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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Lampião e Maria Bonita?

Grande parte das pessoas já ouviu falar em Lampião e Maria Bonita. Ou como transgressores da lei, ou como representantes corajosos da liberdade e da denúncia contra a ilegitimidade de governos, Lampião e Maria Bonita firmaram-se no imaginário e, em alguns casos, na memória.

Se você já ouviu falar deles, o que diria se pudesse ler um enredo educativo e ilustrado para seus filhos ou para seus netos no próximo dia das crianças? O que diria de delinear no imaginário de seus pequenos leitores o vasto campo de aventuras, de sentimentos e de peripécias dessa dupla numa linguagem literária de alta qualidade? Por fim, você gostaria de empolgar os pequenos com uma narrativa caprichada em que os protagonistas são Lampião Junior e Maria Bonitinha?

Com desenhos de Marco Carillo, Januária Cristina Alves usa uma linguagem fluida, engraçada e atraente, conjugando estética e oportunidade em espaço necessário para sublinhar desenvoltamente como o menino Lampião Junior e a garota Maria Bonitinha se conheceram e, desde cedo, mantiveram amizade e paixão entrelaçadas pela disputa, pela coragem, pela ousadia e, principalmente, pelo despeito.

Em uma dessas disputas pautadas pela amizade e pela paixão, Lampião Junior e um concorrente ajustam uma competição da qual sairá vencedor quem conseguir dançar xaxado melhor e por mais tempo. A disputa engraçada atinge um efeito inesperado: sem vencedores, o resultado do empate é proclamado como alternativa de conter o ímpeto dos espectadores que, empolgados, também se preparam para entrar na dança.

Essa é apenas uma das aventuras criadas fabulosamente pela escritora que, em grande estilo e futuramente, figurará no rol dos trabalhos mais bem elaborados e verossímeis em decorrência da mistura e do equilíbrio poético que confere à sua linguagem.

Januária entranha-se no grupo dos bons escritores do qual desponta Ariano Suassuna, pois ela, assim como mestre Ariano, transcreve clichês, lugares-comuns, sotaques, frases e interjeições nordestinas sem se jogar no abismo do picaresco, do mau gosto e do equívoco.

Assim como em Ariano Suassuna, os pequenos personagens nordestinos de Januária (que também poderiam ser gaúchos, cariocas ou caipiras paulistas de sotaque, como os de nossa bela região de Assis) minimizam o eventual distanciamento social em decorrência da proximidade da realidade, atributo verificado em todos os bons autores.

Outras características poderiam – e podem – ser enumeradas no trabalho infanto-juvenil, mas acredito que apenas a capacidade de escrita amadurecida aliada à competência estética na composição de “A história de Lampião Junior e Maria Bonitinha” é mais do que suficiente para perceber que ainda existem autores/educadores que sabem que a comunicação infantil eficaz se concretiza pelo uso inteligente do diálogo, do discurso e da linguagem.

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A História de Lampião Junior e Maria Bonitinha
Januária Cristina Alves – Editora Novo Século – 48 p. – R$ 34,90

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 1 de outubro de 2009.


Esta e outras críticas literárias também podem ser conferidas AQUI.

Um comentário:

mira disse...

tive meu primeiro contacto com um blog,aos poucos vou me enveredando para este fantástico mundo digital, graças às generosas pessoas que gostam de ensinar.Lí atentamente sua crônica,grata pela gentileza