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sexta-feira, 29 de junho de 2012

O BROCHE DE TIRADENTES

Se algo o encantava, as cidades históricas. Já visitara a parte antiga de João Pessoa, Recife, Salvador, São Luis. Deliciara-se quase um mês caminhando pelas ruas de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, pela conservada e quase cinematográfica Tiradentes de onde partiu, muito nostálgico, rumo a novos desafios, mas em Paraty, no Rio de Janeiro, recebeu a proposta: o broche de Tiradentes.


Senta-se à mesa de bar – todos sentam-se à mesa de bar – e, comenta os jogos do fim de semana, arrasta o olho para mulher de pele bronzeada e cabelos pretos compridos, palpita sobre a pontuação da sinuca, vislumbra desinteressadamente as bebidas disponíveis quando, depois de copos misturados, discorre didaticamente sobre seus passeios às cidades históricas.


- Pois, disse o homem de quarenta anos, barba por fazer, boné vermelho, provavelmente torcedor do Flamengo, se o senhor realmente gostar de cidades históricas e objetos históricos, tenho algo de que vai se encantar. Obviamente custará bagatela simbólica.


Sem acrescentar maiores informações sobre o produto, o homem de quarenta anos retirou uma flanela do bolso, enrolado na qual um broche aparentemente banhado de brilhos e respingos de coloração amarela. Ainda zonzo com os copos de bebidas misturadas, a visão turva e as vozes entrando alternada e entrecortadamente aos ouvidos cansados, o interlocutor nada entendeu.


- Sabe a quem pertenceu este broche? Consegue imaginar? Estava na gola da camisa de Tiradentes quando o enforcaram em Minas Gerais. Se souber um pouco de História lembrar-se-á (reforçou as palavras na mesóclise) que o manda-chuva da época mandou desfilar o corpo do herói pelas Minas Gerais e, em seguida, exibiu-o na Estrada Real, um percurso que atravessa todo o estado e chega ao Rio de Janeiro. A comitiva estacionou em Paraty e, naquela época, meu tatataravô conseguiu, durante o descanso da comitiva, arrancar o broche da gola da camisa.


O dono do broche verificava o efeito do discurso provocado no viajante cujos olhos, quase mortos e perturbados, interessavam-se pela narrativa. Segurando o broche depositado na flanela, mostrou a peça sem permitir exame mais detalhado.


- Passou de geração em geração em minha família. Estamos com ela há mais de quatrocentos anos e, como o senhor pode imaginar, seu valor sentimental é infinitamente maior do que o financeiro. Se desejo transmiti-la ao senhor, mais por compreender seu espírito desbravador e amante da História do que por necessidade. Por essa razão, faço-lhe, como disse desde o início, um preço simbólico, modesto. Que tal vinte mil reais?


Os olhos arregalaram-se diante do valor manifestado.


- Meu amigo, começou o viajante, em nenhum momento discordo do valor financeiro, histórico e sentimental do broche de Tiradentes, entretanto vinte mil reais estão além de minhas possibilidades.


Vendedor e comprador já negociavam há mais de duas horas quando os primeiros raios de Sol puseram fim às tratativas e os levaram aos bancos mais próximos para efetuar a transferência de oito mil e quinhentos reais, preço final ajustado a que o comprador prontificou-se a honrar, puxando as sobras de poupanças. Retirando o dinheiro de um banco de estado, um banco comercial e um banco de economia mista, o comprador juntou apenas oito mil reais. Sem meias palavras e sem demora, o vendedor esbanjou compreensão, conferiu o dinheiro, entregou o broche cuidadosamente enrolado na flanela, despediu-se com grande cordialidade, desejando sorte ao novo proprietário da relíquia histórica.


Cansado pela noite em claro, jogou-se na cama e adormeceu assim que entrou no apartamento. Acordou depois das três da tarde quando a esposa, saindo do banho, jogou guinchos de água de lavanda sobre ele. Abriu um sorriso, sentou-se:


- Você imaginou, começou ele, se tivesse a sorte de encontrar alguém que vendesse um broche de Tiradentes, retirado da roupa do herói da inconfidência mineira quando o corpo dele passou por Paraty? Jóia transmitida de geração em geração há mais de quatrocentos anos?


- Eu desmascararia o charlatão, respondeu a esposa. Primeiro, os broches não eram adornos de sub-oficiais das forças imperiais e chegou ao Brasil apenas em 1808. Segundo, Tiradentes morreu em 1792. O broche jamais teria quatrocentos anos, mas, no máximo, duzentos e vinte. Terceiro, o corpo de Tiradentes nunca foi exibido em Paraty, pois, naquela época, eles tomaram outra rota e desceram diretamente ao Rio de Janeiro.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 29 de junho de 2012.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

SEM DINHEIRO

- Pois é, disse o comerciante, agradecendo a cliente octogenária que levava duas cartelas de ovos amarradas cuidadosamente por longo barbante e acomodadas numa sacola biodegradável de cor azul, nome de concessionária de automóveis e de locadora de vídeos no campo dos patrocinadores. O passeio a João Pessoa foi excelente. Minha namorada e eu pegamos o vôo em Presidente Prudente. Meu amigo gastou menos de uma hora para nos deixar no aeroporto que ainda precisa de alguns ajustes: ampliar o estacionamento, melhorar a qualidade do condicionador de ar e, principalmente, disse uma passageira, maneira de desembarcarmos diretamente numa área coberta quando houver risco de chuva. Na verdade, eu acho que nem precisa disso tudo. Quem vai levar o passageiro, para o carro e já vai embora. Para que aumentar estacionamento? Quem vai viajar, fica pouco tempo. Para que mais condicionadores de ar?


Um menino de olhos mortos perguntou se tinha azeite de oliva. Diante da negativa, saiu apressado, mão no bolso, segurando a nota de cinqüenta reais.


- Arranjei uma namoradinha de vinte e oito anos, comprei um pacote para João Pessoa, semana inteira comendo do bom, bebendo do melhor, dormindo embaixo de coqueiro e estirando o corpo na rede do hotel. Você se lembra que a anterior, com quem passei vinte e cinco anos casado, quatro filhos e dívidas imensas nos bancos, desgastou-me muito. Já tinha esquecido como a vida é boa. Vida nova, mulher nova, viagem nova. Acredita que nunca tinha viajado de avião?


- Os novos pacotes facilitam a vida de muita gente e, da mesma forma, têm levado muitos desavisados à falência. A nova classe média comprometeu mais de sessenta por cento dos salários em dívidas a longo prazo e, acredito, desemprego involuntário ou queda do consumo para causar efeito dominó...


- O senhor tem caldo de mocotó enlatado? Homem de chapéu de palha cortava o discurso econômico do interlocutor do dono da mercearia que, sem se levantar da cadeira atrás do balcão, apontou a última estante do último corredor.


- Como eu estava dizendo, retomou o parceiro do dono da mercearia, muitas famílias endividaram-se até o pescoço. Algumas, com sacrifício, conseguem pagar as dívidas. A maioria jogou-se num abismo, não sabe o que fazer.


O homem de chapéu de palha retornou com o mocotó enlatado, duas garrafas de cachaça, goiabada, bananada, ervilhas, meio quilo de salame, meio quilo de presunto, meio quilo de queijo e meio quilo de tomate. Jogou a mercadoria no balcão, pagou em dinheiro vivo e, pensando alto sobre as diversões no fim de semana, saiu tropeçando num engradado de cerveja, esquecido do lado de fora do estabelecimento.


- E, retomou novamente o parceiro do dono da mercearia, visualizamos os efeitos devastadores. Sem me referir à capital, ao Rio de Janeiro ou Cuiabá. Vejo os problemas aqui mesmo em nossa região. Acredita que trinta e oito por cento de meus compradores estão me dando o cano? Comprando mais do que podem pagar? Adiando o pagamento porque compraram, sem necessidade, carros, casas, motos, imóveis na praia? Tem gente que até sítio comprou nesse oba-oba. E eu? Fico no prejuízo! Entreguei a mercadoria no prazo combinado, esperei o pagamento, adiei a data do vencimento, facilitei o valor total em cinco, sete e até doze vezes sem juros. Mesmo assim, tem gente que não paga de jeito nenhum.


- Um verdadeiro absurdo, interveio o dono da mercearia. Se compramos, devemos honrar nossos compromissos e pagar corretamente nossas contas! Detesto caloteiros!


- Eu também acho, disse o parceiro. Sabendo disso, continuou delicadamente, esperei vinte dias após seu retorno de viagem de descanso com a nova namorada na qual certamente gastou uns dois ou três mil reais...


- Na verdade, gastei R$ 5.897,89. O dono confirmou, sorridente.


- Esperei vinte dias, voltar à rotina para cobrar aqueles trezentos reais, que parcelei em seis vezes, já adiei o vencimento outras tantas. O senhor poderia me pagar hoje?


Sem perder a esportiva e o sorriso bonachão, o dono da mercearia:


- Sabe o que é? Sou mini-empresário. Acabei de entrar na nova classe média. A nova classe média com dívida até o pescoço, sem conseguir pagar as novas despesas... Que tal voltar daqui a dois meses?

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 22 de junho de 2012.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

FASTIO


Para dona Isaura





Mal entramos na cozinha e ela sentou-se na cadeira mais próxima ao fogão e à geladeira, esticando os olhos sobre os recipientes de feijão, arroz, macarrão e as travessas de salada, frango grelhado, carne de porco, fraldinha, lasanha, escondidinho de carne seca, farofa, lingüiça e bons pedaços de picanha. Os pratos aguardavam no meio de garfos e facas, atrás de dois copos – um de refrigerante ou vinho e o outro de água – e em cima de pequeno artefato comprado no mercado de artesanato de João Pessoa. O cheiro da comida bailava no ar e, até mesmo eu, que continuava sério ouvindo os comentários da dona da casa sobre os novos e barulhentos vizinhos, já me angustiava pela demora do marido que, sem que nem para que, inventara de tomar banho.





Conversei sobre as plantas do quintal, algumas delas trazidas de viagens ao Mato Grosso e ao Tocantins, discorri sobre as novas taxas de juros aplicadas à poupança, defendi o controle de ajuste fiscal pelo qual a Europa se esbofeteava, lembrei de alguns filmes passados na Espanha e na Inglaterra, comentei sobre o lançamento de concursos públicos federais cujos salários e tarefas, afirmavam os professores nos preparatórios, estavam nos sonhos de cinco em cada seis brasileiros, enalteci os fins medicinais de remédios produzidos em laboratórios de entidades sem fins lucrativos... Meu repertório – e minha paciência – chegava ao fim quando ela disparou sem cerimônia:





- Como é? Seu marido sai ou não sai desse banho? Talvez seja melhor a senhora verificar se ele não se afogou ou se não foi sugado pelo ralo.





Recriminei minha parceira pelas palavras indevidas enquanto a dona da casa entrava pelo corredor, subia os dois lances de escadas sem corrimão. Quase vinte minutos de banho e o anfitrião não se atentava de que esperávamos ansiosamente pela oportunidade de engolir o almoço?





Mais alguns minutos, a dona da casa apareceu sorridente, informando que o marido já saíra do banho e escolhia calças confortáveis que combinassem com a tarde refrescante, vento balançando as folhas do pé de jambo e entrando pelas janelas.





- Talvez fosse melhor a gente começar a comer e, quando seu marido chegar, disse minha parceira, ele entra no bonde em movimento. Antes tarde do que nunca.





Mal terminou de falar, escorregou a salada da travessa para seu prato, colocou o prato no centro da mesa, pegou a travessa para se servir, já colocou, nos primeiros movimentos, cinco colheres de arroz, quatro garfadas de macarrão, duas conchas de feijão e metade da salada que ocupava o prato inicialmente destinado a ela.





- Seu marido é um homem muito ocupado, fino, elegante, enfim, cheio das etiquetas, mas esperá-lo pode nos atrasar e, consequentemente, nos gerar embaraço nos compromissos da tarde. Se me permite, começarei a almoçar sem ele e, se não se movimentarem, sem vocês também. Meu médico receitou-me alimentação balanceada, mas acredito que não precisaria de recomendações, pois desde criança tenho um fastio danado e, agora, com oitenta e dois anos, continuo sem vontade de comer nada. Como apenas para me manter viva. Caso contrário, comida nunca me faria falta.





Jogou na travessa – que fazia as vezes de prato – cinco pedaços de frango grelhado, metade da lasanha, um terço do escondidinho de carne, cinco colheres de farofa, oito lingüiças e três medalhões de picanha. Obviamente feijão, arroz, macarrão e salada antecederam os demais itens da farta dieta e causaram tamanha admiração na anfitriã que a fizeram pensar em voz alta sobre a conveniência de cozinhar complementos.





- Não precisa complementar mais nada, disse minha parceira. Já estou satisfeita, entretanto, frutas, Coca-Cola e água bem geladinha me fariam muito bem. Levantou-se abruptamente, abriu a geladeira como se tivesse intimidade de longos anos, buscou duas bananas, um mamão e cinco laranjas na fruteira, sentou-se novamente e não esperou mais ninguém.





Constrangida e inquieta, a dona da casa convidou-me a sentar. Comemos bastante, falamos de amenidades e, quando o marido chegou, recipientes e travessas praticamente vazias ocupavam a mesa.





- A comida estava deliciosa. Convide-me sempre que quiser. Beijos. Minha parceira saiu delicadamente, roubando duas trufas.





*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 15 de junho de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

CARTA PARA APAIXONADA DOENTE OU CARENTE INTEGRAL

Perdoei mais de vinte vezes e inúmeras outras compreendi o nervosismo, a angústia, a energia das palavras. Uma hora a paciência acaba, o humor desaparece e descobre-se que, desde o início, a paixão não passa de carência construída na infantilidade.


O relacionamento entre as pessoas não é eterno, entretanto pode ser duradouro. A permanência depende estritamente da maturidade de constatar que o cotidiano não se constrói em viagens à Europa, na aquisição de automóveis de última linha, de acessórios inúteis da moda, de fotos tiradas com pessoas com quem raramente nos relacionamos ou por quem jamais tivemos admiração, de se achar criada à perfeição divina, mas de refletir sobre ovos.


Imagine-se carregando cem ovos – nas mãos e nos braços – de sua casa até a rodoviária, numa noite escura, sem luz da lua e sem energia elétrica. Quantos ovos chegariam à rodoviária? A paixão é a arte de carregar ovos. Cada ovo que cai não volta: a falta de dizer “obrigado”, de se desculpar, de compreender e se sentir feliz por ser adorada por alguém que não oferece nem viagens à Europa, nem carros, nem casas, nem futilidades da vida social, contudo pode enumerar milhares de qualidades e belezas que existem nos olhos apaixonados.


Se você não se sente adorada e desejada, seja inteligente: largue quem a maltrata ou a despreza. Procure nova paixão! À nova paixão, continue com o comportamento egoísta cujas forças concentram-se mais em magoar e ofender do que lançar palavras e gestos de carinho. O abraço afetuoso, o beijo puramente reconfortante – sem intenções eróticas – e o olhar amoroso de solidariedade, comunhão ou incentivo são mais eficazes do que falar ininterruptamente, considerando-se o centro da terra e ouvindo apenas suas palavras.


Apontar a falta de educação, de civilidade, de cortesia, de elegância e de delicadeza não é maneira de atacar, mas opção de largar hábitos desnecessários e melhorar as relações. Educação é muito mais do que cursar faculdades, construir carreira docente ou escrever livros. Educação não é nada mais nada menos do que reconhecer o esforço do outro, de admirar o desprendimento, de possuir alguém para ouvir suas reclamações e, diante das burrices e dos “jeitinhos” que só trazem ou trarão transtornos, exaltar seus cabelos, elogiar o conjunto de suas formas ou desejar abraçá-la até os braços se gastarem. Elegância é o gesto de atenção. Delicadeza é derrubar um tijolo na velocidade de avião com impactante intensidade de penas.


São muitas as exigências de mudança? Não mude sua maneira de pensar e de agir. Mude de parceiro! Procure alguém que seja igual a você ou que se submeta sem resistência ao número incansável de futilidades resgatadas dos mares do supérfluo. Lembre-se: não existem pessoas melhores ou piores, lindas ou feias, inteligentes ou burras, honestas ou ladras. Como leciona o filósofo Bertrand Russell, “somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem”.


O homem e a mulher que erram uma vez são despreparados ou ignorantes. O homem e a mulher que erram a segunda vez são desatenciosos e displicentes. O homem e a mulher que erram a terceira vez são compreensivos ou condescendentes. O homem e a mulher que erram a quarta, a quinta, a sexta e inúmeras vezes sucessivamente são estúpidos, desconhecem os valores da vida, afundam gradativamente em areias movediças à medida que se movimentam. Já fui despreparado e ignorante. Já me expus desatenciosa e displicentemente. Já lancei mão de compreensão e condescendência. Reservo-me uma vida sem desmazelos, longe das areias movediças, mergulhado em atos receosos, mas nunca perdido na estupidez.


Promessas são propostas que damos ou aceitamos. Se as damos, devemos cumpri-las. Se as aceitamos, precisamos exigir seu cumprimento. Quantas promessas de mudança? De que serviram? Platão diz que virtude e conhecimento integram-se à personalidade do indivíduo no momento em que o espírito entra no corpo. Quem tem facilidade de falar idiomas, de resolver problemas matemáticos ou de tocar instrumentos musicais nasceu com esse dom.


Numa linguagem mais popular, Platão diria que pau que nasce torto nunca se endireita ou que água e óleo não se misturam. O importante não é escolher entre água e óleo. O importante é escolher – ou água, ou óleo – e, depois da escolha, viver em êxtase ou com a água ou com o óleo.


Surge a promessa de amizade depois do encerramento abrupto da paixão, mas a experiência ensina que, na maioria das vezes, relacionamento constitui contrato ao fim do qual cada um toma seu rumo. O dono da casa procura novo morador para alugá-la e o antigo inquilino busca outro teto.


Despedidas se fazem de saudades, de mágoas ou de desgostos. Que tal alegria? Os caminhos pelos quais passamos são apenas o preparo para novos rumos.


Boa viagem.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 8 de junho de 2012.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ÁRVORES DE FIDELIDADE



Um grupo de índios perambulou por uma cidade paranaense em busca de indivíduo que, mesmo sabendo do matrimônio, arrastou asa para uma índia. Depois de encontrá-lo, deixou de lado os gritos de guerra, as agressões físicas e as balbúrdias costumeiras para adverti-lo do mau comportamento e, em seguida, como sentença ao crime praticado contra os costumes, algemaram-no (ou será que amarraram-no?) à árvore de pequeno porte numa rua movimentada.


Os estudiosos do Direito, da Sociologia, da Filosofia e dos Direitos Humanos congregam milhares de seguidores em simpósios, mesas-redondas, jornais, debates ou entrevistas em rádios e televisões a fim de discutirem as penas apropriadas que surtam efeito, inibam os futuros criminosos a se aventurarem nos caminhos fora da lei e ampliem a sensação geral de segurança, construída de atos e atitudes que sirvam de exemplo. Tantas discussões, poucas práticas, eficácias duvidosas e, na maioria das vezes, inúteis. Talvez juristas, sociólogos e filósofos pudessem trocar livros, computadores, gravatas e teorias por árvores, malocas, tangas, observações de práticas e aplicação de métodos que, sem violência ou maus-tratos, economizariam milhões de reais aos cofres públicos.


O dinheiro inicialmente destinado à construção de presídios, penitenciárias, cadeias e casas de abrigo ou de internação de menores de idade tomaria rumos mais interessantes: aumento de salários e contratação de professores, construção de hospitais, diminuição da carga horária de trabalho, ampliação do período de férias, alternativas de financiamentos mais baratos para viagens e aquisição de bens duráveis, áreas de lazer com piscinas e churrasqueiras para o verão, deliciosos jantares e filmes para o inverno, ciclovias e parques infantis em todos os bairros... Uma pontada no coração dificilmente levaria mais de mês para ser examinada no hospital. O pedido de empréstimo bancário para reformar o telhado levaria menos de uma semana.  Que tal assistir ao jogo de seu time do coração não pela imagem da televisão, nem pelas ondas do rádio, nem pelos resumos da internet, mas diretamente no estádio, deslocando-se até lá num ônibus com serviço de bordo? E, para as mulheres, o que acham de irem mensalmente às compras nos centros comerciais de sua preferência?


As opções econômicas são diversas, mas me concentro em imaginar a eficácia da aplicação de penas singelas e, ao mesmo tempo, de alto caráter regenerativo. Dificilmente boa parte de homens e mulheres presos às árvores voltaria com ganas ao convívio da comunidade sem antes passar uns dias em casa, refletindo sobre deslizes e comentários que os seguiriam em qualquer lugar. Se entrassem no super-mercado, alguém rapidamente os reconheceria. Se parassem na fila da farmácia, do posto de combustíveis ou do açougue, o silêncio geral e os olhares inquietos denunciariam o contraventor.


A situação mais cômica ficaria a cargo das crianças que, na escola, nas associações ou nas ruas, alardeariam a presença – transitória ou permanente – do sujeito ou da madame: - A senhora não é aquela que estava amarrada durante o fim de semana no pinheiro do cruzamento da rua 13 de maio com a Coronel Albino? A mulher ruborizaria ou, tomando os ares modernos em que nos encontramos, confirmaria com grande estardalhaço a falta cometida e sairia aplaudida pelos meninos, estupefatos em constatarem alguém tão regenerada e reintegrada ao convívio social.


Claro que, além do lado jurídico e econômico, os âmbitos educacional e ambiental ganhariam destaque à medida que os casos descobertos demandassem aplicação maior das penas e, em pouco tempo, os canteiros das ruas, das avenidas e das praças resplandeceriam de ipês coloridos, de roseiras, de flamboyants. Goiabeiras, macieiras, jabuticabeiras, pés de acerola, de seriguela e carambolas também comporiam a lista, facilitando a vida de quem, mãos amarradas, comeria as frutas naturalmente nascidas enquanto esperasse o fim da pena.


O único ponto preocupante é que, como ressaltou um amigo teólogo, do jeito que as coisas andam, é bem possível que, em pouco tempo, não encontremos mais terras para plantar tantas árvores.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 1 de junho de 2012.