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sábado, 5 de junho de 2010

THEMIS

Para Antônio Lázaro de Almeida Prado





Quando abri o jornal, corri para prestar minhas condolências e minha solidariedade ao poeta. Conheci-o nos últimos anos e, no ápice de sua magnitude literária, destacou um pouco de tempo para passar os olhos em meus textos de crítica e de criação literárias, artigos culturais, políticos e sociais.



Desde sempre o lera em nossos jornais, trazendo sua poesia e pareceres eruditos sobre os mais diversos temas. No primeiro trimestre deste ano, depois de conversar algumas vezes ao telefone, conheci a esposa que, radiante, linda e articulada em seus mais de setenta anos, transparecia a jovialidade de quem acabara de despertar. Naquela manhã, queria tomar-lhe depoimentos sobre romancistas, contistas, cronistas e poetas da segunda metade do século vinte. Quando transpunha ao computador as impressões, a esposa veio do quarto e, em sorrisos de simplicidade lastreados de beleza da maturidade, apertou-me a mão informando que o marido falava de mim.



Antes soturno, sério e professoral, Almeida Prado se desmanchou e, em dois tempos, presenciava não mais um homem de letras, leitor dos mais de dez mil títulos de sua biblioteca e tradutor festejado. O que eu via, como num desses belos filmes de efeitos inesperados, era um menino sorridente, falante e excitado, complementando a esposa e solicitando detalhes de nomes, de lugares, de pessoas, de eventos.



Themis, assim como a congênere grega, saiu para resolver problemas na rotina conturbada da cidade e, fazendo uma anedota, o poeta pediu que depositasse alguns valores.



- Afinal, alguém tem que trabalhar nesta casa, disse, sorrindo ainda mais.



Fiquei de verificar um dos títulos sobre o qual entráramos em controvérsia e, na despedida, mais uma vez mencionando a esposa, disse que não sabia onde colocara a chave do portão.



- Eu não sou nada sem ela! Me perco todo!



Marx entrou para a História, a Sociologia, a Economia e o Direito graças à esposa que, mesmo sabendo das dificuldades financeiras, manteve as pontas. Érico Veríssimo provavelmente ainda seria um dos três sócios da pequena farmácia mantida nos confins do Rio Grande do Sul caso Mafalda – mais do que mera personagem de seus relatos de viagem – não o tivesse apoiado. Sérgio Buarque de Holanda seria o grande historiador e sociólogo sem a esposa, falecida recentemente? Luiz Antônio de Assis Brasil desfilaria no rol dos mais importantes romancistas do século vinte sem a presença de Valesca? E – tomo a liberdade de perguntar – Antônio Lázaro de Almeida Prado seria o grande poeta, intelectual prestigiado e leitor refinado sem o companheirismo, a compreensão e o incentivo de dona Themis?



Uma vez, quando relia um de seus livros, minha filha perguntou por que quase todos os poemas eram dedicados a Themis. Expliquei que se tratava de um poeta que eu conhecera e com quem tomara um café enquanto falávamos de Literatura, de Filosofia, de vidas. Curiosa, insistiu na pergunta: por que quase todos os poemas eram dedicados a Themis? Então lhe narrei com dificuldades a crônica de Rubem Alves intitulada “Os flamboyants”.



Rubem Alves acordou numa manhã de sol esplêndido e de céu convidativo e, num espasmo, resolveu aproveitar o dia. Caminhou por um parque e, quando se preparava para entrar no carro, encontrou um amigo com uma câmera fotográfica. O amigo confidenciara que, depois de ler uma de suas crônicas sobre a brevidade da vida, resolvera fotografar os flamboyants que eram, na concepção da esposa, as árvores mais lindas. O marido pediu que não contasse nada para ela, pois seria uma surpresa. Semanas de cochichos, de esconderijos, de empenhos, montou um álbum com as melhores fotos. A esposa adorou. O marido disse que, se pudesse viver mais um ano, se empenharia em vivê-lo ao lado dela, providenciando tudo que fosse possível para fazê-la feliz.



Precisamos aproveitar as árvores que existem em nossos sentimentos: “As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando...”



Certamente minha filha nada entendeu, mas Almeida Prado aproveitou cada folha do Flamboyant, antes que elas caíssem. Quando entrei no velório, filhos, netos, parentes e amigos choravam. Ao lado do esquife e da filha, o poeta rabiscava serenamente algumas linhas. As últimas linhas que seguravam as folhas do Flamboyant de uma longa jornada. As primeiras linhas que começavam a grudar as novas folhas do Flamboyant que surgia, ressurgia e se multiplicava.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de junho de 2010.

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