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sábado, 2 de julho de 2011

BINÓCULOS



O primo de Cruzália entrou em um dos quatro apartamentos do décimo primeiro andar. O elevador, com que se extasiou durante o deslocamento do térreo, dava problemas nos momentos em que mais se precisava dele.

Um vizinho do sétimo andar saíra às duas horas da tarde para pagar uma conta antes do encerramento das atividades bancárias. O trajeto que, em média, levava trinta e cinco minutos, estendeu-se por mais de cinco horas quando o elevador, transportando apenas o vizinho do sétimo andar, resolveu parar entre o terceiro e o quarto. Até chamarem a manutenção, os técnicos largarem os outros serviços e atravessarem a cidade e, finalmente, identificarem e resolverem os entraves...

Em outra ocasião – e, acredita-se, tenha sido a mais notória – uma grávida ficou presa no momento em que se dirigia para o hospital, mas, nesse caso, por uma ajuda divina, o elevador se indispôs por apenas trinta e sete minutos.

O primo de Cruzália instalou-se no sofá de três lugares, adorou a porta de vidro através da qual se defrontavam três edifícios.

- Você já viu muita coisa daqui?

O primo de Presidente Prudente arqueou as sobrancelhas.

- Se você já viu alguma coisa diferente daqui de cima, se viu alguma coisa picante nas outras janelas, explicou o primo de Cruzália, dando uma piscadinha maliciosa e esboçando um sorriso ensaiado.

Olhou em volta: nada de binóculos, lunetas, telescópios? O primo de Prudente justificou-se: oito anos morando no mesmo apartamento e jamais, repetia com grande classe e delicadeza, jamais presenciara nenhum movimento suspeito nem no seu nem nos prédios vizinhos.

O primo de Cruzália aproximou-se da porta de vidro:

- Não tem movimento suspeito? O que aqueles dois vão fazer ali?

O dono do apartamento chegou rapidamente à porta de vidro – mais por uma questão de cortesia – e espantou-se ao constatar um casal – homem fora de forma e mulher escultural, provavelmente na casa dos trinta anos – conversando eroticamente. Ambos em pé, se abraçavam, se desvencilhavam, sorriam. A distância impedia os pormenores, mas o dono do apartamento não perdeu tempo, abriu a porta de vidro e se colocaria na varanda para obter visão mais privilegiada. O primo de Cruzália, que o dono do apartamento julgava caipira, segurou-o pelo braço:

- Está ficando maluco? Se perceberem que estamos olhando, vão parar o espetáculo!

O primo de Prudente concordou, puxou a cortina e se escondeu, deixando um pequeno orifício por meio do qual continuava testemunhando o agarramento entre o casal. O homem e a mulher voltaram a se abraçar, se beijaram, dançaram um pouco, pegaram taças cheias de líquido transparente e borbulhante. Ela desprendeu o cabelo. Numa mexida para a esquerda e para a direita, se desenrolou sobre os ombros, estancou nos quadris. Colocando o copo na mesinha, fez o parceiro sentar-se numa cadeira. Deu alguns passos de dança, jogou um sapato em cima dele e o outro para o lado da janela.

Livrou-se de uma meia, de outra meia, arremessou o cinto na direção do sapato, promoveu mais alguns passos sincronizados, sorriu, remexeu o cabelo, retirou as calças e, embaixo das calças, para surpresa do parceiro e desespero dos primos espiões, uma espécie de calçãozinho preto.

A mulher puxou o homem pelo colarinho. Cinco beijinhos, o empurrou. Os primos concentraram seus esforços unicamente na mulher – sensual, interessante, perfeita, envolvente. Ela livrou-se do soutien, escondeu-se atrás do braço esquerdo. A mão direita sacudia luxuriosamente a peça íntima de um lado a outro.

- Vai ser agora! Obrigado! Eu não merecia tanto! Obrigado! O primo de Cruzália agradecia empolgadamente.

- Por que perdi tanto tempo? Lastimava-se o dono do apartamento, o primo de Prudente.

A mulher ainda ensaiou alguns passos desordenados, remexeu o cabelo, levou a ponta de uma unha aos lábios. Finalmente atirou a peça na mesa, voou para cima do parceiro.

- Como assim? Onde? Cadê?

Só então os dois expectadores perceberam que o homem tinha sido jogado na cama, encoberta cuidadosamente por uma cortina de nuances marrons.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 1 de julho de 2011.

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