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sexta-feira, 13 de julho de 2012

QUEBRANDO A ROTINA

A idéia de quebrar a rotina surgiu ao fim da tarde de sábado, após o sono do almoço e antes do café com pão de queijo, quando a esposa, segurando revista semanal de fofocas, propôs a quebra da rotina: reavivar o fogo do amor do casamento de doze anos. O marido leu as páginas separadas por clipes e os fragmentos evidenciados por marcadores de texto, arqueou as sobrancelhas, sorriu discretamente, devolveu a revista à esposa que, ao pegá-la, atacou:

- E daí? Vamos quebrar a rotina?

O marido bocejou, espreguiçou-se, bateu compassadamente os dedos sobre a perna direita:

- Quebrar a rotina?

- Vamos começar hoje mesmo! Dispôs as xícaras, retirou a forma quente repleta de pães de queijo. – Arrumaremos um programaço para esta noite. Sentou-se euforicamente, abriu o pão de queijo e soprou ao meio para esfriá-lo.

A visível falta de interesse do marido passou longe de seus cuidados de modo que, sem atentar-se ao detalhe, continuou o monólogo:

- Barzinho? Restaurante? Boate ou danceteria? Nada de pizzaria. Muito menos churrascaria ou choperia. Detalhe: só você e eu! Sem filhos, sem pais, sem mães, sem amigos, sem intrometidos.

O marido comia o terceiro pão de queijo e secava o café, provavelmente pensando no resultado do jogo de futebol da tarde seguinte, campeonato disputado pelo time do bairro.

- Vestido novo, sandálias novas, perfume discreto. Cabelos e unhas? O salão deve estar lotado. Quase cinco e meia. Mas, do vestido, das sandálias e do perfume eu não abro mão.

Largou o marido, os pães de queijo e o café, entrou no carro, parou no estacionamento do shopping, simpatizou com a primeira sapataria que apareceu, porém, quase uma hora depois de azucrinar as atendentes e revirar os modelos da vitrine, ainda mostrava-se insatisfeita com as opções. Agradeceu rapidamente pelo atendimento e sentou-se no primeiro banco da sapataria concorrente. Os atendentes gastaram quase meia hora e irritavam-se indiscretamente com as solicitações reiteradas. Desciam caixas, subiam caixas, explicavam modelos, sugeriam combinações, alardeavam a qualidade, a durabilidade e o design do produto. Terceira sapataria, problemas idênticos. Na sexta loja, sandálias de salto número 16.

Faltavam apenas o vestido e o perfume. Como sabia que o marido, nos tempos de namoro, sempre gostara de fragrância suave, comprou vidrinho discreto. Bastava um pingo nos pulsos e outro atrás do pescoço ou das orelhas.

Vestido vermelho, ombros à vista e um palmo acima do joelho. Dentro do provador, os quilinhos acumulados na ausência à ginástica e à natação surpreenderam de maneira que a atendente, sem saber adequadamente o que fazer e temendo represálias da gerente caso perdesse a cliente, expôs vestidos maiores e mais coloridos.

Passava das vinte e duas horas – horário de fechamento do shopping e, consequentemente, das lojas – quando a mulher finalmente escolheu vestido cor de pele. Chegou ao carro com as sacolas, mas não conseguiu encontrar as chaves. Espalhou o conteúdo da bolsa no chão, verificou item por item. Subiu as escadarias: portas das sapatarias fechadas e sem funcionários. Procurou a gerência, sem sucesso. Quando decidiu voltar ao estacionamento, a porta de acesso fechada mostrou-lhe a cilada em que caíra. Imaginou a possibilidade de se socorrer do marido. Ele saberia o que fazer. O telefone? Dentro do carro.

Procurou telefone público, entretanto a companhia mandara retirar todos os aparelhos do estabelecimento. A falta de interesse de utilizá-los e a popularização do celular encareciam a manutenção. Se jogasse algo contra uma vitrine, alguém certamente apareceria acompanhado da polícia, imagens do incidente na internet.

Andou de um lado para outro por duas horas até sentar-se exausta no sofá. Quase uma hora da manhã. Pulou, sobressaltada: o marido, acompanhado de dois vigilantes e o gerente geral, a acordava.

- Realmente, disse o esposo, acenando ao vigilante, cumprimentando o gerente e manobrando levemente o automóvel no estacionamento vazio, você sabe como quebrar a rotina.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 13 de julho de 2012.

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