Páginas

terça-feira, 1 de junho de 2010

PETISKEIRA BAR


Otávio telefonou-me cedo: a Receita Federal enviara notificação para que, no prazo de trinta dias, apresentasse eventuais recursos contra os mais de duzentos mil reais gastos em suposto tratamento dentário. Morava em Presidente Epitácio, última cidade do estado de São Paulo.


- Podes vir esta noite?


Fiquei algum tempo em silêncio ao telefone. Se ele estava lascado e a culpa havia sido dele, por que não se deslocava para Prudente a fim de solucionarmos sua defesa? Insistiu. Estava meio atrapalhado no novo trabalho.


- Te encontro no Petiskeira Bar?


- Onde? Perguntei.


- Um bar que abriu aqui. Excelente. Já fui lá umas duas vezes. Podes ficar tranqüilo. Eu pago a conta. O que comeres e o que beberes, por minha conta.


Passara por Presidente Epitácio uma vez quando retornava de uma fantástica viagem a Anaurilândia, do outro lado do rio, nos rincões do Mato Grosso do Sul, mas imaginava que não fosse difícil encontrar o bar cujo endereço Otávio se esquecera de informar e eu deixara de pedir.


Entrei na Presidente Vargas. Alguns transeuntes me apontaram o estabelecimento na frente do qual estacionei depois de entrar por uma rua, sair por outra e esperar a manobra de uma camionete.


Os ventos frios de maio cessaram temporariamente e aproveitando a noite que oferecia um espetáculo de lua, sentei-me à primeira mesa da calçada, joguei minha bolsa na cadeira ao lado, puxei os três livros que geralmente levo para me entreter enquanto espero pessoas, transportes, filas. Naquela noite, estava ao meio de “O centauro no jardim”, de Moacyr Scliar e de “Bocas do tempo”, de Eduardo Galeano, e concluía “As melhores histórias de Fernando Sabino”. Pedi uma Coca-Cola litro. Deslizei nas cinqüenta páginas de Eduardo Galeano. Caminhei de um lado a outro, completei meu copo e li dois capítulos de Scliar. Duas horas e nem sinal de o cara de pau aparecer, telefonar ou mandar recados.


Terminei Fernando Sabino. Consultando novamente o relógio e soltando fumaça pelos ouvidos, pedi a conta. Já tinha colocado os livros na bolsa. Procurava dinheiro na carteira. Uma voz estranha. Vislumbrei uma morena no melhor estilo Ana Paula Padrão.


- O que faz alguém, numa sexta-feira à noite, ficar lendo?


Gaguejei qualquer resposta, articulei mal duas ou três frases. Minha carteira caiu em cima da mesa, escorregou pela cadeira e parou no chão. Ao me erguer, a Ana Paula Padrão arrastara o copo de suco de laranja. O que lia?


Quando o garçom apareceu, pedi que trouxesse mais um litro de Coca-Cola e petiscos. Mariana – nome da Ana Paula Padrão – disse que trabalhava no comércio, fazia inglês aos sábados e gostava de ler sem pressão. Adorava crônicas. Saquei o livro do Fernando Sabino. Um de seus favoritos.


A cena – semelhante à da garçonete poetisa em São João da Boa Vista – parecia se repetir e, indagando de seus cronistas preferidos, mencionou, além de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo, Josué Montello...


Contive minha admiração e, para testar seus conhecimentos, pedi que me explicasse quais critérios a levavam a ler aqueles autores. Discorreu sobre a poeticidade de Fernando Sabino e de Paulo Mendes Campos, do pioneirismo de Rubem Braga, da falta de jeito de Carlos Drummond de Andrade (a quem considerava o maior dos poetas brasileiros), do cotidiano de Luis Fernando Veríssimo, da erudição de Josué Montello, da paixão de Colasanti e Sant’Anna, da admirável agilidade de Scliar.


Falou ainda de romances, de contos e de teatros. Detestava jornais e revistas.


O garçom bateu-me nas costas e, em voz discreta, perguntou se desejava mais alguma coisa. Mariana e eu éramos os últimos clientes da noite, ou melhor, da manhã. Fiz questão de levá-la em casa, mas me apontou a motocicleta.


Otávio não apareceu naquela noite nem telefonou nos dias seguintes. Meses depois, um amigo em comum estranhava que ele tivesse perdido duas casas, um terreno, um carro, uma moto, boa parte dos móveis e, mesmo assim, ainda chorasse uma longa dívida.


Desde então, espero o relógio do escritório bater seis da tarde para, saindo apressado, estacionar no Petiskeira Bar, esticando meus fins de semana em Presidente Epitácio.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 28 de maio de 2010.

Nenhum comentário: