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sábado, 19 de novembro de 2011

NÃO É BOM EU EXISTIR?

Três anos atrás larguei as experiências culinárias para me dedicar às atividades menos nobres: escrever, ler, dormir, arrumar livros, fazer caminhadas. Até que, no último fim de semana, procurei revistas de frangos e de arroz que eu comprava a preços módicos em bancas de jornal.


As receitas pareciam muito fáceis. Escolhi três tipos de arroz de forno dos quais elegi dois: um para o sábado, outro para o domingo. Minha namorada questionou-me: por que, depois de tanto tempo, voltara a cozinhar? Amaciava o terreno para notícias bombásticas? Minha filha Natália escarneceu a iniciativa, mas, no dia seguinte, por volta das dez e meia, azucrinou-me até desligar o computador. Já preparara metade dos ingredientes quando entrei na cozinha: desfiara o frango, cortara as azeitonas obviamente excluindo os caroços, picara os tomates, ralara o queijo, separara a noz moscada.


Derretíamos a manteiga e acrescentávamos alguns produtos na elaboração do molho:


- Não é bom eu existir? Se eu não existisse, você teria de picar, lavar a louça, desfiar o frango.


Disse-lhe que era sempre bom ela existir. Nunca quis ter filhos – Natália, minha filha de onze anos, sabe que não sou seu pai biológico – entretanto tive a sorte de encontrar uma filha perfeita que é Natália. Perfeita? É a versão feminina do tempo verbal: mais do que perfeita!


Perfeita porque assistimos juntos aos filmes de terror, de suspense, de desenhos, de comédia e de romances. Perfeita porque dá trabalho à sua mãe que, nos momentos de nervosismo enfrentados no diálogo com a adolescente, chora, se desespera, entretanto sente-se indiscutivelmente feliz de tê-la alojado por nove meses. Perfeita porque aprendeu a mentir tão bem quanto eu: nem completou doze anos e enrola a avó materna com histórias mirabolantes. Perfeita por perdoar minhas irritações quando, por motivos estúpidos, explodo em iras, berros e pressas, especialmente nas viagens. Perfeita porque sai na cacetada comigo para disputar o controle remoto: eu, querendo assistir ao “Pânico na TV”; ela, “Silvio Santos”.


Quando sua mãe faz brigadeiros, precisa dividir a bandeja em partes iguais: metade minha, metade dela. E, até nisso, é perfeita: mesmo me enfrentando para que eu não a roube, abre mão de sua quantidade. Também é perfeita porque faz companhia à minha mãe nas viagens a São Paulo, João Pessoa ou Vitória. Perfeita, ainda não sabe responder à minha pergunta: “Por que te amo tanto?” Talvez, no dia em que souber me responder, deixe de ser perfeita, pois terá se transformado numa mulher. Adulta, descobrirá o mundo dos conceitos, dos preconceitos, dos esquecimentos e das lembranças. Daí para frente, nem brigadeiros, nem confrontos pelo controle da televisão, nem filmes, nem viagens criarão mágicas. As mágicas criadas devem ser criadas agora! As amizades estabelecidas precisam ser fortalecidas agora! As cumplicidades sonhadas precisam de compartilhamento agora!


Amizades e cumplicidades são conceitos aterrorizantes. Lembro-me de sua mãe confidenciando a paixão por um pirralho da escola. Fiz o discurso de padrasto moderno. À hora de dormir, revirei-me na cama a noite inteira angustiado por saber que minha filha está se apaixonando. Nietzsche propaga a idéia do eterno retorno. Ressalta que se o universo tivesse alguma finalidade, essa finalidade já teria sido alcançada. Ele não está errado. Outros pais, mesmo considerados modernos, certamente descabelam-se pensando nesses últimos momentos que ficam guardados nas lembranças, na memória, no coração.


Não sei se continuaremos pai e filha por muitos anos. Ela pode escolher outro pai e concluir que é muito melhor do que eu. Outro pai certamente possuirá qualidades ilimitadas, paciência e responsabilidades, virtudes que não tenho. Uma coisa é certa: décadas podem transcorrer, ela pode escolher outro pai ou morarmos em lugares distantes. Aconteça o que acontecer, lembre-se que estarei diariamente recitando Shakespeare, reforçando que barreiras de pedra não podem deter o amor.


Se é bom você existir? Não é bom! É formidável, fascinante e único. Talvez Deus quisesse mostrar-me o lado divino da criação. Ele escreveu em seu bloco de notas: você vai ser pai de Natália, mesmo que por pouco tempo.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de novembro de 2011.

Um comentário:

agapito disse...

Momentos de pai e filho,esse deve ser vivido intensamente,sem duvida na infância dela, depois adeus !!!!