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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FOGO BRANDO

Mudara-me para Tarumã deixando amigos na cidade em que concluíra a graduação e da qual saíra, no começo do ano, para assumir uma vaga de escriturário num banco da cidade paulista.

Não demorou para simpatizar com uma família que morava na frente da agência e, semanas depois, namorar a filha mais nova, cabelos pretos lisos e compridos, que propositalmente aparecia nas horas impróprias – em que trabalhava como caixa para diminuir a fila – a fim de depositar um centavo.

O comportamento detestável descambou numa espera ansiosa de modo que, sempre que a fila crescia em dias posteriores aos domingos ou aos feriados, meus olhos passeavam pelas faces em busca de uma franja de cabelos pretos ao fim da qual vislumbraria o sorriso cativante harmoniosamente desenhado para suprimir a inexpressividade dos olhos.

Terminava de preencher alguns formulários no reservado quando o gerente acenou-me. Cinco amigos vestidos de roupas de turistas lotando os assentos destinados aos clientes. Quarta-feira que antecedia o feriado de Corpus Christi parecia dia ideal, segundo meus amigos, para me fazerem uma visita surpresa e conhecerem a tão famigerada cidade.

Tentei acomodá-los em minha casa de quarto e sala, mas a euforia e a simplicidade impediam-nos de se darem conta de que dormiriam praticamente uns sobre os outros. Apenas um ponto me preocupava: os pais de Sara.

Prometera-lhes um jantar em casa. Os parentes de Florianópolis chegariam e os pais, ansiosos por apresentar o bom partido, pretendiam mostrar que eu tinha vida modesta, mas era independente e possuía um futuro tranqüilo para sustentar a filha.

Telefonei para um restaurante próximo, encomendei alguns salgadinhos, refrigerantes e cinco garrafas de vinho gaúcho. Faríamos uma reunião informal, os pais de Sara conheceriam meus amigos, meus amigos conheceriam os pais de Sara e os parentes compartilhariam momentos agradáveis.

- Tenho uma coisinha especial para esse velho, confidenciou-me André, sorrindo maliciosamente.

Adverti que não poderia aprontar barbaridades, pois o pai dela mostrava-se sério quase todo o tempo. De dentro de uma mala, André retirou cuidadosamente um barril engraçado com uma torneira.

- Trouxe cachaça. Vou colocar aqui em cima e, quem quiser, é só abrir a torneirinha e beber. Cachaça de João Pessoa. Da boa.

Meu sogro chegou antes do horário combinado. Deu-me as chaves para pegar a filha, a esposa e os parentes. Meia hora depois estacionava em frente da casa, fechava o carro, ativava o alarme, olhava o lustre dos sapatos e tomava a frente da comitiva abraçado a Sara.

Passamos rapidamente pelo pequeno jardim coletivo, abrimos a porta e, pulando nos sofás, o pai de Sara e meus cinco companheiros, cantando, berrando e sorrindo incontrolavelmente, entoavam músicas de serenata.

Ao avistar a esposa, engatinhou, derrubou meus livros no chão ao bater na mesinha de centro:

- Eu não tive culpa, meu bem. Eu não tive culpa. Eles disseram que a cachaça era boa, mas eu não sabia que era tão boa assim. Tomei só dois dedinhos...

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 3 de dezembro de 2009.

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