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sábado, 30 de outubro de 2010

COLUNA SOCIAL

Para Carolina Mussolini






A secretária apontou o telefone falando, entre os dentes, que uma mulher queria colocar algumas fotos na coluna social. A editora fechou dois arquivos abertos na tela do computador, riscou compromissos da manhã, amarrou o longo cabelo preto, bebeu um pouco mais do chá de camomila frio, que repousava na ponta da mesa:






- Olá, boa tarde. Em que posso ajudar?






O silêncio a fez pensar que a ligação tivesse caído. Falando um pouco mais alto:






- Em que posso ajudar?






- Oi. A senhora me desculpe. Primeira vez que falo com uma pessoa de jornal. Estou muito nervosa.






- Tudo bem, respondeu a editora. Pode me chamar de você. Não precisa ficar nervosa porque estou aqui para ajudá-la. E, por falar nisso, como posso ajudá-la?






- A senhora, digo, você é responsável pela parte de fotos de festas no jornal?






- Sou a editora responsável pela coluna social em que, entre outras coisas, publicamos algumas fotos de festas. Interesse nas fotos?






- Precisa de muito dinheiro? É muito caro?






- As fotos são publicadas de graça, disse a editora, puxando a xícara de chá, dando mais um gole e procurando um número qualquer na agenda aberta sobre as pernas.






- Meu “filho” vai fazer dois anos na sexta-feira. Gostaria de saber se as fotos podem ser colocadas na edição de sábado. Podem?






- Sem dúvida. Como ele vai fazer dois anos, presumo que a festa se estenda, no máximo, até por volta das dez da noite.






- Exato.






- Temos três fotógrafos para cobrir eventos sociais, mas um está de licença médica e o outro de férias. De modo que temos apenas um profissional disponível. Ele teria de ficar, no máximo, quinze minutos, tirar as fotos e já voar para outros eventos. Só na sexta-feira, disse, constatando na agenda, ele possui sete festas.






O silêncio do outro lado da linha substituía o nervosismo inicial ou pela angústia ou pelo medo.






- Se tiver alguém que entenda de fotografia, pode tirar umas quinze e a gente escolhe as três melhores.






A leitora confirmou a presença do irmão que entendia de fotos e de artes e se comprometeu a enviar a quantidade solicitada até meia-noite. A editora falou pausadamente o endereço eletrônico e, antes de desligar, ouviu o agradecimento da mulher.






- Meu “filho” é excepcional. Isso significa muito para mim!






Na sexta-feira, a editora alertou a equipe sobre o envio de mais ou menos quinze fotos por volta da meia-noite. Escolhessem as três melhores e, acontecesse o que acontecesse, publicassem as do “filho” excepcional. Se preciso, deixassem de publicar as da filha do presidente do supermercado, do gerente da rede de farmácias, da esposa do diretor-presidente da construtora Prédio em Pé e até do encarregado do banco do estado, mas em hipótese nenhuma esquecessem de sua recomendação.






Às 23h45, um dos membros da equipe telefonou. Nada de foto. Pediu que esperasse mais um pouco. Meia-noite e meia: nada de notícias. Pouquinho depois da uma hora da manhã, o ajudante confirmava o recebimento e perguntava se realmente queria publicar aquelas fotos “excepcionais”.






- Você é muito preconceituoso! Como pode me perguntar se quero publicar fotos “excepcionais”? O jornalismo contemporâneo pratica a inclusão e garante o mesmo espaço para todos. Para todos, você me ouviu? Do mais rico ao mais pobre, do mais inteligente ao intelectualmente menos favorecido, do agricultor ao citadino, do cristão ao ateu, do socialista ao liberal!






O assistente respondeu positivamente. Escolheria as três melhores fotos do “filho excepcional” da leitora, colocaria numa posição de destaque. A editora ainda comentou o desaforo do assistente com o marido. As pessoas falavam tanto de mudança, mas se denunciavam refém de preconceitos. O “filho” excepcional da leitora de fora? De jeito nenhum. O marido disse-lhe três ou quatro dúzias de lugares-comuns para acalmá-la, mas ela se perdia em seus pensamentos de ira, de raiva, de inconformismo. Arrumou o travesseiro, puxou o lençol e acordou às seis e quinze da manhã, telefone tocando, o dono do jornal em voz pausada:






- Desde quando fotos de porcos entram na coluna social?






*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 29 de outubro de 2010.

Um comentário:

luiz eduardo disse...

nos faz pensar...kkkkkkk