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sábado, 21 de novembro de 2009

JOSUÉ MONTELLO: SÍNTESE DO ROMANCE

Um escritor não se imortaliza pela atividade irrestrita ou pela produção maciça e cosmopolita, mas por algumas peculiaridades manifestadas no decorrer do ofício e consolidadas aos poucos, no exercício pleno da criação artística. A consolidação de estilo maduro – de trânsito fácil que vai do romance à memorialística, passando pelo jornalismo, pela crítica e pelo ensaio – faz de Josué Montello um paradigma para quem deseja um romance de fôlego.

Embora desconhecido do grande público, Montello integra o seleto grupo que, nas palavras do crítico literário Wilson Martins, possui qualidade, mas que ainda não foi lido e analisado adequadamente.

Elegemos “Cais da Sagração” para esmiuçar um pouco do universo desse imortal da Academia Brasileira de Letras, considerado por muitos o ensaísta definitivo da obra de Machado de Assis, que faz do Maranhão o cenário de algumas de suas obras.

“Cais de Sagração” se passa entre São Luis e – predominantemente – uma cidade litorânea de onde os personagens saem apenas por transportes marítimos. O miolo da narrativa se expande pela linearidade sulcada com grandes lapsos psicológicos de memória, esquecimento e redimensionamento do passado. Além disso, a linguagem serena, amadurecida e firme se quebra salutarmente por intervalos cômicos profundos.

Proprietário de um barco que se movimenta graças à ajuda do vento e aparentemente arredio às novidades mecânicas que poderiam proporcionar mais segurança, mais conforto e mais rapidez às viagens empreendidas, Mestre Severino encarna – numa mistura de sobriedade, de apegos a princípios e de autoritarismo pinçado pelo silêncio – o homem irredutível e machista. As conversas mais complicadas com a família ou com alguns amigos se exteriorizam por monólogos protagonizados pelo comandante do “Bonança” que, por muitos anos, se manteve atado ao trapiche.

O descaso em relação ao barco coincide com o período de prisão. Morando com Lourença, mulher sem grandes atrativos, simplória, acabrunhada e matuta, Mestre Severino adquire a liberdade da meretriz Vanju, que vive em São Luis. De volta da capital, informa a Lourença que se casará na semana seguinte. Lourença naturalmente se enche de felicidade, desconserta-se pela pressa do comandante, pensa em voz alta nos detalhes do vestido de noiva providenciado com uma amiga e, antes de se perder em devaneios, é alertada sobre a outra.

O aviso do enlace matrimonial parece conformar a companheira que, retirando seus pertences do quarto comum, muda para o cômodo contíguo. A aceitação do casamento, por parte de Lourença, e o deslumbramento de Mestre Severino pela meretriz Vanju simbolizam o quadro da condição feminina.

A verossimilhança e a universalidade da cena são rematadas por um discurso do narrador onisciente. Numa situação de beleza e repugnância, Mestre Severino atinge o clímax do machismo ao pensar que nenhum homem poderia se interessar por outra mulher depois de dormir com Vanju.

A vida monótona e sem glamour desencadearia a inquietação numa mulher, outrora festejada e adorada, que perdia os dias folheando revistas velhas e jogando conversa fora com Lourença, convertida em empregada doméstica.

O poder de sedução de Vanju desperta a cobiça dos transeuntes e os ciúmes doentios de Mestre Severino. Desconfiado de suas inclinações e das eventuais trocas de olhares com o promotor que chegara ao povoado, o comandante leva a esposa para uma praia afastada, afoga-a, assume o crime, se entrega à polícia, é processado e condenado e, mesmo na cadeia, passa os dias recomendando a Lourença que providencie uma lápide suntuosa para o túmulo da mulher e que cuide da filha dele.

Um momento de comicidade se dá quando, rememorando os tempos de cadeia, Mestre Severino é comunicado do falecimento do promotor. Quase enlouquecido, convence o carcereiro a abandonar temporariamente suas funções e a buscar o padre. O fracasso do carcereiro angustia Mestre Severino que se debate, mas vencido pelo cansaço, compartilha suas aflições com o clérigo no dia seguinte: a infidelidade de Vanju com o promotor se concretizaria no além.

A filha de Mestre Severino cresce, casa-se com um homem de mar e, antes de o filho se desenvolver, falece. Lourença criará o neto de Mestre Severino que, já fora da cadeia, debilitado pela idade e por problemas cardíacos, resiste aos medicamentos e à escolha religiosa do menino.

A vitória de Mestre Severino – machista autoritário – se concretiza na volta de São Luis: ao acordar depois de intensas dores no peito, testemunha o neto guiando o barco.

O problema da trama fica por conta da linguagem que, se por um lado comprova a capacidade no manuseio do léxico, por outro, enfrenta desatinos na fala de personagens, dando-lhes cultura impertinente.

Apenas pela maturidade da linguagem, pela denúncia social, pela caracterização completa da universalidade e da verossimilhança, “Cais da Sagração” deve ser lido o quanto antes. Uma obra-prima da Literatura contemporânea!

*Publicado originalmente na Série Especial Dez Escritores Contemporâneos do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 20 de novembro de 2009.

2 comentários:

Anônimo disse...

seus textos são muito bons, estou trabalhando eles com meus alunos Rosa, regente feijó, próximo de prudente

Anônimo disse...

Professor quando eu crescer quero escrever pelo menos parecido com o Sr. rsrsrsrs... Deus te abençoe viu, porque tudo que faz merece nota mil... Ivanilde 1º termo de Direito de Presidente Epitacio-SP