Páginas

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CAINDO NUMA GELADA


Percalços, obstáculos ou impedimentos são encontrados em todos os trajetos, mas se deseja encurtar o caminho aos céus, adote um primo que more em Marília, trabalhe em São Paulo e visite-a de vez em quando sempre trazendo idéias brilhantes cujo testemunho, na capital paulista, centro do desenvolvimento, assegurará bem-estar ao seu cotidiano.

 

O primo discorrerá sobre o trânsito cardíaco, as oportunidades de empregos e negócios milionários respirando nas esquinas, nas mesas de bares, na fila do restaurante de quilo ou no cruzamento da Paulista com a Consolação. Abordará os principais temas de economia, sugerindo mudanças na política cambial e enfatizando a necessidade de equilíbrio do dólar a fim de ajustar as contas externas das empresas. Defenderá as transformações urbanísticas e elogiará a lei da cidade limpa. Criticará arduamente os problemas sociais, os menores abandonados ou os engaiolados em estruturas vis e apontará a solução à violência escolar ou universitária. Por fim, e não menos importante, incentivará a sustentabilidade, olhará seu telhado e sugerirá a adoção de placas de iluminação solar: mais economia, menos gasto de eletricidade, conforto total no ar condicionado ligado vinte e quatro horas.

 

Claro que, mulher inteligente, engajada nos modismos e solícita às orientações do primo – afinal, vive em São Paulo, conhece largamente as estratégias de sustentabilidade que salvarão o planeta – comprará as placas, as telhas e os materiais a fim de modificar a estrutura de sua casa e, consequentemente, dar mais qualidade de vida à família. Não apenas satisfeito em dar os preciosos conselhos, o primo também se disporá a ajudá-la a efetuar as transformações e, no dia seguinte, por volta das seis e meia da manhã, poucos minutos depois de sua mãe sair à caminhada diária com o intuito de atualizar as notícias – mulher jamais fofoca, apenas atualiza as notícias, ele baterá à sua porta, arreganhará os dentes, apontará a escada improvisada em cima do fuscão bala:

 

- E aí, prima? Pronta?

 

Você escovará os dentes, comerá pão, geléia, ovos mexidos, presunto, queijo e duas fatias de mamão, voltará a escovar os dentes, vestirá calças jeans de oito bolsos a fim de armazenar as ferramentas ao trabalho, ajudará o primo a retirar a escada do fuscão bala, mas antes de armá-la, lembrar-se-á do freezer problemático que, por uma válvula solta, encheu-se de gelo. Com a ajuda do primo – sempre sorridente e sempre da capital – empurrará o freezer até o quintal onde, debaixo do sol quente fulminante, os cachorros brincarão latindo com a agitação da manhã de sexta-feira.

 

Seu primo então se comprometerá a segurar a escada e a zelar pelo seu bem-estar. Dando-lhe orientações de instalação do teto solar, aconselhará o uso de mangueira de jato forte com o objetivo de limpar as telhas antes de qualquer mudança e, sem perder tempo, você subirá a escada enganchando, num dos bolsos, a ponta do janto de água. Em cima do telhado, olhará em volta e admirará Marília Bela, batizada pelo fundador da cidade em homenagem à Marília de Dirceu. Do outro lado da rua, crianças jogarão futebol utilizando quatro tijolos como traves.

 

Sua vizinha do lado esquerdo, observando sua intrepidez, perguntará de sua mãe e você, sempre solícita e delicada, dará uma volta de cento e oitenta graus a fim de responder-lhe. Mudança de posição, acionamento da alavanca, a água esguichará implacavelmente. Desequilibrada, ainda terá sorte de cair sobre o primo que, percebendo o desastre, pensou em correr para dentro de casa, mas o pensamento não correspondeu à ação.

 

A vizinha que testemunhara a queda e as crianças que ouviram os gritos chamarão os bombeiros, a polícia e, de quebra, a imprensa. Os bombeiros tentarão entrar no quintal para os primeiros socorros, mas os cachorros, apesar de pequenos, são ferozes.

 

Voltando da caminhada, sua mãe se exasperará com a multidão acabando com as orquídeas do jardim e, diante dos fatos, fixará seus olhos:

 

- Da próxima vez que ele – apontará para o primo – aparecer com a idéia de instalar aquecedor solar no teto, arrebente-o na cabeça dele!

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 26 de outubro de 2012.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MAÍSA


A memória guarda as coisas que amamos, declara Rubem Alves. A Literatura e a Filosofia infestam minha memória. Eu as amo. Algumas situações amorosas são claras; outras precisam de tempo, de resistência, de indiferença. Tempo, resistência e indiferença são três fatores essenciais para descobrirmos, meses, anos ou décadas depois que amamos cenas, pessoas, lugares.

 

Entrei numa excursão de estudantes, professores, pais, mães, avós e namorados que saíram de Rancharia (SP) rumo às cidades históricas de Minas Gerais. Uma de minhas aventuras mais memoráveis considerando que, tanto na ida quanto na volta, tivemos problemas com o ônibus. Na ida, percorremos de São José do Rio Preto (SP) a Uberaba (MG) sem embreagem; na volta, o veículo deu indícios de incêndio em Capitólio, município mineiro em que aguardamos socorro das dez da noite às três da manhã.

 

Chegamos a Ouro Preto – primeira cidade do roteiro – após meio-dia, guardamos as bagagens e caminhamos até um restaurante. Em seguida, paramos na casa da poetisa Elizabeth Bishop, alguns entraram numa mina, vislumbramos igrejas. O grupo se organizou para voltar à pousada e dormir, entretanto a vontade de percorrer as ruas íngremes da cidade que tanto enfeitiçara Vinicius de Moraes me fez reavivar a república de universitários onde me hospedara doze anos antes.

 

Nos dias seguintes, as imagens da primeira viagem sequer apareceram. Não me lembrava de pontos marcantes, de explicações pontuais, de situações lancinantes, mas bastou nos deslocarmos aos doze profetas esculpidos em pedra sabão e às sete passagens do calvário de Cristo dispostos em seis capelinhas em Congonhas para, numa retrospectiva instantânea, vislumbrar Maísa pedindo mais tempo ao então zelador. Transpuséramos mais de mil quilômetros para nos deslumbrarmos com a obra de Aleijadinho, mas o vigia estúpido respondeu negativamente ao pedido da professora.

 

Atônito com o tratamento ultrajante, pus-me ao lado de Maísa que, sentada num dos degraus do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, chorava desconsoladamente os minutos que nos fecharam as portas. Luciene, muito mais prática e inteligente do que eu, saiu em disparada fotografando o interior das seis capelas. Quando entramos no ônibus, improvisei discurso adolescente, prometi-lhe versos que entreguei, se a memória não me falha, duas semanas antes do término das aulas.

 

Doze anos depois, Adriana examinava tranquilamente as sete cenas dos tormentos de Cristo e, quando mais uma vez, voltamos ao templo central, a imagem de Maísa, desfeita em prantos, saltou-me das lembranças. Já não diferenciava os integrantes da excursão daquele instante e os da viagem de doze anos antes. Espalhavam-se, comunicavam-se, complementavam-se, transformavam passado em presente, desdobravam os limites entre imaginação e realidade.

 

Guardamos na memória as coisas que amamos, enfatiza Rubem Alves. Se diante de tanta festa e alegria, acompanhado de Adriana e de minha mãe, eu enxergava o choro inconformado e vencedor de minha professora de História e Sociologia da Arte no feriado da Proclamação da República de 1999, a justificativa repousava em simples constatação: amo Maísa.

 

Amo Maísa não porque se descabelou para nos levar às cidades históricas, nem porque nunca me azucrinou empurrando goela abaixo as teorias da arte, nem porque sempre nos escutou, compreendeu ou estimulou, nem porque chorou inconformada nos degraus do templo dos dozes profetas, mas amo Maísa Manaresi pelo fato de que, assim como Aleijadinho nos entalhes em pedra sabão e em madeira, ela venceu o tempo, cristalizou-se em minha memória e, portanto, alojou-se em meu coração. O segredo de Aleijadinho e Maísa? Eles não precisam de explicação, de convencimento, de demonstração. Basta olhar os trabalhos dos dois – distantes das ferramentas, da pedra sabão e da madeira, da lousa, do giz e das imensas pinturas guardadas numa pasta infantil descomunal – para concluir que arte não precisa de explicações: ou se é arrebatado, ou se é marginalizado. E, graças à professora Maísa, sinto-me sempre arrebatado. Obrigado, Maísa!

 

*A ser publicado na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 19 de outubro de 2012.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

FIDELIDADE IMPERIAL

- Pois, acredite. Sei de que estou falando. Ele a está traindo. Sim, senhora. Como dois e dois são quatro. Eu os vi juntos. Com esses olhos que um dia – ainda vai demorar a chegar esse dia – a terra há de comer.

A amiga de cento e vinte e dois quilos enfatizava a traição do marido da elegante, refinada e suave esposa: pele clara, cabelos curtos – entre pretos e castanhos – cortados na medida certa, portadora de inigualável sorriso imperial. Mesmo diante das peripécias extra-conjugais, o sorriso imperial mantinha-se inalterado e a voz tremulava entre a incredulidade e a convicção de que a amiga, por mais amiga que fosse, ensaiava intriga entre ela e o esposo.

O marido – rapaz de sorriso extasiante, bronzeado semanalmente em Cabo Frio, cabelos arrastadas para trás e quase formando um topete, roupas dos últimos suspiros da moda – negava reiteradamente as acusações absurdas.

A esposa de sorriso imperial lembrava-se de duas ocasiões em que desmascarara as intrigas. Na primeira delas, ex-colega de igreja a convencera a flagrar suposto encontro do marido com sirigaita no estacionamento de Shopping Center. Às seis e meia da tarde, montou campana na praça de alimentação. O marido e a mulher de seios fartos e roupas apertadas comeram, beberam, sorriram, manusearam seus respectivos telefones celulares e, ao fim, ele sacou nota de cinqüenta reais, puxou a cadeira da moça, deu-lhe o braço. Saíram pelo lado esquerdo e, quando estavam no estacionamento, provavelmente se dirigindo ao motel, a esposa de sorriso imperial os abordou.

- Oi, meu amor. Que felicidade te encontrar aqui! O marido desceu do carro. Vamos deixar a esposa do chefe no escritório e de lá seguimos para casa.

Como ela poderia imaginar que um cavalheiro do porte do marido criasse más intenções com a mulher do chefe? Em casa, pediu-lhe mil e uma desculpas.

Na segunda ocasião, a amiga de cento e vinte e dois quilos insinuou a freqüência a lugares aonde homens solteiros e maridos sem-vergonhas se reuniam nas noites de terça-feira. Às 22h35, entrou na casa meio às escuras numa das últimas ruas da cidade. Fingindo revólver dentro da bolsa – não passava de um pedaço de madeira achado na rua – entrou no quarto trinta e oito. Sentado numa cadeira, ruiva sem roupas em sua frente.

- Oi, meu amor. Pequeno exemplar do Novo Testamento no bolso da camisa. Vamos, juntos, converter essa alma arrependida?

Mais uma vez, quando chegaram à casa, encheram-se de remorsos os lindos e fotogênicos olhos que davam um toque de delicadeza às faces simpáticas. O marido – espírito evoluído e benevolente – perdoou o erro, mas a advertiu que, da próxima vez, não existiria compreensão.

Talvez por esse motivo, enchia-se de cuidados ao ouvir as denúncias que, garantia a amiga, mostrariam o quão calhorda era o marido. Naquela noite, marcara encontro com a amante. Sim, ele tinha amante. Não um caso eventual, mas uma amante de anos com quem se enroscava quando ela viajava à casa da mãe. Realmente, o marido estimulava-a sempre a viajar. Até comprava presentinhos para a sogra.

Às vinte e uma horas e trinta e um minutos, informadas por funcionário do motel que embolsara duzentos reais pela colaboração, estacaram, pelo corredor de serviço, à porta da suíte onde o marido e a suposta amante travavam sórdidos diálogos. A esposa – sorriso imperial intacto – tremia um pouco. A amiga de cento e vinte e dois quilos orientava-a: chave na fechadura, destrancar, entrar arrebentando, sem dar oportunidade do casal de facínoras – de onde ela tirara essa palavra? – se vestir. Contaram juntas:

- Um, dois, três. Já!

Quando entraram, quarto silencioso, barulho de água. Saíram pela direita e, na piscina, o marido arrastava uma mulher.

- Pois é, disse ele à esposa e à amiga dela. Eu vim salvá-la. Uma suicida.

- Salvá-la sem roupas? Indagou a amiga da esposa.

- Tirei os sapatos, as calças, a camisa – presente da minha sogra querida – antes de cair na piscina. Ainda bem que consegui salvá-la.

Do outro lado, a mulher de um metro e oitenta e dois de puras curvas vestia-se.

A esposa de sorriso imperial – sorrindo ainda mais imperialmente – disparou contra a amiga:

- Como você teve coragem de inventar mentiras contra um homem tão bom? Homem que arrisca a própria vida para salvar a do próximo?

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de outubro de 2012.