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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

PINTURA


A idéia de novos ares partiu de minha irmã que, numa típica visita de domingo, sugeriu cores mais vibrantes à fachada. Talvez, dessa maneira, o ambiente se alegrasse e, alegrando-se, contagiasse meu espírito melancólico, previsível e acomodado. Resisti à sugestão, mas decidi seguir-lhe o conselho depois de algumas semanas.

Gastei a tarde numa caminhada entre as ruas arborizadas de bairro elegante em busca de tonalidade que inspirasse paz e, ao mesmo tempo, entusiasmasse o dia. Depois de algumas horas, casa de dois andares despertou meu interesse e, sem saber corretamente que coloração era aquela, toquei a campainha.

Mulher de dentes brilhantes apareceu à porta. Expliquei minha curiosidade e, dali a instantes, voltou no encalço do patrão, óculos na ponta do nariz, jornal dobrado embaixo do braço esquerdo. Repeti-lhe minha observação acrescentando o bom gosto, a suavidade e o charme. Destravou o portão, perguntou-me se gostava de café com açúcar, demos a volta no prédio e, em cada parte, detalhava as qualidades. Embora não fosse arquiteto, ele mesmo a desenhara. Gostava do que via? Certamente, asseverei-lhe.

Quando nos sentamos à mesa do jardim, uma mulher de colar discreto apertou minha mão. Acho que roxo azulado, respondeu a esposa, pegando um dos pães disponíveis na bandeja. – Mas, retrucou o marido, pensei que seu irmão tivesse dito roxo suavemente esverdeado. Entre ressalva e divergência, a filha chegou do trabalho e apostou – nem no roxo azulado nem no roxo suavemente esverdeado – no verde desbotado acrescido de pingos cor de rosa.

 Vislumbrando o grande debate e a falta de resposta prática ao meu questionamento, mencionei levantar-me, porém o proprietário impediu-me alegando que, vindo de tão longe e considerando minha opinião simpática a respeito da elegância, o nome correto da cor da tinta seria o mínimo que poderia fazer. Gritou duas vezes para dentro e, poucos minutos, o filho saía abraçado à namorada. Segundo o rapaz, professor de Educação Artística, tratava-se de rosa misturado ao verde claro e ao azul escuro. A namorada, arquiteta de profissão e balconista da loja de roupas da família por vocação, discordou prontamente imaginando uma nuance peculiar de cinza que, nos efeitos solares, reproduzia uma visão panorâmica impressionista.

Fiz menção de levantar-me novamente... A esposa surgiu com o telefone na mão. Perguntava ao irmão o nome técnico da cor. Ouvi claramente a cunhada discordando da informação. Constrangia-me o fato de mobilizar a família, que nem conhecia, em torno de um assunto tão estúpido. Imaginava uma tática para escapar quando um rapaz bateu palmas. A filha do proprietário mandara mensagem de telefone ao amigo que já dava o parecer de creme com Bordeaux clássico. O filho do casal – professor de Educação Artística – e o amigo da filha do casal – artista plástico premiado, conforme soube posteriormente nas notas de eventos culturais – discutiram tranquilamente o assunto por uns vinte minutos até que, extenuados e procurando atividade menos árdua, combinaram de abrir uma cerveja.

Envergonhadíssimo de meu conturbado questionamento na rotina da família preparei-me mais uma vez para abandonar o debate quando, ao sair discretamente pelo portão da garagem, aberto para a empregada retirar sacolas de entulho, um homem de camisa xadrez surpreendeu-me aos gritos: - Quem disse que eu estava errado? Sacudia um prospecto de lojas de tintas. Antes que pudesse me mostrar qualquer informação, a esposa estacionou e o chamou de traidor. Como tivera coragem de pegar o primeiro papel que lhe caía nas mãos para enganar pessoas de boa-fé e, consequentemente, passá-la para trás? Entre feições desgostosas o carteiro, sabendo do motivo da briga desde que dobrara a esquina, quis igualmente opinar, porém um grito do escritório: a filha do casal encontrara a cor na internet.

Enquanto todos entraram atropelando-se – incluindo o carteiro – corri para minha casa, tranquei portas e janelas, acomodei-me na poltrona e comprometi-me a nunca mais ouvir minha irmã.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de setembro de 2011.

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