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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ESCREVENDO PARA NÃO ADOECER


Organizando minha biblioteca depois de semana intensa de baterias de provas estafantes, reencontrei “Todo mundo devia escrever”, publicado pela Parábola Editorial, da lavra de Georges Picard. O título nos introduz ao mundo democrático da escrita e o subtítulo – “A escrita como disciplina de pensamento” – acaba nos indicando quais rumos adotar na jornada intempestiva da briga com as palavras. Quem escreve, ressalta Georges Picard, manipula a realidade de modo feliz ou infeliz e, ainda por cima, tenta se realizar, imprimindo as próprias marcas.



Ao lado dele, “Para gostar de escrever”, publicado pela Ática, parceria de Faraco e Moura, conhecidos autores de livros didáticos. Abordando pedagogicamente o domínio da linguagem, a narração, a descrição e a dissertação, Faraco e Moura ainda acrescentaram listas de exercícios complementares, dando ênfase aos modelos de redação de vestibulares e do ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio).



Se Georges Picard vislumbra a escrita como ato de liberdade e de responsabilidade, Faraco e Moura apresentam seus processos de criação e procedimentos de exteriorização. Já Roland Barthes, em “Aula”, estende a concepção de escritor a qualquer um que escreva: o ensaísta, o contista, o novelista, o autor de diários, de cartas, de peças publicitárias, de processos jurídicos, de explicações burocráticas, de receitas culinárias ou de aconselhamentos para matrimônios felizes...



As lembranças caíram sobre reportagem de alguns anos atrás quando um professor de biologia de importante universidade pública, em entrevista ao jornal local sobre o lançamento de seu primeiro romance, confessou que escrevia para controlar a ansiedade. Escrevendo, ficava mais leve, menos tenso.



Relembrando as declarações do professor, Picard e Barthes mantêm-se atuais à medida que um autor – não necessariamente forjado nas linhas de teoria literária – considera-se escritor pelo simples fato de se marcar no mundo através de suas palavras. Palavras que, nas suas declarações, surtiram efeito terapêutico não apenas para a constituição e amadurecimento de consciência, mas para o bem-estar. Considerando o bem-estar de quem escreve – e, sem dúvida, apegando-me a Barthes e Picard – poderia concluir que quem deseja se manter vivo precisa escrever.



Todos nós – sem exceção – passamos por momentos de angústia, de agonia, de desestímulo, de apreensão, de medo ou de impotência. Construímos um castelo de sonhos, de objetivos, de desejos e, aos poucos, de maneira cortante, sonhos, objetivos e desejos perdem-se antes da construção do castelo. Assim como as demais pessoas, somos carne, ossos e sentimentos. Limitados, peixes tentando sair da rede do pescador e brigando pela vida. Corajosos, temores e receios nos invadem à hora de dormir ou revoltam nossos estômagos ao acordar. Fortes, temos nossas fragilidades expostas quando massacrados pelo terror. Destemidos, desequilibramo-nos na caminhada, caímos, mas nos levantamos radiantes a procurar novos objetivos.



Escritores nascem casualmente. Machado de Assis – pobre, gago, enfrentando preconceitos – sofreu infância complicada antes de se tornar reconhecido e fundar a Academia Brasileira de Letras. Ao fim da vida, Clarice Lispector escrevia sob encomenda para garantir comida à mesa e jogou fora a privacidade, submetendo-se a entrevista que devassava sua intimidade. Lima Barreto enfrentou crises financeiras e psicológicas e, mesmo assim, consagrou-se um dos grandes de nossa literatura. Mario de Andrade – gênio do modernismo e brilhante intelectual – morreu pobre, isolado, esquecido.



Momentos de angústia, de agonia, de desestímulo, de apreensão, de medo ou de impotência? Nada de cachaça, nada de drogas, nada de cigarros, nada de se jogar da ponte. Quando o coração apertar, os sentidos falharem e os sentimentos anunciarem desespero incontrolável, pegue uma caneta ou um lápis, estenda sobre a mesa um pedaço de papel e escreva. Alguns desabafam bebendo, outros, cometendo besteiras. Se escrever/desabafar corriqueiramente, evitará infartos, derrames, aumento de diabetes ou de pressão... Escreva, não para ser melhor do que ninguém ou demonstrar a capacidade de reunir palavras. Escreva para não adoecer!





*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 3 de agosto de 2012.

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