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sábado, 17 de setembro de 2011

CORONEL GUAMPA


Vinte e cinco anos de casado, três filhas, casa grande, moto e carro ainda pagando consórcio e sem seguro, Coronel Guampa abandonou a esposa e, com ela, dívidas de estabelecimentos comerciais falidos cuja titularidade na Junta Comercial e na Receita Federal pertencia à consorte. Desde a juventude Coronel Guampa desejava tornar-se empresário da comunicação de modo que, em dezenas de tentativas fracassadas, abriu bancas de jornais sobreviventes a, no máximo, um ano de má administração. As dívidas – das bancas e nos bancos – caíam nas costas da esposa.

Jogou a vida ao alto para se enrabichar com garota de mais ou menos vinte anos. Conhecida aos quatro cantos da cidade e aos limites da região. Gozava fama de dedicada aos homens de todas as espécies, religiões, partidos políticos, grupos sociais, econômicos, intelectuais e etários. Coronel Guampa – que, na verdade, não era oficial e recebeu a alusão após alugar quitinete nos arredores do Parque do Povo para se instalar com o novo amor – figurava entre os super-gordos, mal agüentava correr e caminhava arrastando os pés, falta freqüente de ar. Por onde passavam, as três filhas ouviam os cochichos: - Lá vão os pesos pesados da cidade. Pança, Pançuda e Pancilda.

Critérios de ascensão social bem articulados e indiscutivelmente definidos, a parceira fez com que Coronel Guampa se acreditasse garanhão e, depois de iludi-lo, emprenhou. O arremedo de oficial sentiu a boca amargar, porém engoliu em seco e, com cara de felicidade, festejou a notícia no restaurante chinês. A parceira pôs as manguinhas de fora: exigiu carro para passear e se distrair, demissão do trabalho, condicionador de ar no quarto, roupas novas, sapatos caros, cartão de crédito e TV por assinatura. Não carregava o filho dele?

Receoso de compartilhar as boas novas com as filhas, Coronel Guampa marcou reunião com Pança, Pançuda e Pancilda no Pastel São Jorge, nas imediações da Praça da árvore, a fim de persuadi-las a abrirem mão do carro – que ele prometera devolver depois de seis meses – e, ao mesmo tempo, convencerem a mãe a abdicar do processo de pensão alimentícia.

- Eu não queria falar agora, mas ela está grávida. Vou precisar do carro e também que convençam a mamãe a esperar mais um pouco. O dinheiro que dou todos os meses é muito maior do que deseja pedir na Justiça.

Pança revoltou-se. Alegava que o pai deixara a mãe na miséria, cheia de dívidas, bancos telefonando o dia inteiro e cartórios exigindo o pagamento de duplicatas, cheques e promissórias protestadas. Dali a pouco, garantia a filha, o oficial de justiça levaria as poucas coisas da casa. Pancilda disse que a cidade já comentava que sua atual parceira gostava de passear com amigos estranhos justamente nos dias em que ele trabalhava, mas, irritado com a insinuação de infidelidade – ele, o grande oficial, o grande garanhão, o grande entendido – pagou a conta e saiu pisando firme.

Os meses passaram, as dívidas da ex-esposa aumentavam consideravelmente, as filhas avisavam dos passeios estranhos da parceira, mas o pai negava-se a acreditar em fofocas. Beirava a meia-noite quando Coronel Guampa recebeu a chamada: mulher à maternidade.

Entrou desesperado no hospital. As filhas – apesar dos desentendimentos seriam sempre filhas – esperavam-no na pequena lanchonete. Dali a alguns instantes, o médico saiu: um menino. Sadio, alto, pesado. As filhas de Guampa se entreolharam. As desconfianças encerraram-se no berçário. Pelo vidro, o médico apontou um garotão de quase setenta centímetros, seis quilos, extremamente cabeludo e bela tonalidade de Thaís Araújo.

Coronel Guampa – baixote de 1,52 m, enfrentava problemas de calvície desde a adolescência e tão brancamente desbotado quanto os queijos caseiros – pegou um papel e explicou-se cientificamente:

- Vocês conhecem a miscigenação de modo que não descarto a possibilidade de antepassados transmitirem genes que só agora se manifestaram...

A mulher da lanchonete, vizinha do Coronel Guampa, desabafou em voz alta:

- Pior cego é o que não deseja enxergar.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de setembro de 2011.

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