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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Meu neto é um gênio

Um amigo e eu nos encontramos casualmente numa das fabulosas praias de Florianópolis. Como fizesse muito tempo que não nos falássemos, começou a contar do sucesso dos filhos, da felicidade de brincar com os netos e, olhando-me meio sorrateiro, falou que gostaria de contar de um neto que era um gênio.

Numa tarde, levou o menino para assistir a uma palestra numa universidade pública. O conferencista falou por mais de uma hora e meia sobre redimensionamento do meio-ambiente e da relevância de todos os segmentos sociais darem as mãos numa situação tão importante quanto aquela: salvar o mundo. O menino nada entendeu, mas ao fim o avô disse que o homem quis dizer que todos precisavam reciclar.

Como não soubesse o signficado da reciclagem, o avô ensinou que todos os papéis velhos, que não tinham mais uso, deveriam passar por um processo por meio do qual voltariam a ser utilizados. Isso era a reciclagem: transformar o velho e inútel em novo e pronto para usar.

Disse-me que o neto telefonara na véspera perguntando o que avô faria de especial com os livros separados numa estante perto da porta do banheiro do quarto.

- Nada. Ainda não sei, respondeu o avô.

- Mas eles são velhos, não são?

- Sim, confirmou o avô.

Desligou o telefone, jantou, tomou banho, deu uma voltinha na praia e caiu exausto na cama. Pela madrugada, acordou sobressaltado pressentindo o que o neto poderia fazer. Ligou para casa, mas o filho mais novo, que tomava conta do lugar, informou que estava muito orgulhoso do sobrinho. Afinal, com a anuência do avô, levara mais de trezentos livros velhos para a reciclagem.

Perguntei se ele não se sentia mal. Trezentos livros não são vinte revistas de fofocas.

- Por enquanto vou curtir a praia, disse-me sorrindo. Deixarei para sofrer depois. Mas que meu neto é um gênio, isso ele é. Falei uma vez só em reciclagem e ele aprendeu tudo. Bem direitinho.

Desde então não o vi mais. Porém, confesso que sempre fico curioso para saber o que foi transformado: a primeira edição da Barsa, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, d'Os Sertões ou de Macunaíma, os autógrafos de Érico Veríssimo, Josué Guimarães ou o outro Josué, o Montello, os livros de capa dura da coleção de filosofia medieval ou de literatura paraibana. Como será que ele ficou? Coisas sobre as quais minha curiosidade ainda não obteve resposta.

Um comentário:

Alice disse...

Honrada com sua visita! Vou passar a conferir seus textos periodicamente.
Respondi sua pergunta, caso se interesse.
Abraço