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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CARTAS DE AMOR

Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor senão fossem ridículas. Quem se atém à superficialidade do primeiro verso acredita que a mensagem encerra-se nesse argumento: cartas de amor são ridículas. O escritor inteligente entra com metade dos esforços na criação literária posteriormente completada por cada leitor que relembrará as declarações mandadas ou recebidas e sentenciará: as cartas de amor são ridículas.

O poeta não desqualifica as cartas de amor ou o sentimento expresso nelas, mas denuncia o leitor ridículo que, com o tempo, as experiências e as frustrações, abandona as perspectivas amorosas para se meter num universo seco, racional, monocromático. As cartas de amor não são ridículas. Ridículas são as pessoas que lêem as cartas de amor.

Se perguntarmos às mulheres o que acham do homem que, parando-as à fila do banco, do correio ou do supermercado, confessa que as considera as mais elegantes, as mais charmosas e as mais lindas das últimas semanas, a maioria dessas mulheres – independente de 18, 30, 45 ou 63 anos – vai se sentir lisonjeada, enaltecida, revigorada, contente por despertar a atenção do desconhecido.

Quantos homens cavalheirescamente pararam você nos últimos dias à fila da farmácia ou do posto de combustíveis para confessar a admiração pela beleza, elegância ou charme? Quantos disseram que o conjunto de roupas – nunca confunda roupas caras com roupas de bom gosto – elevava você à mais elegante do ambiente? Quantos elogiaram o cabelo e o perfume discreto que dão o tom da melodia? Poucos são os homens “ridículos” que reconhecem conjunto estético que extasia inexoravelmente.

Qualquer mulher, de qualquer idade, de qualquer religião ou de qualquer condição sócio-econômica se sentirá deslumbrada ao receber elogios. São ridículas essas mulheres? Ridículos são os homens que se esqueceram de admirar o belo e se concentraram exclusivamente no comestível. Ridículos são os que deixam de comprar flores para adquirir panelas, batedeiras ou ferros de passar. Ridículos são os que se envergonham de recusar o futebol, a cerveja com os amigos, a conversa fora de hora que atravessa a noite ou o churrasco de fim de semana inteiro, entretanto não refletem ao abandonar as namoradas em casa. Ridículos são os que compram carros para desfilarem nas avenidas e encherem os olhos alheios, mas se esquecem do sorvete da filha, do cachorro-quente do filho, do caderno, da caneta ou do livro da esposa que estuda à noite.

Tive um amigo – mais ou menos metro e setenta, oitenta quilos, calvo, barrigudo – que recebia a visita de uma ex-namorada de tempos em tempos. Ela, a ex-namorada, casara três vezes, namorara uns dez rapazes. Perguntei se ela vinha pegar dinheiro. Ele respondeu-me que o patrimônio dela resultava vinte vezes o que ele tinha. O que ela via nele? Meu amigo não era ator de cinema, modelo de desejo ou símbolo erótico. Durante o almoço, perguntei para a ex-namorada. Numa frase resumida: “São os únicos braços nos quais me sinto completamente mulher”.

Relendo esses versos que poucos têm a felicidade de compreender, o poeta deseja nos fazer enxergar que ridículas são as pessoas que deixaram de sonhar, de amar, de desejar e, ao presenciarem cenas, atitudes ou cartas de amor, transferem às cenas, atitudes e cartas de amor a frustração de perderem o carinho, a ternura e o amor. As pessoas sem sonhos e amargas consideram as atitudes alheias quase sempre ridículas, mas não se dão conta de que elas é que são ridículas. As cartas de amor – assim como os elogios às mulheres ou o reconhecimento aos homens – jamais mudam. Somos nós que mudamos e perdemos as capacidades de amar e, quando perdemos essas capacidades, respaldamos amargamente que somos pessoas ridículas. Ridículas são as que, lendo as cartas de amor, acham ridículas as formas e os conteúdos dessas missivas. Afinal, pessoas mal amadas nunca se definem ridículas, mas sérias, céticas e impassíveis. Espero que você, que eventualmente me leu, me ache ridículo e se ache ridículo. Do contrário, seremos mais duas dos milhares de pessoas mal-amadas que julgam os outros ridículos.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 28 de outubro de 2011.

sábado, 22 de outubro de 2011

VEÍCULOS

- Eu não acredito nisso! A síndica soltou as sacolas do supermercado sobre o sofá da entrada do edifício, cruzou o corredor, deixou um casal sem cumprimento e entrou na garagem coletiva soltando fogo pelas orelhas. O morador do apartamento setenta e sete espalhava ração no chão. Apesar de tê-la visto caminhando em sua direção, continuou alimentando o cavalo.

Parou ao lado do animal, cruzou os braços:

- O senhor está nos causando sério problema, disse, olhando raivosamente o morador do apartamento setenta e sete que, sem interromper a atividade, depositou mais comida e verificou o nível de água na bacia.

- Em que posso ajudá-la, dona...

- Dona Maria Clara! Maria Clara! Já tinha me apresentado outra tarde quando carregava aquelas caixas de discos de vinil para seu apartamento. Fiz questão de avisar que somos um condomínio de regras claras! Gostamos de manter a ordem, de organização!

- Como a senhora sabe, mudei-me para Presidente Venceslau há pouco tempo. Gosto de ordem, de regras, de organização, de respeito ao próximo. Por essa razão, escolhi esse prédio que é...

- Que é o mais ordeiro de Presidente Venceslau, interrompeu bruscamente a síndica. Se é o mais ordeiro, o senhor deve respeitar as regras.

O morador do setenta e sete arrumava alguns jornais no banco traseiro do automóvel. Saiu do carro, fechou a porta, dirigiu-se à mulher:

- Por acaso, disse delicadamente, a senhora insinua que cometi delito, erro ou desvio de conduta?

- Se cometeu... O mais grave de todos. Este condomínio não aceita animais.

- Chama-me animal?

- Não estou me referindo ao senhor, respondeu impaciente. Obviamente falo de seu cavalo. Jamais poderia adentrar nossos limites, principalmente amarrado ao estacionamento do prédio. Se nem cachorros, gatos, porquinhos da índia ou ratos de estimação são permitidos, muito menos cavalos, carneiros, bois ou tamanduás.

O homem entrou no carro, abriu o porta-luvas, retirou uma pasta preta de zíper prateado, separou alguns papéis, achou o contrato de aluguel de três anos do imóvel.

- Basta ler a cláusula cinqüenta e três, apontou o morador do setenta e sete, muito tranquilamente repassando às mãos da síndica documento impecavelmente guardado. Cláusula cinqüenta e três: “O inquilino do apartamento setenta e sete aluga concomitantemente a garagem de seu respectivo apartamento e, da mesma maneira, por preço estabelecido na convenção do condomínio, a vaga de garagem do apartamento setenta e cinco, contígua à sua no estacionamento coletivo, desde já comprometendo-se a ocupá-la exclusivamente com meios de locomoção”.

- Pois, muito bem, retomou Maria Clara. O contrato prevê que a vaga alugada destina-se exclusivamente a meios de locomoção. Seus meios de locomoção são um carro e um moto.

- Meus meios de locomoção são um carro, uma moto e um cavalo. Leia o contrato com atenção: meios de locomoção não são apenas carro, moto, bicicleta, patins. Poderia igualmente enquadrar-se asa delta ou barco, considerando que o contrato não estabeleceu tratar-se de meio de locomoção aéreo ou marítimo. Da mesma maneira, o contrato nada determina sobre as especificações de meios de locomoção. Nada menciona se precisam de motorização ou se podem enquadrar-se na categoria tração animal.

- Mas... Maria Clara quis interromper.

- Wittgenstein defende a coisa em si e como revelação. Bourdieu ensina que as coisas são símbolos. Desse modo, o que a senhora enxerga não se trata de coisa em si, ou seja, não é um cavalo, simples quadrúpede. O que vê é a coisa como manifestação ou como símbolo: um veículo que, em segundo e distante plano, é um cavalo. Leia um pouco de filosofia. Aprenderá a ver o invisível. Talvez, daí em diante, consiga enxergar por que seu marido sai às quartas-feiras e aos sábados sempre às três e quarenta e cinco.

Maria Clara atravessou a recepção bufando, pegou as sacolas deixadas no sofá, abriu a porta do elevador, mas antes de fechá-la o zelador a questionou:

- E agora? Que atitude tomar?

- Primeira atitude? Acabar com esse negócio de filosofia.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 21 de outubro de 2011.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

PROFESSOR ROBERTO

Q
uando iniciei minha atividade docente numa Escola de Ensino Técnico mantida pela Secretaria da Ciência e da Tecnologia, publiquei um artigo num jornaleco que já deixou de existir. Condenei a responsabilidade exacerbada do professor e defendi a eficaz transferência de deveres aos alunos que, sujeitos (e objetos?) da Educação, integravam o processo de aprendizagem.

Boa parte dos livros de Filosofia da Educação atribui ao professor a incumbência de conquistar os alunos e Rubem Alves, filósofo que se valeu da crônica para permitir a milhares o alcance de seu refinado pensamento, igualmente destaca o comprometimento na transformação do comportamento social. Achava injusta a integral responsabilidade do professor, mas fui lendo, relendo, procurando, discutindo, analisando e, passados alguns anos, constato que Rubem Alves estava correto!

Lembro especialmente de um professor de matemática de ensino médio da Escola Estadual José Gonçalves de Mendonça, na cidade de Maracaí. Professor Roberto aparecia na sala segurando uma sacola de supermercado cheia de giz, um apagador imenso e uma régua de madeira de um metro. Mal entrava, enchia o quadro-negro de informações, de fórmulas, de números, de dados, de descrições, de interpretações.

Depois de preencher todos os espaços do quadro-negro, esperava que os alunos copiassem e, durante o tempo de espera, discorria sobre as peculiaridades do direito, questionava as metragens de alqueires paulistas, mineiros e gaúchos, tratava dos procedimentos agronômicos adequados para melhor utilização do solo e maior produtividade do milho e da soja, apostava com os jovens alunos agricultores que daria lucro às suas chácaras, sítios e fazendas se o deixassem administrá-las, apontava as diferenças entre métodos de ensino e, mais importante, valia-se de sua condição de professor para conversar, dialogar, compartilhar idéias, corrigir os equívocos, parabenizar pelos acertos, reconhecer as limitações de suas argumentações e, humildemente, se colocar no mesmo patamar dos estudantes dando-lhes, de maneira genial e discreta, o conforto necessário para seguirem seus caminhos nas descobertas e na produção do conhecimento.

O comportamento cortês e atencioso, jamais querendo evidenciar-se superior, proporcionava uma conversa sincera e fluente que enveredava não apenas na escola, mas também na rua. A solicitude nos aproximara de tal maneira que o convidamos, no último ano do ensino médio, para participar do churrasco em um sítio à beira do Rio Paranapanema.

A diferença de idade entre ele e nós, os alunos, parecia sem importância. Em dezenas de vezes, seu espírito jovem derrubava os preconceitos que nós, alunos com menos de dezoito anos, tínhamos em relação a temas como vida, futuro profissional, iniciativas, família... Quando afastava os lábios, silenciávamos completamente: suas palavras formulariam mais do que simples opiniões. Suas palavras nos transmitiam lições que levaríamos – e continuamos levando – vida afora.

Por um motivo de paixão, escolhi profissões, ocupações e ofícios que sempre me lançaram aos trajetos das letras e da Literatura. Se hoje, quase trinta anos, pouco sei de expressões numéricas, desconheço as equações de primeiro e de segundo graus e não faço a mínima idéia do procedimento de transformar regras de três na descoberta de juros que pago em um empréstimo ou no cheque especial, a culpa é inteiramente minha que esqueci as lições aritméticas, mas lembro perfeitamente do grande mestre Roberto.

Por uma dessas coincidências e percalços do destino, lecionei Filosofia e Sociologia para uma turma de pedagogia. Ao fim do curso, pedi às alunas que escrevessem anonimamente suas críticas e reclamações. A falta de identificação garantia a tranqüilidade de “baixarem o cacete” em minha metodologia. Em casa, abri as folhas das críticas e sugestões. Surpreendi-me: mais de noventa e cinco por cento elogiavam a maneira de dar aula, a atenção em explicar inúmeras vezes, a paciência de conversar sobre assuntos diversos.

O sucesso conquistado na sala de aula se deve, em grande parte, ao professor Roberto Tadeu Sizotto a quem resumidamente direciono duas palavras que são poucas, mas essenciais: muito obrigado!

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 14 de outubro de 2011.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TRUFAS

- Pois é, doutor. Parece-lhe brincadeira, mas arriei graças a uma coisinha de dezessete anos. Desde meus nove ou dez anos sei dos problemas de saúde, especialmente diabetes.

O homem gordo pegou o copo de água, bebeu dois goles, olhou o relógio em cima da porta, respirou fundo e retomou a confissão:

- Minha neta sempre me oferecia trufas. Sabia se tratar de chocolate e, como sabemos, diabético, preciso evitar comidas doces, controlar a pressão, fazer exercícios físicos diariamente. A pressão está mais ou menos controlada. Troquei os exercícios físicos pela falta de comidas doces. Mas, confesso, realmente não me controlei.

O médico dispensou a enfermeira que terminara de injetar líquido no soro do corpulento paciente de oitenta anos, estirado numa cama de lençóis brancos, reclinado com a ajuda de cinco travesseiros.

- Terminava laudo no meu escritório. A planta da fábrica de mostarda, maionese e congênere de Teodoro Sampaio perdeu a estrutura do lado direito. Justiça, os donos alegaram prejuízo do dinheiro investido, férias coletivas aos funcionários para evitar qualquer acidente mais grave. Verifiquei que, na realidade, os engenheiros que construíram jamais poderiam usar aqueles materiais. Economizaram o máximo para aumentar o lucro.

Alguém entrou com bandeja sobre a qual repousavam remédios e copo de suco de laranja. O homem engoliu os comprimidos, bebeu o suco de laranja, pediu um de maracujá, acomodou-se melhor e, à saída do auxiliar, retomou:

- Quase cinco horas da tarde quando minha secretária me informou da ida ao banco: deixara alguns papéis durante o expediente e, ao fim deste, voltava para pegá-los. Uma estratégia muito comum para poupar tempo dos grandes escritórios e estreitar as relações entre bancos e clientes. Pouco tempo depois, alguém bateu à minha porta. Sabia que não era minha secretária. Levantei-me: uma coisinha linda de dezessete anos – ela me disse, rápida conversa, que tinha dezessete anos – segurava uma bolsinha térmica branca, pele perfeita, cabelos pretos repartidos em dois rabos de cavalo, shortinho curto e um top preto apertadíssimo. Nem prestei atenção nos tênis ou nas meias – geralmente presto atenção nos mínimos detalhes.

O auxiliar entrou segurando o suco de maracujá, copo na bandeja ao lado do paciente.

- Sem dúvida, ela não procurava estágio, pois sequer concluíra o ensino médio, nem se interessava na construção ou na reforma de prédios, que são nossa especialidade. Gostaria de vender-me trufas. Antes de comunicar minha impossibilidade de aquisição, entrou na minha sala, aproximou-se da mesa de centro, dispôs cuidadosamente a bolsinha e, para meu espanto, abaixou-se para retirar sua mercadoria: alcançou as trufas, mais ou menos na altura das panturrilhas, sem dobrar os joelhos. Sou homem completo, mas oitenta anos não são oitenta dias. Meu coração disparou. Começava a afrouxar a gravata quando veio em minha direção, puxou-me pelo braço e iniciou o tormento. Apresentou-me os sabores: chocolate, morango, maracujá, avelã, coco, caramelo... Daí para frente nada mais ouvi. Apenas prestava atenção na maneira como ela, a cada vez que pegava um dos exemplares, abaixava-se mais ou menos à altura das panturrilhas sem dobrar os joelhos: o coração tomava velocidades irregulares. Já tinha tirado a gravata, me livrara do blazer, afrouxara os punhos e arregaçara as mangas. Comecei a sentir formigamento, mas me mantive firme, olhando a gracinha pegando as trufas e me mostrando os sabores, as qualidades, os detalhes de produção artesanal. Já estava em ponto de bala quando, sem querer, uma das trufas caiu no chão e, demonstrando sua indiscutível disposição física, inclinou-se a pegá-la sem dobrar os joelhos. Já acordei nessa cama.

A esposa, dois filhos e três netos entraram alvoroçados no quarto. Queriam detalhes do acontecido.

- Trufas! Trufas!

- Sabes que não podes comer trufas, Manuel!

Dois toques na porta. Shortinho curto, top apertadíssimo, bolsa térmica.

- Trufas, disse a esposa. Trufas são realmente muito perigosas.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 7 de outubro de 2011.