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segunda-feira, 5 de março de 2012

BARRA DE CHOCOLATE


A oferta irrecusável surgiu na fila do banco: barra de chocolate de três quilos e meio por dez reais. Por que preço tão barato? Jogou conversa fora por dez minutos e, numa atitude mais de pena do que desejo de meter os dentes no chocolate hidrogenado, puxou a carteira e deu os dez reais ao velhinho que, por ações e palavras, já tomara alguns goles de cachaça e, ao que tudo indicava, voltaria ao bar.



O tempo chuvoso mostrava-se favorável ao manuseio tranqüilo do pacote até chegar ao trabalho onde, depois de conversar com a atendente, pediu que guardasse a barra de três quilos e meio para devorarem ao término do expediente. Enquanto a atendente organizava os papéis de impostos, notas fiscais e guias de recolhimentos diversos, o jovem providenciava a manutenção de computadores.



Ao almoço, engoliu o arroz, o feijão e o bife. Deitou-se vinte minutos para descansar: nos sonhos, andava de carro em caminhos de chocolate, parava em semáforos de chocolate e, esperando a namorada resolver problema no banco, gozava da sombra da árvore de chocolate a que ia de minutos em minutos para comer uma folha de chocolate cremoso. Um caminhão de móveis perdia um sofá de chocolate preso ao qual duas almofadas de chocolate branco, devidamente elaboradas em forma de coração para o dia dos namorados, destacavam a cobertura polvilhada de caramelos.



Ao trabalho por volta das duas horas. Entrou no Box de assistência técnica, consertou dois computadores, entregou outros dois, telefonou para alguns fornecedores de peças importadas cobrando a entrega de componentes e a previsão de algumas telas que deveriam ter chegado três semanas atrás. Conversou longamente com uma sexagenária, explicando-lhe passo a passo os mecanismos de funcionamento do computador portátil, os ícones a serem clicados para abrir a internet. Assinou os recibos do caminhão de entregas de produtos de limpeza – comprados em grande quantidade para obter melhor preço e estocados embaixo dos mostruários, agradeceu a oferta de publicidade numa rádio local, recusou a oferecimento de divulgação no jornal recentemente lançado, consertou a máquina de cartão de crédito do comerciante vizinho, dono da loja de animais, prestou consulta à farmácia de produtos naturais, limpou os vidros embaçados por dejetos de passarinhos e choques de besouros que, à noite, encontravam o obstáculo transparente antes de chegarem à luz, verificou as mensagens na sua caixa postal eletrônica, fiscalizou os extratos de duas cadernetas de poupança e telefonou ao banco para conhecer as possibilidades de empréstimos para a aquisição de chácara...



Olhou o relógio: três e vinte e sete! Duas horas e meia para finalmente pedir a barra de chocolate de três quilos e meio. Mais alguns atendimentos, mais alguns consertos, mais alguns telefonemas... Quatro e dezessete. Abasteceu a motocicleta utilizada nas entregas, fez palavras cruzadas, comprou um cartão de memória numa livraria eletrônica: quatro e quarenta e dois. Um cliente de agência de automóveis pôs computador empoeirado em cima do balcão: limpeza urgente. Utilizar o equipamento ainda naquela tarde. Abriu o CPU, retirou as placas e, com pincel especial, diante dos olhos do cliente apreensivo, limpou a máquina. À conclusão do serviço, hora de sair.



Dividiu a barra com a atendente, entregou uns pedaços às crianças que disputavam futebol nos modelos mais avançados de jogos eletrônicos. Caminho de casa, esperando a cor verde do semáforo dos pedestres despontar, olhos insistentes de uma mulher e da filha de mais ou menos dez anos.



- Um pedaço? Perguntou, oferecendo a barra.



- Sabe quanto custa um chocolate desses?



- Saber? Eu não sei, mas um velho me vendeu por dez reais. Uma bagatela. O melhor negócio da semana! Distribuí pedaços entre uma amiga e uns pirralhos.



- Comprou um chocolate roubado de minha filha que pagou trinta e dois reais por ele. Polícia! Polícia! A mulher gritava, segurando-o pelo braço enquanto a filha, na ânsia de ajudar a mãe, grudou-se às pernas e o levou ao chão.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 2 de março de 2012.

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