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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Características efêmeras


Essa água corrente, que sobe e desce, demonstra bem minha surpresa ao presenciar duas cenas lastimáveis na manhã de hoje pelas ruas de Assis, cidade do interior de São Paulo.

Nos tempos de faculdade duas garotas faziam discursos incríveis de que se encaixariam nas fileiras do serviço público assim concluíssem o curso de bacharelado.

Uma delas, falava russo ou chinês ou tailandês, mudou a opção pelo cargo, mas manteve-se firme na perspectiva de ser funcionária pública.

Cinco anos depois, encontro uma delas descabelada, roupas engraçadas e um ar abandonado de quem sofre diariamente os maus tratos do marido. No colo, uma criança. Provavelmente um filho, concebido na angústia de quem planejou grandes sonhos, entretanto não soube se disciplinar e se desligar dos desejos mais prementes do reconhecimento que não viria pelo caminho profissional.

A outra, igualmente achava-se a mais brilhante e a insubstituível, depois de mais de três décadas de exercício celibatário, finalmente conseguiu desencalhar. Olhei bem para o namorado a quem confidenciava algo que, pela cara dele, ouvia contrariado.

Assim como a primeira, essa segunda colega deixará seu vôo solo para se meter embaixo da asa de um homem que, nos moldes do marido da primeira, vai massacrá-la e impor-lhe uma degradante condição doméstica e selvagem.

A água da fonte secará em algum momento. A soberba, a beleza construída forçadamente e a falsa erudição caíram num buraco, depois de empurradas por seus objetos de dominação. Assim como a felicidade - na acepção epicurista do termo - da fonte se transforma em calvário, quem muito escolhe pode ser escolhido, engolindo tudo o que detestava.

***

Lembro de uma crônica de Sérgio Faraco. O escritor gaúcho relata a situação de um primo, sempre elogiado, sempre cursando mais de uma faculdade, sempre aplaudido, que ficou louco. E ele, Sérgio Faraco, funcionário público do poder judiciário e que cursara Direito em quase dez anos, mal mencionado nas festas de família, sempre esquecido e preterido, ficou são e dono de uma quantidade invejável de leitores, de admiradores, de amigos. Neste momento, acredito que dezenas de pessoas se sintam como o Sérgio Faraco: feliz da vida. Eu, pelo menos, não poderia descrever o quanto.

Um comentário:

Alice disse...

Fico refletindo exatamente sobre esse contexto em meu dia-a-dia. Na confusão dentro da mente de uma jovem criada para o sucesso profissional mas para a inclusão de um futuro submisso. Fico me perguntando o que quero, de fato, e se estou disposta a abrir mão do que quero pelo que acham que devo ter. Adorei o texto. Vou escrever um post sobre o assunto em breve.