.





Vinte e quatro horas antes da cerimônia, os familiares de São Paulo – cujo trajeto de carro leva em média cinco horas e meia – meteram-se numa aventura que culminou na troca de bateria de um dos automóveis, acionamento do seguro, espera do guincho, vinda de taxis, procura de oficina, localização de malas...





Qualidades dos contratos em cartório civil: rapidez, eficiência e praticidade. Saímos todos do cartório direto para a churrascaria. Da churrascaria ao hotel – que ficava em outra cidade – iniciamos o primeiro transporte coletivo. Eu, no carro com minha namorada e mais três passageiros. Meu pai e minha mãe, carona com amigo de meu irmão. O sogro de meu irmão carregando mais quatro passageiros, malas e bolsas de viagem.





Quando chegamos à cidade, o resto da tarde procurando van para transportá-los à noite. Fui deixar minha namorada em Paraguaçu Paulista. Depois, passear em Pedrinhas Paulista com Bernardino, Otávio e Tiago. Na volta, banho, lanche e retorno a Assis onde, à porta da igreja, minha namorada e minha filha já nos esperavam.





O padre levou menos de uma hora para pronunciar o novo estado civil. Em seguida, os convidados saíram ao salão de festas tais quais tigres atrás de gazelas selvagens. Sem van – o motorista comprometera-se apenas a trazer os parentes – levei os primos, primas, maridos e esposas da igreja ao salão de festas em quatro ou cinco viagens.





Entrei finalmente no salão. Minha namorada e minha filha sentadas à esquerda do palco, acompanhadas de casal desenvolto com quem geralmente se firma amizade nessas situações. Antes de servirem o jantar, dois telões se abriram: um filme das pessoas que integraram as vidas de solteiros dos recém-casados. As imagens de nossa família surgiram, comecei a chorar. Disseram a minha mãe que me acharam sério demais durante o casamento. Geralmente, grito, berro, esculhambo, dou risadas em tons altos, ridicularizo a todos e a mim. Justamente entre as fotos, dona Laura almoçando, faca numa mão, olhar seco. Meu irmão, sorriso aberto, abraçado a ela.





Dona Laura é minha avó materna. Faleceu em primeiro de fevereiro de 2005. O Concurso de Crônicas de abrangência nacional, cuja Comissão Organizadora presido, leva o nome dela. Chorei ininterruptamente assim que vi a foto de Dona Laura. Meu irmão mais novo, o neto preferido. Aquele a quem chamamos de “queridinho da vovó”. Para ele, os melhores pedaços de carne, as mais saborosas porções de arroz e feijão, chocolate, goiabada, Coca-Cola, salgadinhos, queijo, presunto... Para ele, compreensão eterna, paciência inesgotável, simpatia permanente. Se alguém deveria presenciar o enlace, deveria ser dona Laura. Alguém que colaborou definitivamente na vida dele – e de todos nós – contudo não teve tempo de chegar. Alguém que não ficou pelo caminho, mas que fez o caminho.





Dias atrás, concluí que Natal é mais ou menos como o casamento do meu irmão: existem pessoas que estão ali pelo amor; outras, pela comida; outras, para aparecer nas fotos; outras, de bicão; outras, pela amizade. Mais importantes do que as presentes são as que, quaisquer que sejam os motivos, não tiveram a oportunidade de comparecer. O casamento me fez refletir: antes de comemorar, agradecer a quem se lançou na lama para evitar que nos sujássemos, a quem jejuou para nos livrar da fome, a quem secou a garganta para nos oferecer água, a quem fantasiou as próprias dores para nos fazer acreditar em nossos sonhos, a quem chorou para que sorríssemos. A meu irmão, esplêndido casamento. A minha avó Laura, muito obrigado! A você, que eventualmente leu essas linhas, Feliz Natal!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, do caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de dezembro de 2011.

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