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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LEVEZA E COMPLEXIDADE

Escritora que busca na Literatura não apenas expressão – elaborando artigos, crônicas, novelas, ensaios e romances – mas também alternativas de coletivizar os experimentos lingüísticos e culturais por meio de oficinas de desbloqueio criativo, Valesca de Assis (www.valescadeassis.com) reaparece com “A colheita dos dias”, editora 8inverso.

O enredo concentra-se no desabafo de Letícia. Narrativa em primeira pessoa, leve e complexa confissão. Abre-se inteira, explica-se, justifica-se, montando infindável jogo de quebra-cabeças em que loucura, nostalgia e compreensão dividem o mesmo percurso, mas trilham caminhos curiosamente diferentes, estimulando misturas de leveza e complexidade. Manifesta-se a leveza pelo domínio da técnica literária exposta nas frases claras, diretas e objetivas que fomentam o movimento, valorizam a voracidade e instigam a curiosidade do leitor. Já a complexidade – percebida em recursos aparentemente epistolares, utilizados por José de Alencar em alguns de seus romances – estrutura-se pelo jogo violento entre verdade e sinceridade.

Letícia viveu na zona rural – nas estâncias gaúchas às quais nós, no resto do país, chamamos fazendas, sítios ou chácaras – onde casou, teve filhos, desempenhou atividades domésticas. Casada com Modesto, Virgínia e Francisco frutificaram da relação. Numa visita à cidade, descobre-se traída. De que maneira? Saindo do médico, caminha embaixo da chuva. Uma mulher oferece-lhe carona. O manuseio das informações – sabia seu nome, costumes e agendas de Modesto – intriga Letícia. Entrando na casa da desconhecida, a notícia de que o marido aguardava o restabelecimento da saúde para abandoná-la. Provas? Além das informações, as roupas no armário – inclusive uma peça considerada perdida – e os detalhes das viagens. Em casa, a afronta ao marido acaba numa espécie de ataque, entupimento de remédios, esquecimento.

O casamento apresentara-se alternativa única para libertar-se das rédeas paternas. As imagens de marido perfeito são quebradas quando descobre carta em que o pai, aceitando emprestar dinheiro para a manutenção da propriedade rural, exige do genro a continuidade do matrimônio. Aos olhos da protagonista, a imposição constitui manifestação de amor.

As informações esquecidas são retomadas por Diogo – afilhado dela e do marido que, graças ao convite dela, instala-se no apartamento – com a finalidade de intensificar violência psicológica. São pelos lábios de Diogo que saberá da carta em que o pai impõe cláusulas de concessão de empréstimo, das traições de Modesto, da camisola comprada para a amante. São pelas palavras de Diogo que relembrará da homossexualidade do filho seminarista, praticada em parceria com o mesmo Diogo que, sem piedade, relembra o estupro da filha cometido pelo marido em conseqüência do qual resultara gravidez. As fluentes articulações narrativas em nada antecedem a intensidade das cenas revoltantes, bélicas, arrasadoras, incômodas.

Os estudos introdutórios de Sociologia nos apontam o poder de influência do líder e o liderado sugestionável como pressupostos de propagação de idéias. Líder sem influência ou liderado sem propensões a aceitar considerações alheias arruínam qualquer modelo de mudança. Letícia demonstra escancaradamente sua fragilidade ao aceitar os fatos apresentados por Diogo cujo objetivo consiste na desestabilização da madrinha a fim de convencê-la de que, além das amantes da cidade, Modesto dormira com sua mãe. Portanto, Diogo é filho de Modesto e herdeiro da estância.

“A colheita dos dias” provoca: as histórias relatadas por Diogo aconteceram ou são artifícios de violência, criadas com a intenção de desestabilizar a madrinha que, desde as primeiras linhas, comunica-se com a filha morta? Antes da entrega da fazenda, Letícia ouve os ruídos dos lobos que “me perseguem desde menina”.

Colheita – termo indispensável ao campo – significa retirar o alimento da terra. Se bons tempos, boa colheita. Se maus tempos, más colheitas. Assim como na agricultura, os dias nos oferecem colheitas. A inexorabilidade do imprevisível, desfeita no momento adequado, faz com que, alegres ou infelizes, colhamos, a cada dia, resultados bons ou ruins.


A colheita do dias
Valesca de Assis – 8Inverso – 113 p. – R$ 37,00

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 17 de agosto de 2012.

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