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domingo, 18 de março de 2012

AMORES VÊM, AMORES VÃO


Já tinha ouvido, em outras ocasiões, a frase que Camilo Castelo Branco eternizou num trecho de “Amor de perdição”: “Vão-se os anéis, ficam-se os dedos”. Quase um aforismo, a sentença nos questiona sobre a essencialidade: o que é indispensável ao cotidiano? Alguns responderão que o pai, a mãe, os irmãos, a namorada, os filhos, o carro comprado em trinta e seis, quarenta e oito ou sessenta meses, a casa financiada, a chácara adquirida com a aposentadoria ou o dinheiro das viagens regulares aos países da América Latina e aos estados brasileiros...



São tantas as prioridades que nos perdemos entre dezenas de essencialidades, mas um passeio pelo dicionário nos mostra que essencial é o imprescindível. O automóvel, a casa ou a chácara são necessários ao cotidiano, entretanto não são indispensáveis. A perda da casa nos leva ao aluguel, à residência de parentes ou ao abrigo oferecido pela prefeitura. A falta de carro nos faz conhecer melhor a cidade pelos passeios de moto, de ônibus, de bicicleta ou a pé melhorando, em algumas situações, a disposição e o condicionamento físicos e as taxas de diabetes, colesterol, pressão alta. A chácara – geralmente usada nos fins de semana quando reunimos parte da família ou os amigos – indispensável?



Algumas pessoas empenharam-se em trabalhar a vida inteira para, na aposentadoria, filhos formados, netos a caminho e preocupações financeiras diminuídas, dedicarem-se às viagens. Primeira visita ao mar, ao Pão de Açúcar, ao Cristo Redentor, aos museus paulistanos, às belezas do litoral catarinense ou às vinícolas e cidades agrícolas do Rio Grande do Sul, aos blocos de carnaval de João Pessoa ou às peculiaridades do Bumba-meu-boi no Maranhão... As viagens são indispensáveis?



Ainda existem os pais, as mães e os filhos. Você – que passa os olhos por essas linhas e lembra-se imediatamente da mãe, do pai ou do filho – me questionará a legitimidade de tocar em assunto tão delicado uma vez que nunca perdi nem pai, nem mãe, nem filhos. Pai, mãe e filhos não seriam essenciais, indispensáveis, insubstituíveis?



Concordo se responderem que pai, mãe e filhos são insubstituíveis, mas discordo se afirmarem que são indispensáveis. Indispensáveis são os ares, as águas, os alimentos, um lugar para se deitar, alguém para chorar ou desabafar, uma rotina, uma vida. Os amores, as paixões, os ódios, os desgostos, os objetivos, as esperanças, os sonhos – que podem ou não ser alcançados, longos ou curtos, insignificantes ou revolucionários – as noites mal dormidas, os dias completos, os esbarrões, os atrasos, os investimentos frustrados, as conversas truncadas, os momentos difíceis e a garganta seca também são indispensáveis.



Com o tempo e a maturidade, aprendemos que os mares não têm o menor valor, mas suas ondas – trazendo e levando paixões, encontrando e perdendo amores, construindo e arrebentando pretensões – desenvolvem papel fundamental ao nos mostrar que casas inglesas, japonesas ou holandesas, prédios na Índia, na Rússia ou na China, palácios em Espanha, Portugal ou nos países nórdicos são tão fortes quanto o algodão doce tocando na língua: um abalo de terra, a agitação eufórica do oceano ou o mau humor dos ventos desmancham abruptamente as convicções e as histórias humanas. Assim como abruptamente desmancha-se o algodão doce...



Um parente, um bem ou um sonho podem – e devem – ser insubstituíveis, mas nenhum parente, nenhum bem, nenhum sonho são indispensáveis. Os parentes, os bens e os sonhos são produtos carregados de símbolos que, se tiverem marcado nossas vidas, ficarão em nossas memórias, ora recebendo votos de saudades, ora de gratidão, ora de pedidos, ora de diálogo.



Os parentes – pai, mãe ou filhos – são como os mares: não têm nenhuma importância em nossas vidas. As ondas são importantes: trazem e levam sentimentos, idéias, desejos. Quando lembramos de alguém que já partiu ou de sonho desfeito, devemos pensar nas ondas: assim como os amores, elas vêm e vão. As relações que construímos – e não os corpos ou os bens – são eternas.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de março de 2012.

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