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segunda-feira, 21 de março de 2011

PAULO APÓSTOLO

As escritas me informam que um homem baixo, de cabelos esvoaçados e problema nas vistas saiu sem destino. A terra árida e massacrante sobre a qual flutuava tentou agir sobre seu espírito, espalhando o desânimo, contraindo a desesperança, abalando a fé, construindo amarras de desgosto, de egoísmo e de desconfiança. O desânimo se transformou em madeira de combustão do motor que, por longas décadas, em discursos seguidos e aparições públicas, contagiou ouvintes e cultivou o amor, a abnegação, a confiança, a solidariedade e o desprendimento material.



Paulo nem sempre foi Paulo. Caminhava na terra seca, uma luz atravessou o céu:



- Paulo, por que me persegues?



Mesmo diante da voz estrondosa, continuou seu caminho. Os mandantes do Estado discutiam o trabalho que fazia entre os pobres. Acusavam-no de instigar a população contra o governo. Expulsaram-no de sua terra. Se tivesse arrefecido de suas convicções ou se acovardado diante da perseguição dos ditadores, não integraria o rol dos nomes indispensáveis à construção da História da Humanidade.



Caminhava de dia, falava à noite, trabalhava à tarde, dormia pouco, comia mal, enchia-se de dívidas, estourava a saúde. A única coisa que realmente importava? A liberdade. A liberdade de pensamento, de amor, de ação, de transformação. Cristo afirmou que nem todo aquele que pronuncia o nome de Deus obterá uma vaga no reino dos Céus, mas o que pratica a palavra divina. De nada vale o homem de fé que não age, que se amedronta, que se curva diante das turbulências e dos primeiros berros dos poderosos. Paulo não se calava.



Talvez esse tenha sido o motivo dos batalhões despachados no encalço do visionário que, mesmo perseguido, insistia em combater as ditaduras e procurava incentivar a liberdade entre seus pares. Seus discursos transformaram-se em grande alimento da esperança dos povos. Quando não havia mais possibilidades de se manter vivo, pediu asilo. Nos refúgios, começou a escrever. A escrita seria uma perpetuação do pensamento? Uma maneira de sistematizá-lo no desejo de que alguém, no presente ou no futuro, recorresse às suas anotações para entender a história, a filosofia, a religiosidade, a vida?



Quem nunca ouviu falar das cartas que Paulo enviava aos povos solicitando-lhes a acolhida da palavra, a mudança de vida, a doação de tempo, de dinheiro e de forças em apoio a causas maiores, praticamente divinas? As cópias das cartas espalharam-se nas mãos de quem acreditava em suas palavras, em seu potencial e nas coisas que dizia. Coisas certas, incertas, verdadeiras, fantasiosas, utópicas? Como um homem poderia acreditar em outro homem? Como um homem tão pequeno, com problemas na vista, que insistia em se comunicar pela palavra escrita convenceria os povos a acreditarem no homem?



Ainda não sei se seus esforços recompensaram os problemas financeiros, emocionais e existenciais causados à família. Os relatos apontam que a esposa quis abrir seus olhos. O mundo não tinha jeito. Por que mudá-lo? Os filhos continuaram reproduzindo suas cartas. Em pouco tempo, mais de duas dezenas de línguas reconheciam as palavras de Paulo que, humilde e cansado, jamais se recusou a propagar seus ideais e a divulgar sua fé.



Alguns acreditam que podem mudar o mundo, transformar as sociedades e promover a igualdade entre os povos e, principalmente, revolucionar o pensamento e o comportamento dos homens. As pessoas acreditam que podem enganar, mas que dificilmente serão enganadas. Você acha que também se inclui entre os que enganam, porém jamais serão enganados? Está certo disso? Certeza?



Se, desde a primeira palavra, sabia de quem eu estava tratando, devo-lhe dar os parabéns. Você nunca seria enganado pelo comodismo dos que – vendo um homem de cabelos esvoaçantes, dificuldades nas vistas, falando de amor e de solidariedade, da emancipação individual e coletiva por meio da educação, da correspondência farta para conscientizar e do exílio forçado pelo mundo – cruzaram os braços e taparam os ouvidos a Paulo Freire, apóstolo de Cristo.





*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de março de 2011.

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