sexta-feira, 5 de agosto de 2011

FAZEMOS SUA DECLARAÇÃO!

O farmacêutico entrou no banco na tarde de sábado para conferir os débitos e créditos dos últimos dois dias quando, passando a vista sobre o balcão, encontrou um panfletinho colorido: Fazemos sua declaração! Puxou o papel. Um grupo de profissionais montara escritório para elaborar imposto de renda a preços acessíveis. Bastava procurá-lo às sextas-feiras, pois atendia apenas às sextas-feiras, em horário comercial. Atendimento obedecendo à ordem de chegada.

Na sexta-feira de manhã apareceu no endereço munido de alguns documentos para conferir o orçamento e se espantou quando informado que o imposto de renda ficaria pronto em duas semanas cobrando-se, para tal serviço, apenas vinte por cento do valor do outro escritório.

A desconfiança transformou-se em admiração: deduziria gastos com combustíveis, remédios, clubes de serviços, pizzarias, churrascarias e viagens. O argumento: o contador anterior desconhecia profundamente as mudanças tributárias dos últimos três anos.

O farmacêutico voltou carregando três caixas pesadas. Entregou os documentos, comprovantes e declarações, conferiu algumas listas, rubricou algumas autorizações e assinou o cheque de exatos 20%.

- Próximos trinta dias em Santiago.

- Santiago?

- Santiago, capital do Chile, aquela que enfrentou terremoto tempos atrás e quase acabou com a cidade. Lembra? Passou na televisão. Tenho um filho que mora lá. Aprovado num concurso da Organização dos Estados Americanos. Acha que precisarei fazer mais alguma coisa antes de viajar?

- O senhor pode viajar tranqüilo. Nossos serviços são de primeira qualidade. Somos contadores. Contadores profissionais! Contadores de primeira linha! Cursamos uma das melhores faculdades deste Estado. Talvez o senhor nunca tenha ouvido falar dela, porque não é muito famosa, mas que é boa? Claro que é! Sem dúvida! Coloco minhas duas mãos, meus dois braços e meus dois pés no fogo! Mas, em todo caso...

- Em todo caso? Empertigou-se o farmacêutico.

- Em todo caso, interessante uma procuração nos dando poderes para resolver qualquer problema relacionado exclusivamente ao Imposto de Renda. Claro que o senhor nos dá a procuração se confiar em nosso trabalho, mas se quiser pode voltar de Santiago, recolher uma taxa ou protocolar um papel que nós mesmos poderíamos ter feito sem importuná-lo.

- Uma procuração apenas para resolver os problemas de Imposto de Renda?

- Exato, assegurou o contador. Nem mais nem menos. O que me diz?

O farmacêutico ponderou sobre uma viagem de longas horas para recolher taxas, autenticar a assinatura ou protocolar documentos na Receita Federal. Decidiu-se pela procuração, elaborada e assinada ali mesmo. Leu reiteradas vezes, conferiu palavra por palavra, frase por frase, significado por significado, observou o alcance do poder que transferia aos novos prestadores de serviços, leu mais uma vez, solucionou as dúvidas, rubricou as cinco vias. Entrou no espaço aéreo chileno de cabeça fria, ótima economia gerada pela troca de escritório. Numa só tacada, resolvera os problemas do Imposto de Renda e, com o dinheiro excedente, comprara duas passagens de ida e uma câmera fotográfica que registraria, se preciso fosse e conforme o manual do aparelho, até a voz e algumas imagens em vídeo.

Assim que desembarcou, pediu ao filho uma agência do banco, mas o filho, querendo mostrar que estava bem de vida no país que o acolhera, recusou-se inúmeras vezes até que, no oitavo dia de viagem, caminhando ao redor de um famoso teatro, encontrou um caixa internacional vinte e quatro horas em que introduziu o primeiro cartão e recebeu a informação de que tanto a conta corrente quanto a poupança apresentavam saldo zero.

Pegou o segundo cartão, repetiu a operação: saldo zero na conta corrente e na poupança. O terceiro, o quarto e o quinto cartões igualmente zerados. Desesperou-se um pouco, voltou ao apartamento do filho, telefonema internacional em horário comercial. O gerente o atendeu: retivera a procuração que permitia o trabalho de seus novos contadores.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de agosto de 2011.

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