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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AZEITONAS

Carlos Eduardo convidou a mim e a dois amigos para visitarmos um tio que considerava maluco, cuja chácara localizava-se entre Cornélio Procópio e Londrina – ambas as cidades situadas no norte paranaense. A mãe preocupava-se com o irmão. Meses sem notícias. Adoentada e impossibilitada de viajar, solicitou ao filho que se deslocasse para saber das condições dele. Morava acompanhado de alguns cachorros, gansos e marrecos, isolado praticamente de tudo. A mãe já cansara de telefonar. Por mais que chamasse, ninguém atendia a ligação, perdida depois de alguns minutos.


Montamos no carro por volta das oito da manhã, cruzamos a divisa por volta das nove e às nove e vinte e oito percorríamos a estrada de terra – única lembrança de meu amigo – que teoricamente daria acesso à chácara. Para quem vive, viveu ou freqüenta chácaras, sítios e fazendas, compensa-se a ausência de sinalização com a gentileza dos moradores que informam onde fulano, beltrano ou cicrano residem. Por incrível que pareça, nenhum dos nove transeuntes ou proprietários tinham ouvido falar do tal tio.


Quase meio-dia quando meu amigo, reconhecendo velho Flamboyant sem folhas e um rio seco, recordou-se do atalho, entrou nele e cinco minutos após batíamos palmas em frente do alambrado enferrujado. Os cachorros apareceram primeiro. Em seguida, os marrecos. Os gansos, geralmente atrozes, vigiavam de longe. Um homem de bermudas rasgadas, segurando copo de líquido escuro – vinho do Porto da safra de 1970, conforme nos comunicou sem grande orgulho – abraçou efusivamente o sobrinho, cumprimentou-nos, perguntou-nos se tinha acontecido alguma desgraça. Qual o motivo daquela tropa?


Meu amigo revelou as angústias maternas. Por que não mandava e-mails? Por que não os visitara mais? Por que não atendia aos telefonemas? Engolindo pequenas doses, segredou outros projetos. Se gastasse dinheiro visitando os familiares, pagando internet ou telefone, aplicando em roupas de grife – os olhos de um de nossos acompanhantes espantaram-se com os trajes praticamente de mendigo – ou jogando as economias em festinhas com os amigos, os projetos ficariam prejudicados.


A conversa prolongou-se, passeamos pela casa e, a cada cômodo que entrávamos, espantávamo-nos com a bagunça: pia cheia de pratos, roupas sujas no banheiro, varanda forrada de barro, ninhos na área de serviço e na garagem. O tio de meu amigo, professor universitário aposentado, gostava de seu estilo de vida. Quando o colega que se espantara com seu jeito inquiriu, após visualizar velha lata de azeitonas como única fonte de alimentação disponível na geladeira desbotada, se não seria mais vantajoso diminuir as aplicações em seus planos para adquirir alguns produtos, reformar a casa e contratar empregada, o tio de meu amigo interrogou-nos:


- Tenho setenta e dois anos. Caminho, nado três vezes por semana, escrevo, leio, traduzo, analiso esteticamente, diferencio os acordes mais sublimes das mais complexas músicas, sei de cabeça os mais importantes pintores desde a Idade Média. Já viajei trinta e oito países, todos os estados brasileiros, nadei no Mar Morto, engoli neve da casa dos maiores poetas de todos os tempos, visitei os escritórios e bibliotecas dos filósofos da modernidade, entrei em campos de concentração desativados, bailei com mulheres com quem jamais nem vocês, nem seus pais, nem seus avós e, muito menos, seus filhos terão o inigualável prazer de dançar. Nos próximos meses, tomarei nos braços as mais belas damas de Viena, farei amor com as mais lindas da Costa do Marfim, beijarei as mais fulgurantes da Dinamarca, conversarei com os melhores dramaturgos da Noruega, provarei os melhores pratos da Finlândia, da Grécia, de Marrocos e da Hungria, provarei os vinhos da Macedônia, da Irlanda e de Mônaco. Lançarei dinheiro em reformas e empregadas?


Quando nos sentamos em um restaurante de Londrina, dois pediram filé de peixe, meu amigo, salada acompanhada de cremes e molhos orientais. A garçonete me frisou: seguia o pedido dos amigos ou desejaria algo diferente?


- Uma lata de azeitonas, por favor.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de dezembro de 2011.
 

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