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sábado, 13 de agosto de 2011

CAIXEIRO-VIAJANTE

Acho que só ouvi falar de caixeiro-viajante em algum livro que li, já adolescente, e em que buscava entretenimento enquanto aguardava na fila do banco ou na sala de espera do consultório odontológico.

Dona Isa tem duas filhas e alguns netos, mora no único prédio vertical de apartamentos de Paraguaçu Paulista, viaja Brasil e exterior, toma conta da casa sozinha, apresenta-se sempre sorridente, elegante e bem amada, eventualmente convida minha namorada para tomar chá ao fim da tarde e apreciar a coloração especial que o pôr-do-sol aplica à cidade. Numa dessas conversas de chá e pôr-do-sol, confidenciou a Adriana que gostara especialmente da crônica “Aprendizagens” de meu livro lançado no ano passado. Perguntei por que simpatizara com a crônica, uma espécie de homenagem ao meu pai. Adriana então me disse que o pai da amiga era caixeiro-viajante, passava boa parte do tempo fora e voltava para casa uma vez por mês.

Quando o pai voltava, ela, as irmãs e a mãe vestiam as melhores roupas, ensaiavam os mais destacados trejeitos de felicidade e passeavam pelas sorveterias e restaurantes.

Quem ama Literatura sempre procura não apenas lê-la, mas principalmente refletir sobre seus meandros, mecanismos, feitiços de encantamento. Lembro que um dos conceitos afirmava que a Literatura tinha a finalidade de humanizar o homem: o poder da Literatura seria capaz de fazer com que o leitor transformasse seu comportamento, sendo menos irracional e frio e mais amoroso e compreensivo. Pensei que essa era uma questão meramente teórica até que li uma orelha de um livro de Rubem Alves em que ele explicava o que era comunhão.

Usando da comparação ao sagrado ato de sangue e corpo de Cristo que correm nas veias e no estômago de quem bebe vinho e come pão, Rubem Alves demonstra que um livro também pode se transmutar em um ato de comunhão na medida em que o escritor entra em sintonia com o leitor. Quando as palavras do escritor se alojam na memória ou nos sentimentos do leitor, despertando alteração ou fascinação, naquele momento mágico, escritor e leitor são um mesmo corpo e um mesmo espírito.

Outro texto do grande Rubem Alves veio à tona. “Os Flamboyants” relata o encontro do cronista com um amigo em um Parque de Campinas. Saíra cedo de casa para uma caminhada e flagrara o companheiro passeando com uma câmera nas mãos. Indagado por que caminhava com a máquina fotográfica, respondeu que tinha lido seu texto publicado semanas atrás em um jornal local em que convidava o leitor a aproveitar melhor os minutos. O mote da provocação: “Se você soubesse que morreria daqui a um ano, mudaria de vida?”

Boa parte dos que estão lendo este texto hoje – e eu me incluo entre esses leitores – abandonaria as atividades supérfluas para se dedicar a ações indiscutivelmente importantes e prazerosas. O amigo de Rubem Alves refletira sobre isso. Se tivesse apenas mais um ano de vida, se empenharia em fazer a esposa feliz. Por que caminhava com a câmera fotográfica? Porque faria trezentas fotografias de flamboyants, escolheria as melhores, comporia um álbum e o daria de presente à esposa. A esposa adorava flamboyants e ele decidiu que se tivesse apenas um ano de vida, dedicaria esse ano restante – ou todo o resto de sua vida – a fazê-la feliz. As coisas que devem ser feitas, nos ensina o filósofo, devem ser feitas hoje. As coisas que devem ser ditas, devem ser ditas agora.

A crônica – encontrada facilmente na internet – termina de maneira fulminante: “As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando...”

Quando dona Isa – a quem nunca vi e com quem jamais falei nem mesmo ao telefone – absorve o sentimento de gratidão expresso em minha crônica e relembra do pai, de sua história, de sua vida, de sua felicidade, naquele exato momento mágico, naquele instante de mudanças e confusões de sentimentos e de recordações, dona Isa e eu somos um mesmo corpo, um mesmo espírito, um mesmo sentimento de gratidão eterna aos nossos pais. Quando nos irmanamos em corpo, espírito e sentimento, configuramos o que Rubem Alves brilhantemente dá o nome de Comunhão.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 12 de agosto de 2011.

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