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sábado, 5 de março de 2011

ATÉ MAIS, MOACYR SCLIAR!

Moacyr Scliar relatava em algumas entrevistas que, no início da carreira, entregou um de seus textos para Érico Veríssimo. O autor de “O tempo e o vento” o incentivou a continuar escrevendo. Estava no caminho certo. Quando chegou em casa, Scliar percebeu que a última página do conto ficara no fundo da gaveta. Compreendera que, além de bom escritor, o conterrâneo também era uma excelente pessoa.



Graças a essa história observei a grandiosidade de outro intelectual: Wilson Martins. Autor de importantes obras de História e Literatura, enviei-lhe um apanhado de artigos. Wilson Martins aconselhou-me a seguir na crítica literária. Com o tempo, adquiriria mais segurança. Obviamente minhas críticas literárias eram um lixo, mas observei que, assim como no caso de Scliar e Veríssimo, Wilson Martins não era apenas um grande crítico literário, mas também uma grande pessoa.



No último domingo, liguei o computador para atualizar a planilha de orçamento mensal. Entrei, por alguns momentos, nas páginas das agências de notícias. Destacavam o falecimento de Moacyr Scliar.



O primeiro livro de Moacyr Scliar entrou em minha biblioteca em 2004. Trata-se de uma pequena obra de contos e crônicas, publicada pela editora L&PM, intitulada “Pai e filho, Filho e pai”. Apaixonei-me pela escrita ágil e sofisticada de quem alcançara a maturidade plena, tratando praticamente de todos os assuntos sem cansar seus leitores. Do conto ao romance, da crônica ao ensaio, das obras infantis às biografias (reais ou fictícias), dos textos jornalísticos aos publicados em revistas acadêmicas ou especializadas, Scliar se mostrava um nome vigoroso.



Em novembro de 2009, Adriana e eu embarcamos para a Feira do Livro de Porto Alegre. Meses antes da viagem, Rogério Pereira, editor do jornal literário “Rascunho”, gentilmente me informou o e-mail do escritor para quem, preocupado e ansioso, escrevi solicitando um horário para conversarmos. Scliar então me deu os telefones de sua casa. Voltasse a escrever quando a feira do livro estivesse próxima. Em fins de outubro, outra mensagem eletrônica. Naquele período de nossa viagem, estaria num evento em São Luis (MA). Telefonasse quando estivesse em Porto Alegre.



Pegamos o vôo em Guarulhos. Enquanto aguardávamos o embarque, um homem de cabelos amarelos encaminhou-se ao lado leste do aeroporto. Falei para Adriana que era Moacyr Scliar. Ela não acreditou. Era muita coincidência. Se passasse de volta, nós o seqüestraríamos. Ela lhe diria que eu lera todos os seus livros.



No domingo, já em Porto Alegre, telefonei por volta do meio-dia. O filho dele me atendeu. O pai saíra para almoçar. Voltaria às 13h30. Saímos para a Praça da Alfândega sem grandes esperanças. Enquanto Adriana almoçava, telefonei mais uma vez. O escritor me atendeu: estaria às 16h no stand da Caixa Econômica Federal.



Cheguei à mesa de Adriana e, segundo ela, disse-lhe para engolir o almoço de uma vez ou abandoná-lo. Voltamos ao hotel. Ela estava irritada, reclamando de minha ansiedade e de meu desespero. Faltavam vinte minutos para as quatro da tarde quando encontramos o stand da Caixa Econômica. Cinco minutos depois, Scliar apareceu usando camisa azul, caneta no bolso, cinto, calças e sapatos pretos. Sem perder tempo, saquei alguns livros para autógrafo. Scliar gentilmente rabiscou algumas palavras. Esperasse o fim da apresentação para conversarmos mais tranquilamente.



Encostei-me num poste segurando minhas muletas – meu joelho tinha saído do lugar às vésperas da viagem. Após a confirmação do aspecto saudável da guloseima distribuída no stand, Scliar empunhou o microfone:



- Antes de começar, gostaria de pedir uma calorosa salva de palmas para Vicentônio Silva, jornalista do interior de São Paulo, que veio prestigiar a nossa Feira do Livro.



Quando poderia imaginar que um ícone da Literatura, membro da Academia Brasileira de Letras, estudado nas universidades e cujos livros já tinha lido e relido pediria uma salva de palmas para mim? Um comentarista literário de jornal de interior que nem jornalista era – e continuo sem sê-lo?



Feios, ricos, idosos, adolescentes, mulheres deslumbrantes, homens barrigudos, professores, mecânicos, jornalistas, padeiros, aposentados... Todos o cercavam! Quando finalmente nos aproximamos, disse-lhe que conversaríamos nos próximos anos, quando voltássemos a Porto Alegre. Saí pela Feira do Livro arrastando minhas muletas e esperando minhas lágrimas secarem. Um momento mágico.



Alguns são apenas bons escritores. Outros, apenas boas pessoas. Poucos, a síntese do bom escritor e da boa pessoa.



Até mais, Moacyr Scliar!



***



No segundo semestre do ano passado, a Spoladore Eventos, cujo diretor Cláudio Spoladore sempre nos atendeu muito bem, promoveu o Salão do Livro de Presidente Prudente. Moacyr Scliar apresentou-se no domingo, calor intenso, auditório lotado. Sorte de quem esteve lá!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de março de 2011.

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