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sábado, 27 de fevereiro de 2010

ALCOVITEIRA

Mal estendeu a cadeira:

- Não falei? Aquilo é mulher direita? Só hoje é o terceiro que sai. Vai dizer que é encanador? Veio ontem. Que é eletricista? Três vezes na semana passada. Jardineiro? Nem jardim a casa tem. Deus me livre que não gosto de fofoca, mas que aí tem coisa. Coisa das grossas.

A vizinha de quem falava acenou do portão.

- E aquele moleque? Apontou para um menino sentado de pernas cruzadas no lado esquerdo do campo de futebol improvisado entre arbustos da praça.

A interlocutora olhou para trás, mas não o enxergou.

- Aquele lá, apontou, nervosa. Desde os seis anos a mãe tenta, mas de mim ninguém esconde nada. Ou você ainda não percebeu que ele não gosta da manga?

A interrogação surgiu no semblante. Encolheu os ombros. Mudou a disposição das sobrancelhas. A esquerda mais baixa do que a direita.

- Da fruta que ele gosta, eu, se pudesse, comia até o caroço.

As duas sorriram. Provavelmente continuaria a alfinetar o menino se, ensaiando passos silenciosos pela porta lateral da igreja, o clérigo contivesse as tosses e a maleta preta pouco discreta. Usava um chapéu velho, descoberto em uma das caixas do arquivo do antecessor.

- Não que eu goste de fofoca. Deus me livre! Eu odeio.

O reverendo entrou no carro, engatou a primeira e circundou a praça buzinando duas vezes ao vê-las sentadas. Retribuíram a gentileza, acenando e sorrindo como cobras no enigma iminente do golpe. O goleiro virou-se para igualmente acenar, mas antes que levantasse a mão a bola passou perto do pé esquerdo e mudou o placar. Discutiam a validade do gol.

- Detesto fofoca, mas sabe da última?

Olhou para os lados como a confidenciar um segredo.

- Soube que rouba o dinheiro da igreja. Quando do tempo do velho Bento, assim que os fiéis iam embora, entravam numa sala, contavam o apurado e escreviam tudo num livro de contabilidade. Depois que esse aí entrou, faz tudo sozinho. Não tem dinheiro para consertar o telhado, reformar o prédio, melhorar o chão, mudar a fiação, pintar os bancos ou trocar os canos que, mais de setenta anos, já estão nas últimas. Você acredita nisso? E esse carrão? Novo? Comprou com que dinheiro?

Uma viatura estacionou em frente à padaria. Um dos policiais sacou a caderneta de ocorrências. Uma senhora octogenária apareceu para relatar o sumiço do gato persa.

- E aquele rapaz? Aquele anotando qualquer coisa na prancheta? Fiquei sabendo que não agüenta nada. Só sai para fazer essas anotações sem importância. O primo do amigo da Virgínia me contou que ele é frouxo. Isso mesmo que você ouviu. Frouxo. Disse que estava numa fila do banco quando o bandido anunciou o assalto. Em vez de sacar o revólver e enfrentar a fera, correu para o banheiro e só saiu de lá quando estava tudo resolvido.

O policial olhou as duas senhoras e os garotos jogando bola, forçou as vistas numa janela aberta de um terceiro andar, voltou a espalhar os garranchos no papel oficial.

- Frouxo. Frouxo com F maiúsculo.

Um homem de músculos vistosos passou apressadamente do outro lado da rua. O menino do campo de futebol levantou-se, disfarçou e fitou o rapaz.

- Olha lá. Olha lá. Não te falei? O que eu disse? Nem disfarça. Se bem que um tipão daquele a gente tem que olhar mesmo. Onde mora? Povo estranho. Mais um bandido? Não tem cara de bandido, mas é bom ficar de olhos abertos. Que tamanho de peito! Dá até calor.

Voltou os olhos para a octogenária. O policial escutava o relato do desaparecimento, anotando displicentemente as características felinas. O sol dava os últimos acenos quando um féretro passou.

- Esse aí deve ser o Genésio, falou a mulher. Fazia hora extra. Acredita que ele, noventa anos, não queria morrer? Vai tarde. Por falar em tarde, vamos embora. Já está escurecendo. Você não tem que cuidar do jantar do marido e do banho dos filhos, hein?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias(Presidente Prudente – SP) de 26 de fevereiro de 2010.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

DUZÃO DO CHANTILLY

A tia passara mais de vinte anos morando no Mato Grosso quando, por questão de consciência, de espírito ou de ímpeto, comprou uma passagem aérea e desembarcou em Presidente Prudente a fim de rever parentes e conhecer novos membros da família.


Em três semanas falara com irmãos, alguns tios ainda vivos, pai, sobrinhos. Viajara a Presidente Epitácio, dormira em Caiuá, acordara em Rancharia, passara um fim de semana em Assis e perdera um feriado tentando descobrir alguém em Maringá.


Satisfeita, fazia as contas de quanto sobrava e planejava a viagem para a semana seguinte quando um relampejo a fez lembrar um menino que carregara no colo. Indagada, a sobrinha mais velha respondeu que ele trabalhava muito e não teria tempo de vê-la. Viera de tão longe. Valeria o sacrifício, ainda mais sabendo que morava em Prudente.


A sobrinha mais velha esquivou-se das perguntas. Porém, a delicadeza da tia conseguiu extrair informações dos mais jovens que, em troca de boas gorjetas e pizzas generosas, identificaram quem procurava.


- Duzão do Chantilly. É ele quem a senhora procura.


- Duzão do Chantilly? Por que esse nome, perguntou a tia. Seria um artista da culinária?


Todos riram e o mais novo disparou:


- Artista. E que artista, tia!


Caminhou cinco quadras e antes de tomar um táxi entreviu um cartaz de Duzão do Chantilly cujo espetáculo aconteceria na noite seguinte. Acordou cedo, comprou um ingresso numa banca de jornais, descansou à tarde e por volta das dez da noite parou à porta do evento.


- Meu sobrinho vai se apresentar, falou a simpática senhora para um grupo de mulheres agitadas. Uma delas se empolgou e pediu uma foto.


Assombrava-se com a quantidade de mulheres de idades variadas que lotavam o ambiente e se inquietavam com as luzes multicoloridas mudando de acordo com a música. Se aqui é um curso de culinária, pensava a tia, homens realmente não virão.


Sentou-se e esperou ansiosamente o início da “aula”. O nome artístico seria uma genuína homenagem aos dotes culinários do sobrinho. Que orgulho, pensava!


Quase meia hora depois o locutor anunciou a entrada. Trajando terno preto, camisa branca e gravata levemente avermelhada, Duzão do Chantilly deu um volta no pequeno palco, acariciando as faces das espectadoras e apertando as mãos das mais afoitas. A tia observava, impressionada com o porte físico do sobrinho e o galanteio dos olhos. Numa segunda rodada, distribuiu sprays de Chantilly.


Olhou para todos os lados e procuraria descobrir o responsável pelo atraso do bolo que seria coberto quando, ajustando os óculos, vislumbrou o sobrinho sem a parte superior do paletó. Certamente a retirara para facilitar a movimentação na preparação dos alimentos. Dali a pouco, rasgou a camisa branca de mangas compridas e a jogou para a platéia que, ensandecida, rasgou-a em pedaços diferentes.


As espectadoras acionavam euforicamente os jatos de chantilly, cobriam o artista, sugavam a guloseima e, pouco antes de Duzão do Chantilly rasgar a calça num rompante, a velha caiu dura no chão.


Dia seguinte, a cama do hospital parecia desconfortável e a sobrinha mais velha, advertira que não deveria procurar o sobrinho, disparou sarcasticamente:


- Gostou do Chantilly?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

LITERATURA: UM DESAFIO VIÁVEL?

Considerando Londrina a terceira maior cidade da região Sul – perdendo em número de habitantes apenas para Curitiba e Porto Alegre (RS) e, em geração de riquezas, além das capitais mencionadas, para Joinville (SC) e Caxias do Sul (RS) –, por que não pensá-la no âmbito cultural e elevá-la a pólo regional gerador de grandes escritores?

Diferentemente do Rio Grande do Sul, que possui um interessante, admirável e invejável sistema literário, os demais estados sofrem com a falta de condições para escritores iniciantes e profissionais desenvolverem carreiras literárias estáveis. O desenvolvimento dessas carreiras – assim como o incentivo à leitura, o aumento das vendas de livros, a expansão de livrarias, a realização de eventos, o incremento ao turismo, a circulação de riquezas e o intercâmbio de culturas em geral e, especificamente, literárias – se consolidará quando dispusermos de uma estrutura que beneficie a manutenção do tripé do sistema literário: editoras londrinenses publicando escritores londrinenses que, por sua vez, serão lidos por leitores londrinenses.

Londrina terá sua visibilidade realçada não apenas nas cidades paranaenses, mas também nas paulistas de modo que se tornará mais do que mera referência para centros urbanos de pequeno e médio portes, entre eles Marília, Presidente Prudente, Assis e Ourinhos. Sendo assim, a construção e a consolidação de um sistema literário beneficiariam grande quantidade de leitores (comuns, intelectuais, literatos, eventuais) que a situariam no roteiro de viagens. Afinal, quem gosta de Literatura – e principalmente de livro – arquiteta uma maneira de viajar para participar da Feira Literária Internacional de Parati (RJ), da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre (RS), das bienais realizadas alternadamente entre Rio de Janeiro e São Paulo ou da Feira do Livro de Pernambuco.

Alguns ainda podem argumentar sobre a realização freqüente ou regular de eventos literários coletivos ou isolados, entretanto, tais eventos podem ajudar a divulgar a Literatura de maneira geral, mas ainda faltam substratos para constituir um sistema literário. A afirmação se sustenta pelo simples fato de escritores de Marília, Presidente Prudente e Ourinhos se deslocarem aos grandes centros para lançaram obras ou interagirem literariamente quando, na prática, poderiam escolher a maior cidade do norte paranaense como centro de suas atividades.

Construído um sistema sólido, escritores, leitores, editores, gráficos, livreiros, jornaleiros e suas correspondentes redes de trabalho serão beneficiados. Os números dos índices de leitura aumentarão e quem sabe se, em pouco tempo, não seremos alternativa intercalada aos visitantes da jornada de Passo Fundo (RS)? Quantos amantes da Literatura não encheriam hotéis, buscariam restaurantes, utilizariam os transportes coletivos, gerariam riquezas diversas? O incentivo à leitura auxilia indiscutivelmente em tais índices. Os últimos informes de leitura indicam que o brasileiro lê em torno de 1,3 livro por ano. O brasileiro do Rio Grande do Sul atinge seis livros anuais. E, pasmem, em Passo Fundo, onde ocorre a famigerada jornada literária, o índice anual de leitura por habitante atinge espantosos nove livros.

É possível, portanto, estruturar a Literatura em Londrina não apenas como maneira de atrair investimentos, situar a cidade no mapa literário regional e nacional, ampliar as perspectivas turísticas, mas também como item essencial para aumentar os níveis de leitura e acrescentar alguns pontos ao Índice de Desenvolvimento Humano, ao Produto Interno Bruto e aos levantamentos de ministério e secretarias de cultura. Somos capazes de enfrentar o desafio?


*Publicado originalmente na Folha de Londrina (Londrina – PR) de 2 de fevereiro de 2010.