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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OBRIGADO E DESCULPE-ME

Obrigado e desculpe-me! Já ouviu ou falou essas frases hoje? Ontem? Antes de ontem? Mês passado? Antes, durante e depois do almoço, do jantar ou do café da tarde? Entrando no banco, saindo da padaria, esbarrando numa mulher na loja ou num homem no caixa do posto de gasolina?


Agradecer e desculpar-se aparenta comportamento subserviente, submisso ou serviçal, mas na prática consiste em palavras tão mágicas quanto as dos maiores magos para enfeitiçar platéias com seus truques. Alguns homens pensam que perderão a masculinidade ou a virilidade se agradecerem uma barra de chocolate, a lembrança simplória de viagem ou as cartas da caixinha presa à grade do jardim. Alguns julgam normal a ausência de desculpas quando se avança o sinal vermelho ou se estaciona temporariamente em cima da faixa de pedestres. Outros não julgam inconveniente o discurso à flor da pele, soltando cobras e lagartos pelos lábios de onde deveriam sair rosas, jasmins, eflúvios e melodias. Pedir desculpas?


Os homens não são os únicos na lista dos que se esquecem de dizer obrigado e desculpe-me! As mulheres desfrutam da estupidez, do descaso e da deselegância masculinas. Uma delas entrou no salão de beleza gritando com a cabeleireira que, ao telefone, informara que não encontrava nem seu horário muito menos seu nome. Se essa mulher tivesse um pingo de discernimento descobriria que a beleza feminina mais intensa não repousa nos cabelos e nas unhas, contudo na sutileza de, uma vez perdida a cabeça pelo nervosismo, pedir desculpas e agradecer pela compreensão.


Agradecer e desculpar-se, mesmo quando se está correto, é a maneira mais inteligente de evitar contendas. Deus nos ofereceu dois olhos, duas mãos, dois ouvidos e uma boca. Precisamos olhar mais, ouvir rotineiramente e apalpar sempre.


Uma mulher linda passou na sua frente? Olhe (você tem dois olhos), ouça sua conversa (você tem dois ouvidos) e, se possível, apalpe seus pensamentos, entretanto, em nenhum momento, fale com ela ou sobre ela. Embora algumas mulheres se digam evoluídas ou amadurecidas, boa parte delas jamais compreenderá os elogios pelo vestido bem cortado, os esmaltes em plena harmonia com o batom, o jeito único de andar ou os cabelos que nos enfeitiçam. Se algum dia sua esposa, namorada, parceira, ficante ou quebra-galho der-lhe um beliscão, não se esqueça: obrigado e desculpe-me!


Se possuir amantes – lindas, sorridentes, sedutoras, dotadas de sensível estupidez e notável ausência de educação – use os comandos essenciais: obrigado e desculpe-me! Tenha paciência e tente domesticá-las. Um cavalheiro jamais possui a intenção de subjugar a mulher desejada, mas sim a de sobressair a informação de que Machado de Assis se distinguiu dos demais escritores pela contenção, pela sutileza, pelos silêncios.


Machuca-se com maior eficácia pelo silêncio contínuo do que pelos gritos momentâneos, pelas cobranças ridículas ou pelas argumentações desarticuladas. Trinta quilômetros no carro em silêncio – ou ouvindo tangos instrumentados sem barulhos alheios – são mais arrasadores do que oitocentos metros de ataques.


Agradecer e desculpar-se correntemente. Em casa ou na rua, na escola ou no jogo de bola, no restaurante ou na associação de moradores, no trabalho ou na diversão, no campo ou na cidade, afundado em dívidas bancárias ou recebendo o prêmio da loteria... Qualquer lugar é lugar, qualquer hora é hora, qualquer pessoa é pessoa para se agradecer por atos ou presentes ou se desculpar cordialmente por ações impensadas ou involuntárias.


Trinta anos atrás meu pai, que não ingere bebidas alcoólicas, comprou uma garrafa de uísque. Armazenou-a na geladeira três dias e três noites até que os amigos, chegando a nossa casa, esperaram ansiosamente a “surpresa” prometida. Quando viram a garrafa transpirando, riram-se:


- Logo se vê que você não é do ramo.


Para quem aprecia, serve-se uísque na temperatura ambiente acrescentando-lhe pedras de gelo. Meu pai, desconhecedor da arte e estupefato com a informação, não pensou duas: - Vocês me desculpem! Eu não sabia.


Se essas linhas serviram para alguma coisa, obrigado. Se elas apenas tomaram seu tempo e encheram-lhe a paciência, desculpe-me.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 30 de dezembro de 2011.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

LANÇAMENTO DE EDITAL DE CONCURSO DE CRÔNICAS


AVISO

Temos a grata satisfação de informar que o edital do CONCURSO DE CRÔNICAS LAURA FERREIRA DO NASCIMENTO foi publicado.

Solicitamos aos interessados que leiam o edital COM ATENÇÃO a fim de evitar desencontros, atendo-se integralmente ao disposto e, principalmente, às regras de que as correspondências enviadas antes ou depois do prazo serão desclassificadas.

Informamos também que qualquer dúvida deve ser enviada para o seguinte e-mail: concursosdecronicas@yahoo.com.br

Aproveitamos para desejar a todos um 2012 repleto de realizações e indicar os blogs onde o edital está disponível:

- ADPCIM (Associação de Defesa e Proteção do Patrimônio Público e dos Direitos do Cidadão de Maracaí): http://associacaodedefesadopatrimoniopublico.blogspot.com/2011/12/edital-do-concurso-de-cronicas-laura.html

- ACULTIM (Associação de Cultura e Turismo de Maracaí): http://www.acultim.blogspot.com/2011/12/edital-do-concurso-de-cronicas-laura.html

- CONCURSO DE CRÔNICAS LAURA FERREIRA DO NASCIMENTO: http://www.concursosdecronicas.blogspot.com/

Boa sorte!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O CASAMENTO DO MEU IRMÃO


O Homem descobre que pode dar-se sem limites a tudo o que faz. (Pierre Teilhard de Chardin)





Meu irmão – quatro anos mais novo do que eu – casou-se no início de setembro numa Basílica. A imponência, a modernidade e a suntuosidade do lado externo contrastam com a simplicidade e o aspecto antigo do interior. Apesar das intervenções dos últimos vinte anos, um toque de outros tempos se manteve na constituição de beleza.





Vinte e quatro horas antes da cerimônia, os familiares de São Paulo – cujo trajeto de carro leva em média cinco horas e meia – meteram-se numa aventura que culminou na troca de bateria de um dos automóveis, acionamento do seguro, espera do guincho, vinda de taxis, procura de oficina, localização de malas...





Qualidades dos contratos em cartório civil: rapidez, eficiência e praticidade. Saímos todos do cartório direto para a churrascaria. Da churrascaria ao hotel – que ficava em outra cidade – iniciamos o primeiro transporte coletivo. Eu, no carro com minha namorada e mais três passageiros. Meu pai e minha mãe, carona com amigo de meu irmão. O sogro de meu irmão carregando mais quatro passageiros, malas e bolsas de viagem.





Quando chegamos à cidade, o resto da tarde procurando van para transportá-los à noite. Fui deixar minha namorada em Paraguaçu Paulista. Depois, passear em Pedrinhas Paulista com Bernardino, Otávio e Tiago. Na volta, banho, lanche e retorno a Assis onde, à porta da igreja, minha namorada e minha filha já nos esperavam.





O padre levou menos de uma hora para pronunciar o novo estado civil. Em seguida, os convidados saíram ao salão de festas tais quais tigres atrás de gazelas selvagens. Sem van – o motorista comprometera-se apenas a trazer os parentes – levei os primos, primas, maridos e esposas da igreja ao salão de festas em quatro ou cinco viagens.





Entrei finalmente no salão. Minha namorada e minha filha sentadas à esquerda do palco, acompanhadas de casal desenvolto com quem geralmente se firma amizade nessas situações. Antes de servirem o jantar, dois telões se abriram: um filme das pessoas que integraram as vidas de solteiros dos recém-casados. As imagens de nossa família surgiram, comecei a chorar. Disseram a minha mãe que me acharam sério demais durante o casamento. Geralmente, grito, berro, esculhambo, dou risadas em tons altos, ridicularizo a todos e a mim. Justamente entre as fotos, dona Laura almoçando, faca numa mão, olhar seco. Meu irmão, sorriso aberto, abraçado a ela.





Dona Laura é minha avó materna. Faleceu em primeiro de fevereiro de 2005. O Concurso de Crônicas de abrangência nacional, cuja Comissão Organizadora presido, leva o nome dela. Chorei ininterruptamente assim que vi a foto de Dona Laura. Meu irmão mais novo, o neto preferido. Aquele a quem chamamos de “queridinho da vovó”. Para ele, os melhores pedaços de carne, as mais saborosas porções de arroz e feijão, chocolate, goiabada, Coca-Cola, salgadinhos, queijo, presunto... Para ele, compreensão eterna, paciência inesgotável, simpatia permanente. Se alguém deveria presenciar o enlace, deveria ser dona Laura. Alguém que colaborou definitivamente na vida dele – e de todos nós – contudo não teve tempo de chegar. Alguém que não ficou pelo caminho, mas que fez o caminho.





Dias atrás, concluí que Natal é mais ou menos como o casamento do meu irmão: existem pessoas que estão ali pelo amor; outras, pela comida; outras, para aparecer nas fotos; outras, de bicão; outras, pela amizade. Mais importantes do que as presentes são as que, quaisquer que sejam os motivos, não tiveram a oportunidade de comparecer. O casamento me fez refletir: antes de comemorar, agradecer a quem se lançou na lama para evitar que nos sujássemos, a quem jejuou para nos livrar da fome, a quem secou a garganta para nos oferecer água, a quem fantasiou as próprias dores para nos fazer acreditar em nossos sonhos, a quem chorou para que sorríssemos. A meu irmão, esplêndido casamento. A minha avó Laura, muito obrigado! A você, que eventualmente leu essas linhas, Feliz Natal!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, do caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de dezembro de 2011.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ABAFANDO

Gisele entrou na pós-graduação de lingüística muito mais interessada em vigiar o namorado – estudante de letras focado na escrita limpa, direta e objetiva que pudesse ser utilizada tanto em jornais quanto em anúncios publicitários – do que em desvendar mistérios científicos de constituição de signos, significantes, significados, repertórios, códigos abertos e fechados.


Acessou a página do curso aberto na Universidade Estadual Paulista – campus de Assis – preencheu os requisitos necessários, fotocopiou a documentação, montou um projeto às pressas e, por um desses motivos que só Deus explica na lavra das memórias milenares, classificou-se para estupefação do namorado que, saindo de Prudente no sábado por volta das seis e meia, encontrou-a lindamente vestida na frente de casa.


Durante o caminho, o namorado esboçou dezenas de sorrisos por saber que Gisele, advogada frustrada e insegura, finalmente aproximava-se de algo que exigisse inteligência, bom senso e desempenho intelectual. Gisele providenciara novíssimo dicionário de língua portuguesa e, da bolsa preta com que trabalhava na rotina forense, sacou um de expressões latinas demonstrando que, sem dúvida, dedicava-se ao aperfeiçoamento do idioma.


Pensou que dissimularia sua ignorância. Sem muito esforço, limitava-se a copiar aleatoriamente alguns dados explicados pelos docentes. Sintagmas simples ou compostos, orações complexas e coordenadas, frases e interjeições? O que isso mudaria em sua vida? Assim como fizera na graduação e especialização em direito penal, bastava disfarçar, desconversar quando os colegas perguntassem da matéria e, sempre que possível, revirar os olhos, exaltar suas qualidades jurídicas, abordar qualquer tema fútil, enumerar as centenas de vestidos e de pares de sandálias.


A estratégia funcionou eficazmente até o quarto ou quinto sábado – as aulas aconteciam uma vez por semana – quando um dos professores distribuiu calendário de seminários individuais, estipulando o tempo de vinte minutos para exposição, indicando os pontos que gostaria de frisar e recusando-se a fornecer bibliografias ou roteiros de leituras.


A advogadinha entrou em desespero, consultou trabalhos na internet, confrontou algumas informações, emprestou alguns livros da ampla biblioteca, procurou ex-colegas de escola que tinham se tornado professores de português e até desembolsou quantia razoável num curso de redação de duas horas na internet. Por mais que tentasse, nada da matéria entrava na cabeça. O desespero tomou conta gradativamente. Numa audiência defendendo ladrão de galinhas, perguntada se desejava se manifestar, saiu com essa:


- Qualquer inclusão de sintagmas no discurso fechado, para um receptor sem o repertório suficiente, constitui ruído na comunicação, tornando-a parcial ou absolutamente ineficaz.


O juiz olhou para o escrevente que digitava os depoimentos. Empertigou-se. No fim da noite daquela audiência, trancou-se no quarto. Como se safar do seminário de lingüística no sábado seguinte? Como exporia as principais problemáticas, os confrontos teóricos e os novos estudos? Na sexta-feira, o professor de faculdade de fundo de quintal entregou-lhe impecável trabalho sobre o tema. Cobrou mais trinta reais por uma hora de explicações ao fim da qual, engolindo duas xícaras de café, cinco pães de queijo e taça de vinho do Porto, esbravejou a estupidez da intrépida aluna.


Na sexta-feira à noite, o namorado recebeu o telefonema: estava em Assis e amanheceria repassando os temas, ensaiando situações intricadas, antecipando perguntas do professor e dos colegas.


O professor de português teve pequeno incidente automobilístico no trajeto entre Presidente Prudente e Assis. Ao entrar na sala, por volta das onze horas, a aula já terminara e Gisele, sorridente, abraçava as colegas de curso. Ela simplesmente abafara: os vinte minutos da explanação dos meandros lingüísticos usara-os defendendo a pena de morte, relatando sua viagem a Vitória e mostrando, para desespero do namorado, trinta e cinco pares de sapatos que fariam sucesso no próximo verão.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de dezembro de 2011.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AZEITONAS

Carlos Eduardo convidou a mim e a dois amigos para visitarmos um tio que considerava maluco, cuja chácara localizava-se entre Cornélio Procópio e Londrina – ambas as cidades situadas no norte paranaense. A mãe preocupava-se com o irmão. Meses sem notícias. Adoentada e impossibilitada de viajar, solicitou ao filho que se deslocasse para saber das condições dele. Morava acompanhado de alguns cachorros, gansos e marrecos, isolado praticamente de tudo. A mãe já cansara de telefonar. Por mais que chamasse, ninguém atendia a ligação, perdida depois de alguns minutos.


Montamos no carro por volta das oito da manhã, cruzamos a divisa por volta das nove e às nove e vinte e oito percorríamos a estrada de terra – única lembrança de meu amigo – que teoricamente daria acesso à chácara. Para quem vive, viveu ou freqüenta chácaras, sítios e fazendas, compensa-se a ausência de sinalização com a gentileza dos moradores que informam onde fulano, beltrano ou cicrano residem. Por incrível que pareça, nenhum dos nove transeuntes ou proprietários tinham ouvido falar do tal tio.


Quase meio-dia quando meu amigo, reconhecendo velho Flamboyant sem folhas e um rio seco, recordou-se do atalho, entrou nele e cinco minutos após batíamos palmas em frente do alambrado enferrujado. Os cachorros apareceram primeiro. Em seguida, os marrecos. Os gansos, geralmente atrozes, vigiavam de longe. Um homem de bermudas rasgadas, segurando copo de líquido escuro – vinho do Porto da safra de 1970, conforme nos comunicou sem grande orgulho – abraçou efusivamente o sobrinho, cumprimentou-nos, perguntou-nos se tinha acontecido alguma desgraça. Qual o motivo daquela tropa?


Meu amigo revelou as angústias maternas. Por que não mandava e-mails? Por que não os visitara mais? Por que não atendia aos telefonemas? Engolindo pequenas doses, segredou outros projetos. Se gastasse dinheiro visitando os familiares, pagando internet ou telefone, aplicando em roupas de grife – os olhos de um de nossos acompanhantes espantaram-se com os trajes praticamente de mendigo – ou jogando as economias em festinhas com os amigos, os projetos ficariam prejudicados.


A conversa prolongou-se, passeamos pela casa e, a cada cômodo que entrávamos, espantávamo-nos com a bagunça: pia cheia de pratos, roupas sujas no banheiro, varanda forrada de barro, ninhos na área de serviço e na garagem. O tio de meu amigo, professor universitário aposentado, gostava de seu estilo de vida. Quando o colega que se espantara com seu jeito inquiriu, após visualizar velha lata de azeitonas como única fonte de alimentação disponível na geladeira desbotada, se não seria mais vantajoso diminuir as aplicações em seus planos para adquirir alguns produtos, reformar a casa e contratar empregada, o tio de meu amigo interrogou-nos:


- Tenho setenta e dois anos. Caminho, nado três vezes por semana, escrevo, leio, traduzo, analiso esteticamente, diferencio os acordes mais sublimes das mais complexas músicas, sei de cabeça os mais importantes pintores desde a Idade Média. Já viajei trinta e oito países, todos os estados brasileiros, nadei no Mar Morto, engoli neve da casa dos maiores poetas de todos os tempos, visitei os escritórios e bibliotecas dos filósofos da modernidade, entrei em campos de concentração desativados, bailei com mulheres com quem jamais nem vocês, nem seus pais, nem seus avós e, muito menos, seus filhos terão o inigualável prazer de dançar. Nos próximos meses, tomarei nos braços as mais belas damas de Viena, farei amor com as mais lindas da Costa do Marfim, beijarei as mais fulgurantes da Dinamarca, conversarei com os melhores dramaturgos da Noruega, provarei os melhores pratos da Finlândia, da Grécia, de Marrocos e da Hungria, provarei os vinhos da Macedônia, da Irlanda e de Mônaco. Lançarei dinheiro em reformas e empregadas?


Quando nos sentamos em um restaurante de Londrina, dois pediram filé de peixe, meu amigo, salada acompanhada de cremes e molhos orientais. A garçonete me frisou: seguia o pedido dos amigos ou desejaria algo diferente?


- Uma lata de azeitonas, por favor.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de dezembro de 2011.
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TRABALHO DE ESCOLA

O mundo se transformou quando completei treze anos. Gozava de respeito de pais, familiares e conhecidos, a diretora da escola reconhecia minhas qualidades, mas, na prática, por um desses mecanismos que infestavam as cabeças nesse período, minhas notas começaram a despencar. Até mesmo em matérias como inglês, português e matemática, com as quais desde sempre me dei bem, minhas médias variavam entre dois e cinco. Sem recursos para esconder de meu pai as notas vermelhas que pululavam o boletim.


Provas finais de ciências, geografia e educação artística. Provavelmente ficaria pendurado em inglês, contudo a professora, conversando comigo ao fim do recreio, sentenciou nova chance desde que, dali a uma semana, sem rodeios e de maneira séria, assumisse o compromisso de entregar trabalho sobre o conteúdo do primeiro e do terceiro bimestres além de redação de trinta linhas.


Pelo menos de inglês meu couro salvava-se de levar cacetadas corretivas. No fim de semana, peguei as apostilas da escola, livros do curso que freqüentava duas vezes por semana, anotações avulsas. Uma hora e meia depois, o trabalho impecável – folhas coloridas, desenhos bem articulados e capa repleta de flores de campo – repousava na minha escrivaninha para, na terça-feira, depois do intervalo, colocar nas mãos da professora.


Arrumei minha mesa, abri a gaveta e coloquei o trabalho lá dentro, protegido por um plástico, fechado cuidadosamente com grampo. Limpei o guarda-roupa, encontrei um compasso e duas réguas antigas, uma caixa de lápis de cor, um caderno de desenhos meio amarrotado. Tive saudades do tempo de quarta-série. Instintivamente abri a última página, espalhei os lápis na mesa, comecei a desenhar um coração e, mesmo mal acabado, identifiquei o motivo de meus devaneios, a causa de minha desatenção e a resposta de minhas concentrações nos últimos meses: Lara.


Lara transferira-se de escola militar do Rio de Janeiro. O pai dela, oficial da Marinha, recebera a designação de trabalhar no Porto de Presidente Epitácio, mas optou pela instalação da família em Presidente Prudente. Apesar de vagar pelos bancos da sétima série, pensava numa maneira de romper os limites de idade e de convivência de grupo para me aproximar daquela morena de dentes perfilados que terminava o terceiro colegial. Ainda não tivera coragem de declarar meu amor. Riscava alguns versos na contra-capa de meus cadernos. Os professores acreditavam que eu estivesse anotando assuntos relacionados às disciplinas quando, na prática, escrevia acrósticos inspiradores.


Dias e mais dias, lendo, relendo, escrevendo e inventando poesias com o nome da garota de meus sonhos, de meus devaneios, de meus desejos e de minhas vontades. Bastava uma folha de guardanapo de lanchonete de beira de calçada flanar no vento para iniciar versos de homenagem a Lara.


Justamente escrevia versos para a menina de meus sonhos, sentado no banco improvisado de ponto de ônibus, quando uma sombra se fez em minha frente. Ergui os olhos. Lara sorria: - Você não estuda na mesma escola que eu? Gelei, a respiração descompassada prejudicou a articulação de alguma frase de imediato. Conversamos por cerca de vinte minutos até eu perder minha condução e o ônibus dela com destino a Indiana interromper meus momentos de regozijo.


Entrei em casa apressadamente, tranquei-me no quarto, recusei o jantar – minha mãe batendo à porta de cinco em cinco minutos até se entreter com as novelas – e me pus a desenhar corações, olhares, bocas, lugares para onde viajaria com Lara. Poderia ser Indiana, Teodoro Sampaio, Álvares Machado ou, quem sabe?, Presidente Epitácio. Tempos depois, embarcávamos num cruzeiro que visitava Inglaterra, Portugal, Espanha, Grécia e Itália. Seguíamos de trem para Rússia, Suíça e França. Comecei a cochilar. Agendei-me mentalmente: dia seguinte, pegaria a bolsa, a bola de futebol, o agasalho para devolver à minha prima, a roupa de educação física e o trabalho de inglês.


Adormeci sobre a mesa. Dia seguinte, minha mãe gritava: meu pai sairia em cinco minutos. Vesti a camisa ao avesso, troquei as cores das meias, saí correndo com os sapatos na mão. Recolhi os objetos de minha lista mental: bolsa, bola de futebol, agasalho, roupa de educação física.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 2 de dezembro de 2011.

sábado, 26 de novembro de 2011

SONHOS E ILUSÕES

Pelo menos uma vez na vida ouviremos ou falaremos sobre sonhos e ilusões. Alguém menospreza o interesse pela Literatura e nos alerta: - Por que você não para de sonhar e vai procurar alguma coisa mais séria como advogar, fazer imposto de renda, negociar na bolsa de valores ou no mercado de imóveis? Vez por outra, alertamos que não se precisa de tanto dinheiro para viver e que, já que se tem dinheiro de sobra, por que não viajar o mundo, trocar experiências, amadurecer idéias, planejar sonhos?


Sonhos são sempre bem-vindos em todos os lugares, em todas as situações, em todas as idades. O menino sem dinheiro que gostaria de uma bola de futebol é um sonhador. O pai que deseja que os filhos ganhem excelentes salários é um sonhador. O jovem que acredita na justiça é um sonhador. A namorada que defende a fidelidade do namorado é uma sonhadora. Sonhadores também são os que vislumbram as mensagens que tremeluzem na rotina, os que desejam a transformação social, os que acreditam na salvação do mundo ou os que mantêm a fé na libertação do homem.


Os sonhos são sempre bons. As ilusões são os percalços dos sonhos. O sonho impulsiona a vida; a ilusão nos joga ao ridículo. O sonho fortalece a maturidade; a ilusão facilita o desequilíbrio. O sonho constrói caminhos diferentes, desconhecidos, mas seguros; a ilusão apresenta uma estrada pavimentada e, ao mesmo tempo, repleta de segredos que podem nos custar a vida.


Concluir a graduação de filosofia é um sonho. Imaginar-se um pensador indispensável é ilusão. Formar-se médico é um sonho – sonho de boa parte das pessoas que não gostam de estudar e se preocupam mais com status e oníricos benefícios financeiros do que com a saúde alheia. Autodenominar-se cientista é uma ilusão. Entrar numa sala de aula na condição de professor é um sonho; atribuir-se a qualidade de Educador sem nenhum esforço teórico ou prático é uma ilusão.


Precisamos manter intermitente a possibilidade de sonhar. Jamais poderemos barrar os sonhos, por mais mirabolantes e incríveis, mas necessitamos impedir que os sonhos se convertam em ilusão. Se o sonho se disfarça em ilusão, assumimos a falta de maturidade, de perspectivas e de capacidade de enfrentar desafios.


O casamento duradouro é um sonho – que atinge os devaneios de quem se aventura no convívio a dois – mas achar que se tem um poder especial de dar um jeitinho para evitar a deterioração dos laços é uma ilusão. O sonho é forte se preparadas estratégias que vão minimizar os impactos inevitáveis. A freqüência e a qualidade sexual diminuem depois do quinto ano. Acreditar que, com você, unicamente com você, a relação será diferente é uma ilusão; apostar suas fichas no amor, na ternura e no diálogo, criando e reforçando os sentimentos de cooperação é um sonho.


O tratamento com os filhos também pode desembocar em sonhos e ilusões. Desejar um filho saudável, culto e feliz é um sonho. Acreditar que atravessaremos pacificamente a adolescência – sem violência, sem gritos, sem frustrações, sem alterações nos nervos, sem choros, sem contrariedades – é uma ilusão. O sonho consiste no domínio das rajadas que virão contra nós. Perseverar, esperar, acreditar, fomentar a paciência e adquirir conhecimentos para essa nova situação é sonho. Tratar os filhos de onze ou treze anos – que ensaiam os primeiros passos na seara adulta – da mesma maneira de quando tinham seis ou oito anos é ilusão.


Os sonhos permitiram a descoberta da vacina contra a gripe, incentivaram as pesquisas contra a tuberculose e a pneumonia e, um dia, talvez em breve, permitirão que milhões livrem-se da Aids e do câncer. Os sonhos permitiram a um gago, feio e sem curso superior ocupar o lugar de maior escritor brasileiro de todos os tempos. Os sonhos, só em sonhos, um alemãozinho surdo e medonho ganharia lugar de destaque na história da música clássica universal.


Sonhos e ilusões, ilusões e sonhos. Sonhamos com beijos apaixonados, o resgate de sentimentos, a compreensão dos pais ou a compaixão dos filhos, a tranqüilidade da aposentadoria ou o reconhecimento profissional. Sonhamos com um dia de sol nas férias, chocolates nos intervalos das refeições, Coca-Cola gelada esperando depois do treino, dinheiro na conta. Sonhamos com o estado imutável de felicidade, a viagem no fim de ano, um olhar de desejo. Nos iludimos com tantas coisas. Com que você se ilude?

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de novembro de 2011.

sábado, 19 de novembro de 2011

NÃO É BOM EU EXISTIR?

Três anos atrás larguei as experiências culinárias para me dedicar às atividades menos nobres: escrever, ler, dormir, arrumar livros, fazer caminhadas. Até que, no último fim de semana, procurei revistas de frangos e de arroz que eu comprava a preços módicos em bancas de jornal.


As receitas pareciam muito fáceis. Escolhi três tipos de arroz de forno dos quais elegi dois: um para o sábado, outro para o domingo. Minha namorada questionou-me: por que, depois de tanto tempo, voltara a cozinhar? Amaciava o terreno para notícias bombásticas? Minha filha Natália escarneceu a iniciativa, mas, no dia seguinte, por volta das dez e meia, azucrinou-me até desligar o computador. Já preparara metade dos ingredientes quando entrei na cozinha: desfiara o frango, cortara as azeitonas obviamente excluindo os caroços, picara os tomates, ralara o queijo, separara a noz moscada.


Derretíamos a manteiga e acrescentávamos alguns produtos na elaboração do molho:


- Não é bom eu existir? Se eu não existisse, você teria de picar, lavar a louça, desfiar o frango.


Disse-lhe que era sempre bom ela existir. Nunca quis ter filhos – Natália, minha filha de onze anos, sabe que não sou seu pai biológico – entretanto tive a sorte de encontrar uma filha perfeita que é Natália. Perfeita? É a versão feminina do tempo verbal: mais do que perfeita!


Perfeita porque assistimos juntos aos filmes de terror, de suspense, de desenhos, de comédia e de romances. Perfeita porque dá trabalho à sua mãe que, nos momentos de nervosismo enfrentados no diálogo com a adolescente, chora, se desespera, entretanto sente-se indiscutivelmente feliz de tê-la alojado por nove meses. Perfeita porque aprendeu a mentir tão bem quanto eu: nem completou doze anos e enrola a avó materna com histórias mirabolantes. Perfeita por perdoar minhas irritações quando, por motivos estúpidos, explodo em iras, berros e pressas, especialmente nas viagens. Perfeita porque sai na cacetada comigo para disputar o controle remoto: eu, querendo assistir ao “Pânico na TV”; ela, “Silvio Santos”.


Quando sua mãe faz brigadeiros, precisa dividir a bandeja em partes iguais: metade minha, metade dela. E, até nisso, é perfeita: mesmo me enfrentando para que eu não a roube, abre mão de sua quantidade. Também é perfeita porque faz companhia à minha mãe nas viagens a São Paulo, João Pessoa ou Vitória. Perfeita, ainda não sabe responder à minha pergunta: “Por que te amo tanto?” Talvez, no dia em que souber me responder, deixe de ser perfeita, pois terá se transformado numa mulher. Adulta, descobrirá o mundo dos conceitos, dos preconceitos, dos esquecimentos e das lembranças. Daí para frente, nem brigadeiros, nem confrontos pelo controle da televisão, nem filmes, nem viagens criarão mágicas. As mágicas criadas devem ser criadas agora! As amizades estabelecidas precisam ser fortalecidas agora! As cumplicidades sonhadas precisam de compartilhamento agora!


Amizades e cumplicidades são conceitos aterrorizantes. Lembro-me de sua mãe confidenciando a paixão por um pirralho da escola. Fiz o discurso de padrasto moderno. À hora de dormir, revirei-me na cama a noite inteira angustiado por saber que minha filha está se apaixonando. Nietzsche propaga a idéia do eterno retorno. Ressalta que se o universo tivesse alguma finalidade, essa finalidade já teria sido alcançada. Ele não está errado. Outros pais, mesmo considerados modernos, certamente descabelam-se pensando nesses últimos momentos que ficam guardados nas lembranças, na memória, no coração.


Não sei se continuaremos pai e filha por muitos anos. Ela pode escolher outro pai e concluir que é muito melhor do que eu. Outro pai certamente possuirá qualidades ilimitadas, paciência e responsabilidades, virtudes que não tenho. Uma coisa é certa: décadas podem transcorrer, ela pode escolher outro pai ou morarmos em lugares distantes. Aconteça o que acontecer, lembre-se que estarei diariamente recitando Shakespeare, reforçando que barreiras de pedra não podem deter o amor.


Se é bom você existir? Não é bom! É formidável, fascinante e único. Talvez Deus quisesse mostrar-me o lado divino da criação. Ele escreveu em seu bloco de notas: você vai ser pai de Natália, mesmo que por pouco tempo.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de novembro de 2011.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ESCRITOR LANÇA LIVRO EM ASSIS (SP)

O Educador e Escritor Márcio Alexandre da Silva lançará a novela “Pode morrer de tanto amor?” na sexta-feira, 25 de novembro, a partir das 20h, no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora de Fátima.
A obra, que marca a estréia do autor no mundo literário, aborda as nuances de felicidade, as angústias provocadas pelo amor e o redimensionamento da esperança.
Marcio Alexandre da Silva, que é professor de filosofia da rede estadual de ensino de São Paulo e palestrante, tem vasta e intensa colaboração nos principais veículos de comunicação de Assis, Presidente Prudente, Bauru, Marília e Ourinhos, destacando-se por suas críticas e reflexões filosóficas sobre as atividades cotidianas.
Além de performances artísticas, o evento contará com a participação do crítico literário vicentônio silva que explanará brevemente sobre os temas pontuais da obra. Exemplares do livro serão comercializados no local.

O QUÊ?
Lançamento do livro “Pode morrer de tanto amor?”
Autor: Márcio Alexandre da Silva

ONDE?
Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora de Fátima
Rua Nivaldo Neres Gusmão – 96
Vila Prudenciana
Assis/SP.


Quando?
Sexta-feira – 25 de novembro

HORÁRIO
20 horas

ENTRADA FRANCA

Laerte Gomes
Assessor de Imprensa
laertegomes05@bol.com.br

sábado, 12 de novembro de 2011

ALIANÇA DE COMPROMISSO


Entrei apressadamente no correio para despachar alguns documentos a serem enviados antes das dezesseis horas. Segundo o grande aviso afixado, dezesseis horas o limite para entrega de correspondências que subiriam no caminhão naquele dia. A funcionária indagou se as mandaria de forma simples, registrada ou por sedex. Se possível, incluiria a correspondência na categoria de cartas sociais – aquela espécie de carta para a qual desembolsamos um centavo na sua viagem país afora. Continuou verificando as taxas no computador. Meus olhos pousaram sobre as mãos pequenas e, na direita, aliança de prata quase embaçada simbolizava o compromisso.


O sistema ainda lento e a falta de proximidade com a funcionária levaram-me ao silêncio, mas em minhas fabulações reconstruía a cena dos argumentos para o uso da aliança de compromisso. A aliança de compromisso tem duas finalidades práticas: medo e propriedade. Quando a mulher possui charme natural ou artificial, elegância peculiar ou dotes pessoais capazes de inspirar poetas de porta de bar, o namorado, com medo de sua desvantagem, lasca-lhe uma aliança para que os outros interessados eventualmente recuem em suas ofensivas. Nem sempre o resultado é garantido. Antes se iludir do que perder o sono. Já a segunda alternativa acontece quando o homem, desejando demonstrar sua força de macho e de mandatário, mete uma aliança de prata na namorada a fim de demarcar belicamente sua “propriedade”.


Em muitos casos, as mulheres são convencidas a aceitarem as alianças como símbolo de propriedade do namorado e, nem por isso, nem pela informação de que integram os domínios de posse de alguém, se acham injustiçadas ou se revoltam. Na declaração de imposto de renda, o namorado especifica os bens adquiridos no ano anterior: uma casa, uma moto, uma bicicleta, uma esteira, uma adega de leilão de produtos apreendidos pela Polícia Federal e vendidos legalmente para beneficiar instituições de caridade, cinco vacas, doze éguas e uma namorada, sendo esta última o bem mais barato, mais prático de manter e mais fácil de substituir.


A resposta da namorada a um elogio é a melhor maneira de constatar se a aliança repousa no dedo por questões de medo ou de propriedade. Se eventualmente reconhecer o cheiro suave da mulher numa tarde quente, adorar suas roupas ou informá-la de que de sua franja emanam eflúvios eróticos, preste atenção na resposta. Se ela disser que “meu namorado também acha”, não tenha dúvida, você está diante da propriedade de alguém. Cuide-se! Na primeira oportunidade, tomando conhecimento de sua ação, o “dono” pode reclamar na justiça não apenas direitos sobre as vacas, as éguas ou as galinhas, mas igualmente da “namorada”.


Algumas namoradas são mais espertas. Conheço três mulheres perspicazes que, até hoje, manipulam parceiros com tamanha perícia que os respectivos patetas defendem as idéias delas, como se fossem deles, com unhas e dentes. O detalhe mais interessante talvez seja a infidelidade. Enquanto os três patetas defendem com unhas e dentes as namoradas, propagando idéias delas como se fossem suas, elas simplesmente flanam, dançam e se envolvem com exemplares masculinos muito mais interessantes.


-Vinte e três reais e noventa centavos.


Despertei de meu devaneio, puxei cinco cédulas de cinco reais da carteira, frisei bem as faces da atendente sem definir se ela se enquadrava no domínio dos namorados “medrosos” ou no dos “proprietários”. Os trejeitos tão desencontrados denunciavam que a aliança de compromisso escondia os desejos de mulher mal amada, descartada sistematicamente pelo parceiro.


Olhares mais apurados denunciam as insatisfações: se você – que é mulher, mas não se sente uma – foi trocada pelo jogo de futebol na televisão ou com os amigos, pelo churrasco ou pela cerveja no bar, a demonstração entre a inteligência e a estupidez está na sua reação.


O compromisso entre duas pessoas não se estabelece em alianças, documentos de casamento ou atestados de união estável. O compromisso entre duas pessoas acontece de várias formas. Já descobriu uma delas?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 11 de novembro de 2011.

sábado, 5 de novembro de 2011

PORTAS ABERTAS

Passei alguns dias em Ouro Preto (MG) e, na ida e vinda das ruas, das pessoas e dos horários, essa casa me chamou a atenção:






Fica próxima de uma das igrejas mais visitadas da antiga capital mineira. Não é nem grande, nem imponente, nem vale rios de dinheiro, nem abrigou grandes homens da história brasileira em busca da Literatura perfeita ou da independência do país.


Durante a caminhada da manhã de domingo em que os céus exalavam os perfumes de nuvens carregadas de tempestades atrás das montanhas de ferro, a casa, janelas escancaradas e porta entreaberta, sussurrava:


- O que você está esperando para ser feliz? A porta já não está aberta?


Algumas vezes, ignoramos as coisas/casas aparentemente sem valor e não nos damos conta de que a porta já estava aberta, mas esquecemos de entrar.


Bom fim de semana.

BIBLIOTECAS

A ida à biblioteca pública – ou, quem sabe, com muita sorte, privada? – deveria se tornar evento simpático, distante da solenidade que exterioriza o tédio, a aversão e o descontentamento. Na falta de bibliotecárias competentes e graduadas em boas instituições de ensino superior, jogam entre os amontoados de livros pessoas de todas as qualidades, mas duas espécies se sobressaem: as mal-amadas e as que detestam ler.

Cada biblioteca deveria se dividir em quatro ou cinco espaços destinados aos leitores específicos. Por exemplo, na biblioteca das crianças, grade de atividades, de festejos, de músicas, de vídeos, de brincadeiras e de brinquedos. Mesa repleta de doces, refrigerantes e salgadinhos. Frutas, legumes, verduras, sucos e assemelhados naturais seriam obrigação dos pais que, além do trabalho de desentupir os pimpolhos dessas bobagens, se incumbiriam de enchê-los de computador ou televisão, fomentando a vida sedentária. Afixaria placa bem colorida à porta com a seguinte informação em letras grandes: ENTRE SEM FAZER SILÊNCIO! Poderíamos entrar gritando, batendo palmas, pulando, tocando instrumentos, sambando nas mesas, afastando cadeiras...

Os adolescentes e jovens compartilhariam o mesmo espaço. Adolescentes gostam de conviver no ambiente dos que consideram uma meta a se atingir e os jovens, especialmente os imaturos, sempre gostam de servir de modelo para alguém, contando experiências ou inventando situações que demonstrem ou comprovem sua superioridade. Para eles, ambiente com música, dezenas de filmes, de revistas de moda, de fofoca e de interesses específicos como viagens, depoimentos de vitoriosos que enriqueceram da noite para o dia desenvolvendo jogos de informática, de maneira de melhorar a atividade sexual ou de conquistar com mais eficácia, mais economia e mais rapidez. Uma mesa de jogos de salão poderia ser instalada justamente no meio do prédio de modo que, numa folheada entre um Moacyr Scliar e um Marquês de Sade, possam aproveitar o tempo acertando a bola no gol adversário, manipulando cansativamente os homenzinhos quase imóveis, divididos em dois grupos de cores opostas.

Os universitários formam grupo especial entre os jovens. Uma biblioteca se constituiria para facilitar a vida desse agrupamento de estudantes que se consideram superiores. Para eles, seguindo a sugestão de um discente de matemática que confessou a fuga da biblioteca por não encontrar nada de interessante lá, as atendentes precisariam trajar-se inspiradoramente: espartilhos e chicotes. Poucos se importariam no sofrimento corporal e, uma conclusão é pacífica, seriam apontados nas ruas como estudiosos, leitores ou pesquisadores pelas marcas expostas.

Os adultos – formados ou em formação – procurassem sugestões de acordo com seus interesses pragmáticos, entretanto os integrantes da melhor idade mereceriam ambiente peculiar. Pensei muito nas opções de cadeiras de balanço, de recantos silenciosos regados a músicas clássicas, especialmente aquelas vinculadas à venda de botijões de gás, de ambientes angelicais. Um senhor – senhor? Claro que não! Um espirituoso, ele me corrigiria – de oitenta e três anos perguntou-me se gostaria de criar ambiente aprazível ou cemitério. Boquiaberto, arregalei os olhos sem dizer palavra.

Segundo esse leitor, a idéia perfeita de biblioteca para a melhor idade consistiria num amplo espaço de baile, churrascos, músicas dançantes, dezenas de espécies de bebidas – das mais fracas a que derrubariam o  degustador com apenas um dedo do líquido fatal – oportunidades fáceis de quatro horas diárias de trabalho para os interessados e, sem dúvida, viagens mensais aos lugares mais desejados. Leriam Neruda para embarcar a Santiago; Borges, Arlt e Cortázar, Buenos Aires; Carlos Fuentes, México; José Lins do Rego, Rinaldo de Fernandes ou José Américo de Almeida, Paraíba; Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll ou Valesca de Assis, Rio Grande do Sul; Jorge Amado ou Castro Alves, Bahia. Deonísio da Silva ou Edla Van Steen, Santa Catarina. Precisaria enumerar os escritores que nasceram ou se fixaram no Rio de Janeiro?

Leitores iniciantes, profissionais ou em potencial? Temos aos milhões. Precisamos nos dedicar a montar bibliotecas para acomodá-los.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de novembro de 2011.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CARTAS DE AMOR

Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor senão fossem ridículas. Quem se atém à superficialidade do primeiro verso acredita que a mensagem encerra-se nesse argumento: cartas de amor são ridículas. O escritor inteligente entra com metade dos esforços na criação literária posteriormente completada por cada leitor que relembrará as declarações mandadas ou recebidas e sentenciará: as cartas de amor são ridículas.

O poeta não desqualifica as cartas de amor ou o sentimento expresso nelas, mas denuncia o leitor ridículo que, com o tempo, as experiências e as frustrações, abandona as perspectivas amorosas para se meter num universo seco, racional, monocromático. As cartas de amor não são ridículas. Ridículas são as pessoas que lêem as cartas de amor.

Se perguntarmos às mulheres o que acham do homem que, parando-as à fila do banco, do correio ou do supermercado, confessa que as considera as mais elegantes, as mais charmosas e as mais lindas das últimas semanas, a maioria dessas mulheres – independente de 18, 30, 45 ou 63 anos – vai se sentir lisonjeada, enaltecida, revigorada, contente por despertar a atenção do desconhecido.

Quantos homens cavalheirescamente pararam você nos últimos dias à fila da farmácia ou do posto de combustíveis para confessar a admiração pela beleza, elegância ou charme? Quantos disseram que o conjunto de roupas – nunca confunda roupas caras com roupas de bom gosto – elevava você à mais elegante do ambiente? Quantos elogiaram o cabelo e o perfume discreto que dão o tom da melodia? Poucos são os homens “ridículos” que reconhecem conjunto estético que extasia inexoravelmente.

Qualquer mulher, de qualquer idade, de qualquer religião ou de qualquer condição sócio-econômica se sentirá deslumbrada ao receber elogios. São ridículas essas mulheres? Ridículos são os homens que se esqueceram de admirar o belo e se concentraram exclusivamente no comestível. Ridículos são os que deixam de comprar flores para adquirir panelas, batedeiras ou ferros de passar. Ridículos são os que se envergonham de recusar o futebol, a cerveja com os amigos, a conversa fora de hora que atravessa a noite ou o churrasco de fim de semana inteiro, entretanto não refletem ao abandonar as namoradas em casa. Ridículos são os que compram carros para desfilarem nas avenidas e encherem os olhos alheios, mas se esquecem do sorvete da filha, do cachorro-quente do filho, do caderno, da caneta ou do livro da esposa que estuda à noite.

Tive um amigo – mais ou menos metro e setenta, oitenta quilos, calvo, barrigudo – que recebia a visita de uma ex-namorada de tempos em tempos. Ela, a ex-namorada, casara três vezes, namorara uns dez rapazes. Perguntei se ela vinha pegar dinheiro. Ele respondeu-me que o patrimônio dela resultava vinte vezes o que ele tinha. O que ela via nele? Meu amigo não era ator de cinema, modelo de desejo ou símbolo erótico. Durante o almoço, perguntei para a ex-namorada. Numa frase resumida: “São os únicos braços nos quais me sinto completamente mulher”.

Relendo esses versos que poucos têm a felicidade de compreender, o poeta deseja nos fazer enxergar que ridículas são as pessoas que deixaram de sonhar, de amar, de desejar e, ao presenciarem cenas, atitudes ou cartas de amor, transferem às cenas, atitudes e cartas de amor a frustração de perderem o carinho, a ternura e o amor. As pessoas sem sonhos e amargas consideram as atitudes alheias quase sempre ridículas, mas não se dão conta de que elas é que são ridículas. As cartas de amor – assim como os elogios às mulheres ou o reconhecimento aos homens – jamais mudam. Somos nós que mudamos e perdemos as capacidades de amar e, quando perdemos essas capacidades, respaldamos amargamente que somos pessoas ridículas. Ridículas são as que, lendo as cartas de amor, acham ridículas as formas e os conteúdos dessas missivas. Afinal, pessoas mal amadas nunca se definem ridículas, mas sérias, céticas e impassíveis. Espero que você, que eventualmente me leu, me ache ridículo e se ache ridículo. Do contrário, seremos mais duas dos milhares de pessoas mal-amadas que julgam os outros ridículos.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 28 de outubro de 2011.