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sábado, 19 de setembro de 2009

MARITACAS E IPÊS

Quando chegou aos noventa anos, o crítico literário Antônio Candido abriu as portas de sua residência paulistana ao Dr. Gilberto Figueiredo Martins, vinculado ao Programa de Doutorado em Literatura da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Assis (SP).

Os noventa anos de Antônio Candido coincidiam com os cinqüenta de fundação da UNESP – Assis na qual, em 1958, o então professor de sociologia da Universidade de São Paulo rompia com os preceitos de Durkheim, Weber, Marx e Comte para se inteirar de fatos, teorias, análises e criações literárias às quais se dedicava sistematicamente desde a juventude. Uma frase sua me chamou a atenção: a diferença entre os que ensinam Literatura e os que a amam. Para ensinar Literatura são necessários procedimentos formais: faculdade, método e diploma. Para amar a Literatura apenas a leitura.

Enquanto os espectadores aplaudiam o término da entrevista, lembrei-me de um fragmento de Rubem Alves em que o ensaísta diferencia metaforicamente professor e educador, caracterizando o primeiro pelo desempenho regular do ofício e destacando o segundo pelo exercício pleno do amor na prática educativa, em qualquer lugar e a qualquer tempo.

O discurso de ambos os intelectuais apenas demonstram que somos capazes de desempenhar uma profissão e nos dedicarmos a outras atividades. Podemos trabalhar na educação sem abdicar do futebol no fim de semana, atuar na construção civil ou na agricultura sem deixar de se maravilhar com jogos de carta ou empregar-se no comércio sem abrir mão das noites de pintura, de música, de teatro.

Provavelmente prescrito nas entrelinhas das falas e palavras de Antônio Candido e de Rubem Alves, o grande problema não está em exercer uma profissão e se dedicar a atividades paralelas, mas em cumprir um dever sem vontade, sem tesão, sem vida. O professor de Literatura que sobrevive do magistério e detesta ler tem grandes chances de afastar futuros leitores dos livros.

O engenheiro revoltado que constrói pontes, edifícios ou estradas, porém gostaria de ensaiar música em alguma mesa de bar, arriscará a vida de pessoas que lerão Cyro dos Anjos ou dormirão quando os alicerces de edifícios construídos por ele se romperem bruscamente.

Outro dia chegava a casa de minha namorada quando, olhando para o chão repleto de folhas, olhei para cima e vislumbrei seis maritacas caminhando nos galhos de um ipê. Elas arrancavam as folhas, soltavam-nas e voltavam a arrancar outras.

Então lembrei de Antônio Candido e de Rubem Alves. As maritacas são Amantes da Literatura e Educadoras: mesmo tendo a chance de conseguir alimento fácil e abrigo confortável, jamais se esquecem de desempenhar admiravelmente o pequeno e indispensável papel que lhes é destinado: preparar as árvores para a primavera.

*Publicado originalmente no Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de setembro de 2009.

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