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sábado, 17 de julho de 2010

CASA DE PRAIA

Amigos optaram pelas praias de João Pessoa. Cansaram das Serras Gaúchas, pavor de Campos do Jordão, distância da Serra de Itatiaia ou da Cidade Imperial.



Uma colega de classe, que trabalhava em agência de viagens, emprestou um prospecto colorido assegurando que obteria desconto de cinqüenta por cento do aluguel de uma casa na praia de Lucena caso pudessem pagar à vista. Arrumaram quatro carros e cortaram o interior de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco e, finalmente, estradas esburacadas, léguas sem comunicação e pedágios inesperados, entraram em território paraibano. Acharam a capital com alguma tranqüilidade e, saindo de João Pessoa por um desses barcos que transportam carros, ônibus, motos e pequenos caminhões, chegaram a Lucena.

 

Um deles saiu disfarçadamente da cozinha e telefonou para dois primos. Conversaram e, informado dos quinze graus médios que congelavam as noites e esfriavam o interior dos edifícios durante os dias, rematou:

 

- Pois é. Aqui tenho um problema que não tem solução: trinta e cinco graus, refrigerante, cerveja, carne. Só tenho trabalho de beber, de comer, de dormir.

 

Antes de repousar o fone no gancho, protesto dos primos, inconformados com o desaforo. Os primeiros dias decorreram bem, mas no sexto, cansadas do trabalho que denominavam escravo, as namoradas saíram cedo sem deixar nada preparado nem para o café nem para o almoço.

 

A revolta passaria despercebida se, após a manhã intensa nas águas, a fome não esticasse suas garras às 14h.

 

- Assim não dá, disse o primeiro que, levantando-se do sofá improvisado na área, correu para cozinha. Abriu a geladeira e o refrigerador: carnes de frango, de boi, de peixe, de porco. Tinha até camarão e caranguejo. Quem cozinharia? Se algum filho de Eva soubesse, quando o gelo sairia do frango, do boi, do peixe?

 

As lamúrias se acumulavam até que, lembrando das compras do dia anterior, as figuras de dois pacotes de comida pronta afloraram na mente de Junior Junior, estudante de direito que mal sabia a diferença entre nada e coisa nenhuma.

 

Reviraram a geladeira, o congelador, olharam no lixo para verificar se alguém os tinha devorado. Em meio ao alvoroço coletivo, Junior Junior lembrou-se da sugestão da namorada de colocar os pacotes junto com cervejas e refrigerantes numa caixa térmica comprada em João Pessoa. A namorada constatara que a caixa realmente cumpria a promessa de pelo menos três dias ininterruptos com pedras de gelo intacto.

 

Correram para a caixa, jogada discretamente na despensa improvisada. Quatro homens para, com grandes dificuldades, arrastá-la ao meio da garagem. Seguiram as instruções, porém os mecanismos insistiam em se manter fechados. Leram novamente, mas diante da resistência concluíram pela melhor e mais prática alternativa: arrombamento.

 

Dois marmanjos mais fortes forçaram as travas sem sucesso. Outro veio da cozinha segurando uma vassoura e, com alguma perícia, introduziu-a entre a trava e a parede da caixa térmica. A vassoura partiu-se assim como a segunda, que servia para limpar o terreno, um rodo, uma colher de madeira. Até um pedaço de caibro e de ferro foram usados sem êxito na empreitada.

 

Um vizinho solícito apareceu no muro. Precisavam de alguma coisa? Não teria um alicate? O homem trouxe não apenas o alicate normal, mas também um exemplar grande que servira no trabalho do filho metalúrgico. Sucesso?

 

O vizinho emprestou uma pá, uma enxada, um martelo, uma picareta, uma marreta. As travas resistiam às investidas dos inimigos que, impacientes, já pensavam na hipótese de dar marretadas quando, sorridente e diabólico, o vizinho reapareceu no muro:

 

- Se nada funcionou, talvez isso aqui ajude. Uma dinamite.

 

As namoradas entraram pela garagem, sacolas cheias de quinquilharias adquiridas nas barraquinhas de artesanato. Estranharam a bagunça e a caixa térmica em estado de destruição.

 

- Não conseguimos abri-la, justificou-se um dos estudantes. Já estávamos até pensando em pegar isso emprestado, apontando para a dinamite.

 

A loirinha de saia creme entregou as sacolas à amiga, avançou sobre a caixa, puxou as travas para cima e para o lado: clic.



 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de julho de 2010.

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