Páginas

domingo, 4 de julho de 2010

JOGO DO BRASIL

Detestava futebol, mas como os amigos, os conhecidos, os colegas de trabalho e de faculdade, os vizinhos, os pais, os irmãos, os parentes, as amantes e a cidade paravam para assistir aos jogos do Brasil transmitidos ao vivo da África do Sul, aceitou o convite para ir à casa do amigo do amigo do amigo.


 
- Num lugar desses – disse o amigo do amigo do amigo – a gente se entrosa rapidamente e você nem vai perceber os dois tempos passarem. Quando observar, estará de olho em alguma morena linda. Se brincar, até aprende as regras e quem sabe na final, pois vamos chegar sem dúvidas à final, você nos convida para assistir ao jogo na sua casa?


Comer e beber de graça com a possibilidade de se rodear de mulheres não era necessariamente algo ruim. O chefe liberou o pessoal mais cedo. Retirou o carro da garagem, atravessou a cidade para entrar numa chácara. Um telão moderno que não se ofuscava pela luz solar, mesas, cadeiras, bebidas, baldes de gelo, petiscos e, dentro da casa, variedade de guloseimas para os famintos.


Aperto de mãos, beijos, cumprimentos, sorrisos. Quando o hino nacional entoou seus primeiros acordes, as cento e cinqüenta pessoas riam, conversavam e trocavam impressões como se conhecessem há mais de trinta anos.


Apesar das lindas mulheres que acompanhavam maridos, namorados, amigos ou simplesmente transitavam em grupos em busca de aventuras, seus olhos grudaram em um rapaz de nariz grande, cabelos pretos compridos amarrados em rabo de cavalo. Perguntou a dois ou três colegas se o conheciam. Diante da negativa, assistiu aos lances simples, empolgando-se pelas probabilidades de gol, reclamava das faltas ignoradas pelo juiz omisso, insistia nos pênaltis. Um lance mais ousado o fazia pular da cadeira, mãos para cima em frenética agitação. Se a emoção parecia grande, puxava quem estivesse ao lado:


- Você viu aquilo? Você viu aquilo? Ai, meu Deus! Como um cara desses entra na seleção? Comprou a vaga?


O narigudo de cabelos pretos compridos amarrados em rabo de cavalo interagia bem com os desconhecidos e, provavelmente interessado em se tornar afável, caminhava entre os espectadores, duas garrafas de cerveja, enchendo os copos e trazendo, quando solicitado, pedaços de salsicha, carne, lingüiça, queijo, salame, presunto, pão de alho. Oitavo copo de cerveja. Achou que o narigudo trocava olhares com dois rapazes que ficaram em pé ao fundo.


- Esse negócio está me fazendo mal, disse, forçando as vistas sobre a cerveja. Quem diria que um dia iria me sentar entre tanta gente, bebendo e torcendo para um time de futebol?


De repente, o narrador destacou um brasileiro que cortara um, dois, três, dera um chapéu no quarto, enganara o quinto, pulara sobre o sexto, avançara sobre o gol, driblara o goleiro, mas antes de impulsionar a bola fora derrubado com um carrinho.


A platéia da chácara grunhiu em uníssono, alguns se levantaram, outros gritaram. O narigudo surgiu em sua frente, encheu o copo, dois espetinhos intercalados de queijo e carne bem passada. Um gordo, escorrendo de suor, berrou. Que saísse de sua frente.


As tentativas se repetiam. Os mais exaltados já xingavam não apenas o juiz que insistia em se fingir de cego às investidas do adversário, mas também o técnico que, sem capacidade de aprimorar a estratégia por meio de táticas acertadas, se limitava a gritar ao lado do campo.


Procurou o narigudo: um pouco de cerveja e mais um espeto de queijo com carne bem passada. Olhou para trás e os dois camaradas que, em pé, ora acompanhavam a partida, ora vigiavam zelosamente o estacionamento improvisado, também tinham desaparecido. Tanta mulher no mundo e tanta mulher aqui, maquinou, baixando a cabeça e sorrindo maliciosamente.


Quando o jogo estava próximo do fim, saiu em direção ao estacionamento e festejando: - Esse negócio de futebol é bom demais!


Desceu, esquerda, desceu novamente:


- Onde deixei meu carro?


Rádios, discos e micro-aparelhos de DVD tinham desaparecido em cinco automóveis, um dos quais pertencia a quem tanto relutara em assistir à seleção brasileira.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente - SP) de 2 de julho de 2010.

Nenhum comentário: