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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

VIAGEM DE AVIÃO

Desde os tempos de VARIG e VASP desejava voar. O sonho de atravessar as nuvens, riscar o céu e percorrer estados e países em poucas horas era tão grande que, mesmo sem vontade de seguir a carreira militar, inscreveu-se no concurso da aeronáutica. O concurso serviu para mostrar que realmente possuía capacidade física, psíquica e intelectual para seguir qualquer carreira, menos a militar.

- Aqui não aceitamos ninguém com menos de um metro e oitenta, disse seriamente o tenente-coronel, lastimando metro e sessenta de um dos melhores candidatos que já passaram na força.

Meio inconformado, mas sem se abalar, voltou para casa e decidiu estudar todos os assuntos que tratassem de aviões e de vôo. Ouvindo a indicação de um leitor voraz, leu com interesse – e até decorar – o “Desafio orquestral”, poema sublime de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Depois, o mesmo leitor disse que poderia aprender mais consultado enciclopédias e verbetes em livros especializados.

A consulta às enciclopédias se deu tranquilamente. Já os livros especializados desanimaram-no na medida em que apresentavam termos técnicos.

Meio desconsolado, procurou novamente o leitor voraz que lhe indicou um romance do escritor gaúcho Alcy Cheuiche sobre a vida de Santos Dumont: “Nos céus de Paris”. A biografia romanceada do pai da aviação mundial emocionou-lhe de tal forma que, lançada a edição de bolso, comprou cinco exemplares: dois para deixar de reserva, um para andar dentro da bolsa do trabalho, um na casa da namorada e o último na casa da mãe, a quem visitava quinzenalmente nos fins de semana.

O salário baixo de professor de estado e os altos custos da especulação imobiliária impediam-no de viajar de avião. As passagens, mesmo para localidades próximas, dificilmente eram vendidas a menos de oito salários mínimos de modo que, na abertura da aviação brasileira para novas empresas aéreas, comemorou com amigos, vizinhos, parentes e colegas: preços baixos e facilitados em até vinte e quatro meses no cartão de crédito, no boleto ou no cheque.

A namorada sabia que ainda não chegara sua vez de voar. Por essa razão, conscientemente deu-lhe o dinheiro que juntava numa poupança para o casamento. Sabia que a viagem aérea simbolizava tanto para ele quanto o casamento para ela.

Depois de pagar o último boleto, entrou em casa sorridente, fez uma pequena lista: roupas, remédios, livros para distração (entre eles, obviamente o de Alcy Cheuiche), uma revista de palavras cruzadas, um jogo de dominó e de cartas, lembranças que traria para a namorada, a mãe, o pai e um amigo que sempre o ajudara.

O amigo quis recusar a inclusão do nome na lista de presentes. De Assis a Presidente Prudente tempo de nem mesmo ler integralmente a matéria de alguma revista ou de um jornal. Para não magoar o amigo, preferiu calar-se.

O avião sairia às sete e quarenta e cinco, pousaria em Presidente Prudente às oito horas. Ele tomaria um ônibus até o centro, compraria as lembranças, tomaria um sorvete, telefonaria para os amigos para dizer que chegara bem, retornaria ao aeroporto e às onze e vinte subiria ao mesmo avião que o trouxera e que pousaria em Assis às onze e trinta e cinco onde namorada, mãe, pai e amigo o esperariam.

Esperariam se durante a viagem não tivesse se sentado entre dois oficiais do exército que percebendo a emoção e, ao mesmo tempo, o nervosismo do passageiro, falassem de ventos contrários, de turbulências, de arranques climáticos e, numa atitude de maldade e de gozação, abrissem o pequeno tubo de ar sobre a cabeça e apontassem um furo que despedaçaria a aeronave e mataria a todos.

Mais do que angustiado, começou a rezar em voz alta, segurou na mão do oficial da esquerda, gritou, chorou e quando a aeromoça aproximou-se para saber o que acontecia, gritou:

- Pare esse troço que quero descer agora!

Mal estacionaram o carro na frente de casa, pai, mãe e namorada receberam a notícia de que deveriam buscá-lo em Presidente Prudente.

Sentado à porta do estacionamento, disparou assim avistou os três:

- Nunca mais ando de avião! Nunca mais!


*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 17 de setembro de 2009.

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