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sexta-feira, 20 de julho de 2012

FAZENDA


Para Alan Scott



Quando éramos pequenos, meu primo Alan e eu morávamos na cidade mais interessante, empolgante e marcante: Santa Rita. O município de mais ou menos cento e trinta mil habitantes possuía vários bairros. Alan morava em Tibiri II; eu, Tibiri I. Dona Isaura, nossa avó, mãe de meu pai e mãe da mãe dele, no Bairro Popular.



Encontrávamo-nos em eventuais visitas ou à sua casa, ou à minha residência, mas ponto de encontro mesmo era na casa de vó Isaura onde, depois de várias discussões e ajustes, firmamos o acordo de que, ao crescermos, viraríamos fazendeiros. Peguei um caderno de desenhos – sobrevivente das aulas de Educação Artística, perdido entre remanescentes escolares – e, assim como Noé, lápis em punho e ouvidos atentos, anotei os pares de animais que viveriam em nossos domínios.



Naquela época, as conversas sobre o que teríamos ou não duravam da hora em que acordávamos até o momento em que íamos dormir, interrompidas para assistir aos desenhos. Nada sabíamos sobre administração rural, propriedade produtiva, lucros, prejuízos, tributos, direitos trabalhistas de quem desejasse trabalhar sob nossas ordens, percalços ambientais, mercados futuros, arregimentação de investidores... Reunir um bando de animais configurava mais relevante objetivo.



Então, muito pacientes, escrevíamos, reescrevíamos, elaborávamos, incluíamos e extirpávamos nomes: vinte casais de coelhos, setenta casais de galinhas, setenta casais de gansos, setenta casais de patos, setenta casais de guinés (ave a que, em alguns lugares, dão o nome de galinha d’Angola), setenta casais de peixe (certamente teríamos um rio ou, na melhor das hipóteses, um lago), trinta casais de bovinos, dezesseis casais de ovelhas... Porcos? Claro! Porcos também são filhos de Deus. Depois de algumas reflexões, achamos melhor um ou dois casais. Porcos moram na lama. Já imaginávamos o trabalho que daria limpá-los e perfumá-los. Nomes, espécies, quantidades e qualidades entravam e saíam corriqueiramente de nossa lista, passada a limpo de meia em meia hora.



Chegou o momento em que os animais escassearam e pensávamos em incrementar as atividades agrícolas quando vó Isaura, ouvindo nossos ajustes comerciais, perguntou que fazenda era aquela que não tinha plantação nenhuma. Só bicho?



Depois de engolir o feijão, o arroz e o lombo que só dona Isaura sabe fazer, corríamos à sala e iniciávamos o trabalho incansável, desta vez, conscientes de que precisávamos saber dos nomes de frutas, legumes e verduras que seriam plantadas – com as nossas ou as mãos alheias, assunto nunca discutido. Caneta deslizando no caderno de desenho: tomate, alface, cenoura, cebola, batatinha inglesa, batata doce, inhame, coentro, pimentão, feijão, arroz, macarrão, goiaba, manga, abacaxi, abacate, laranja, limão, acerola... Quando nossas idéias de animais, frutas, legumes e verduras acabaram, Alan indagou das árvores. Não éramos necessariamente defensores do meio-ambiente, nada conhecíamos de sustentabilidade ou sistema ecologicamente equilibrado, mas meu primo, acompanhado de imediato por mim, desejava proteger nossos animais. Árvores frondosas, sombras imensas. Se não gostávamos de tostar ao Sol, por que nossa criação gostaria?



Os tempos voaram, as transformações da juventude surtiram efeitos, mudamos de casa e de cidade, distanciamo-nos por quase três mil quilômetros. Meu primo casou – nunca conversamos sobre isso, mas acredito que queira ser pai, praticou artes marciais, alçou-se a importante jogador de basquete, instalou-se em João Pessoa, cursa faculdade e esforça-se no trabalho que, pelo que vejo, o leva a São Luis, São Paulo, Mossoró e tantos outros locais formidáveis.



Lembrando de sua cidade, Drummond – tão festejado em seu centenário – afirmava que Itabira (MG) era só um retrato na parede, um retrato que doía o coração.



Nunca entendi de animais ou de plantação, mas hoje, puxando essas lembranças das gavetas da memória, nossa imagem (Alan e eu sentados ao chão da sala de TV da casa de vó Isaura, elaborando e discutindo os objetivos de nossa fazenda) “é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói!”



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 20 de julho de 2012.

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