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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

TRÊS ANOS, TRÊS VIRTUDES, TREZENTOS DEFEITOS


Praticamente três anos atrás postei minha última crônica publicada no então “Oeste Notícias”, jornal de circulação diária em Presidente Prudente (SP). Soube de seu fechamento por uma conhecida daquela cidade que me indagou do sentimento de despejo. Sentimento de incômodo unido ao de liberdade. Incômodo pela falta de delicadeza de compartilharem os planos de encerramento dos trabalhos do periódico; liberdade pelo fato de, naquele início de 2013, iniciar minhas atividades no escritório de advocacia e da aprovação no doutorado em literatura na UEL. Comprometi-me, comigo mesmo, a me dedicar a estudar mais Direito e a publicar dez textos científicos – fossem eles artigos, resenhas, traduções ou entrevistas – no período em que me mantivesse distante das páginas da imprensa.

Estudei Direito – mais do que precisava e menos do que desejaria – e lancei-me à leitura, redação e envio de resenhas às revistas científicas classificadas, de acordo com a tabela da CAPES (Coordenadoria de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior), de A (as bem avaliadas) a C (as que estão em início de publicação ou negligenciam parâmetros de publicação). Subscrevi dezenas de processos; publiquei mais de duas dezenas de resenhas. Aprendi muito, produzi pouco. Descobri o Teatro e a Dramaturgia e, especialmente, mais do que especialmente, enamorei-me e tornei-me amante das mulheres do sr. Henrik Ibsen. Amadureci bastante, entretanto ainda preciso da consciência da imperfeição para sentir-me estimulado a melhorar diariamente e a escrita na imprensa – especialmente naquela condição de nos fornecer espaço delimitado a ser preenchido regularmente, conforme lembrança contínua de Moacyr Scliar – acabou por interromper a maturidade no manuseio da palavra de maneira que, até outro dia, minha orientadora lembrava-se da promessa de entrega de cento e cinquenta páginas no primeiro ano do curso. A falta da escrita semanal provavelmente ajudou na “ferrugem” das articulações, mas, voltando ao blog, acabei descobrindo que, mesmo sem novos textos, conseguimos ultrapassar o número de trinta mil acessos nas crônicas publicadas três anos atrás.

Acessei com tranquilidade as estatísticas e descobri também o acesso semanal. Leitores – ou curiosos de maneira geral – ainda acompanham ou esperam textos neste espaço geralmente destinado às crônicas, aos artigos de imprensa e às informações culturais gerais (relacionadas, por exemplo, ao Concurso de Crônicas Laura Ferreira do Nascimento) ou específicas (publicações em revistas científicas).

Por esse motivo – e, mais ainda, para que a facilidade de minha redação e de articulação de ideais exteriorizadas racionalmente em um texto – volto a escrever por aqui enumerando, nas próximas postagens, fatos e argumentos que me ajudaram a amadurecer alguns posicionamentos, a rechaçar outros tantos e, principalmente, a bater pé em tantos outros.

Durante esses três anos, três virtudes adquiri:

1 – Silenciar mais do que falar;

2 – Observar mais do que agir;

3 – Saber distinguir discurso de ação e, principalmente, reconhecer a diferença entre um e outra.

Trezentos defeitos ou se consolidaram ou se criaram neste triênio. São tantos que o melhor, neste momento, é procurar listá-los, compreendê-los, discuti-los e remodelá-los com a boa vontade de sempre de alçá-los à virtude.

Que esse retorno, caso não seja de produções inteligentes e cativantes, ajude-me pelo menos a desenvolver escrita regular e organizada.

Que comecemos 2016 com êxito!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

PREVISÃO DO TEMPO


Sempre atrelei-me às manifestações científicas de maneira que jamais saía de casa – ao trabalho, às férias, às viagens com a família – sem antes ouvir o noticiário na televisão ou no rádio, ler jornal ou consultar sites específicos que informassem as variações de temperatura. Três dias antes de viajar em julho para participar de congresso de história em Porto Alegre, certifiquei-me de que, mesmo no inverno, a capital gaúcha nos ofereceria clima ameno. Deixei em casa a tralha desnecessária. Coloquei na bolsa calças jeans finas, camisas e camisetas, boné.


Cheguei a Porto Alegre. O primeiro dia de calor agradável transformou-se num tormento sem limites. Precisei comprar três blusas de frio, camisas de mangas compridas, dois cobertores, pulôveres, calças de moletom e um pequeno aquecedor que me levaram todo o dinheiro da semana, economizado para presentes para a mãe, a esposa e a filha.


De volta ao interior paulista, comentei minha aventura pouco heroica com minha mulher cujos olhos, recriminando-me por não tê-la ouvido, disfarçaram risos de chacota. Em fins de setembro, o escritório mandou-me a Foz do Iguaçu, famosa cidade através da qual milhares de brasileiros compram supérfluos no Paraguai. Apesar dos primeiros raios de primavera, a previsão do tempo indicava frio na casa dos quinze graus. Sem dúvidas, enchi minhas malas de cobertores grossos, blusas de frio, camisas de manga comprida e, como sabia que nos instalaríamos em apartamentos de cozinhas privativas, separei café instantâneo, chocolate quente, chá.


Para minha surpresa – e deleite da esposa que, à minha volta, já sorria estrondosamente – sofri com o calor de quarenta e dois graus, asfalto exalando fervuras que aumentavam a impressão de caminhar numa frigideira em fogo alto. Sem roupas menos calorentas e com cartão de crédito estourado, oito dias usando calças pretas, camisas de mangas compridas. Os ventiladores mantinham efeito mais estético do que prático. O ar condicionado do hotel mal refrescava quem colocava a cara em frente dele.


O próximo destino: férias de natal e ano novo ou em Florianópolis ou no Rio de Janeiro. Consultei atentamente os mapas e os sites cujos históricos declaravam o perigo em ambas as capitais durante os meses de dezembro e janeiro quando habitualmente chuvas fortes devastavam em grande escala. Alertei minha esposa e minha filha. As duas me ignoraram: ou escolhia uma das cidades, ou minha esposa viajaria com os pais a Florianópolis e minha filha, acompanhada dos amigos, ao Rio de Janeiro.


- Fico em casa. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira.


Entre 20 de dezembro e três de janeiro, datas respectivas de partida e de retorno, fiquei desolado e sem saber o que fazer. Não tinha com quem conversar à noite nem com quem brigar durante o dia pelos sapatos espalhados, a louça mal lavada, a bagunça no banheiro, o som alto ou os controles remotos quebrados. Por outro lado, comunicávamo-nos diariamente e, a cada ligação telefônica, perguntava se estava tudo bem, se avistavam indícios de nuvens carregadas. Diante da negativa, encerrávamos a conversa e, mais uma vez, voltava ao computador para certificar-me das chuvas que levariam inúmeros problemas aos catarinenses e fluminenses.


Dois dias antes do ano novo, as águas tomaram conta de nossa cidade. Perdi o contato tanto com minha filha quanto com minha esposa. Desembarcaram, na data planejada, queimadas de praia. Perguntei como tinha sido a experiência de sobreviver às tragédias, da falta de água, de dividir a pouca comida com pessoas estranhas, convivendo em lugares insalubres e perigosos.


As duas se entreolharam. Eu tinha visto desastres na televisão? Realmente nada observara, mas imaginei tratar-se de questão de segurança nacional. Já me irritara ao extremo com a situação quando uns vizinhos convidaram-nos para fim de semana no balneário. Minha filha e minha esposa, cansadas da viagem e do sol de praia, optaram por ficar em casa. Montei no carro. Voltaria no fim da tarde seguinte. Tão queimado quanto elas. Previsão do tempo? Nunca mais.


Quando cheguei em casa, as duas não continham os risos: uma hora e meia depois de minha saída, temporal caíra, mantendo-se até a segunda-feira.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de janeiro de 2013.