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sábado, 13 de março de 2010

ATÉ MAIS, WILSON MARTINS!

Quase sempre que conversa com leitores, Moacyr Scliar recorda quando, desajeitado, solicitou a Érico Veríssimo a leitura de um conto. O autor de “O tempo e o vento” o aconselhara a seguir na carreira. Estava no caminho certo. O engraçado, hoje recorda o consagrado Scliar – mais de oitenta livros, prêmios nacionais e internacionais, colaborador dos mais importantes veículos de comunicação, membro da Academia Brasileira de Letras –, ficou por conta da descoberta, ao fundo de uma gaveta, da última página do texto. Há bons escritores e boas pessoas, assegura Scliar. Érico Veríssimo, continua, encaixa-se nos dois grupos.

Enjoado de matérias dogmáticas, solicitei ao professor algumas leituras a fim de iniciar um projeto de iniciação científica. O historiador e sociólogo Wilton Carlos Lima da Silva jogou as fotocópias de dois capítulos de “História da Inteligência Brasileira” de autoria de um desconhecido: Wilson Martins.

Li os textos, mas por falta de tempo hábil não entramos no programa de iniciação científica. Procurei descobrir mais sobre sua vida e sua obra, refazendo a trajetória intelectual: bacharel em direito e doutor em Literatura, lecionara anos na Universidade Federal do Paraná, assinando colunas de críticas literárias em jornais importantes da época como “O Estado de São Paulo”. Depois, partira para os Estados Unidos onde consolidou a carreira acadêmica buscando bibliografia para escrever sua monumental obra.

Segui para o mestrado em história política. Apesar da escolha, continuei apaixonado pela Literatura de modo que, pouco tempo depois, estreei uma coluna em que publicava contos, crônicas e crítica literária.

Os leitores eventualmente enviavam-me mensagens eletrônicas. Comentavam as crônicas e os contos, mas o silêncio em torno das críticas literárias – e o silêncio, na maior parte das vezes, é mais importante do que o dito – incomodava-me sensivelmente.

Um dia minha mãe compartilhou o comentário de um jornalista: - Gosto de que seu filho escreve, mas não entendo os comentários sobre livros. Semanas depois, uma pediatra confidenciou-lhe que eu escrevia “difícil”. Escrever “difícil” tem duas acepções: ou não se sabe escrever, ou se escreve numa linguagem analítica, acessível a poucos. Decidi procurar quem admirava na crítica literária: Wilson Martins, Fabio Lucas e Antonio Candido.

A telefonista do jornal curitibano passou-me o número pedido. Uma voz do outro lado confirmou se tratar do escritório do crítico literário. Informei que morava no interior paulista e que gostaria de agendar um horário para conversar por telefone.

- É com ele que o senhor está falando.

Gaguejei, engoli em seco. Frio na barriga, moleza nas pernas, tremedeira nas mãos e nos braços. Pedi desculpas pela desarticulação, acrescentando que era uma honra indescritível dialogar com Wilson Martins. Após os primeiros choques e mais controlado, perguntei se, mesmo ocupado, poderia eventualmente ler meus textos. Deu-me o endereço.

- Será um prazer. O senhor pode me telefonar em quinze dias que emitirei meu parecer.

Angustiado, arrependi-me de enviar os textos. O crítico literário era conhecido pela franqueza impessoal, pela análise esmagadora, pela opinião fulminante e por não fazer concessões. Esperei uma, duas, três e, finalmente, na quarta semana, depois de relutar, repensar, esmorecer e me acovardar, tomei coragem e telefonei.

A secretária me atendeu e, em seguida, Wilson Martins. Disse que enviara um envelope com jornais nos quais estavam minhas críticas literárias. Ele as leu. Deveria continuar escrevendo que adquiriria segurança com o tempo e o ofício. Indaguei se poderia me indicar livro de análise literária. Não lembrava de nenhum no momento e, se lembrasse, não indicaria, pois esses “livros ensinam o que não sabem fazer”.

Senti-me o jovem Scliar ouvindo os incentivos de Érico Veríssimo. Assim como os do Scliar escritor iniciante, meus textos eram – e na maior parte continuam sendo – péssimos. Wilson Martins repetiu, sem saber, o comportamento do grande romancista gaúcho: incentivou alguém que se aventurava na crítica. Bom crítico e boa pessoa.

Wilson Martins faleceu no último fim de semana de janeiro deste ano, deixando dezenas de admiradores. Da última vez que conversamos ao telefone, aceitou me receber em seu apartamento. Viajaria para Curitiba no segundo semestre.

Vamos nos encontrar daqui a quatro ou cinco décadas. Quero ler o máximo de Literatura, filosofia, história, sociologia, antropologia. Para um grande intelectual, os festejos apenas acontecem ao discutirmos acaloradamente nossas paixões. Quando esse encontro acontecer, estarei armado de granadas poéticas, de revólveres dramatúrgicos, de espingardas de crônicas, de tanques de romances, de cavalos de contos fantásticos, de caneta e muito papel.

Até mais, Wilson Martins!

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 12 de março de 2010.

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