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sábado, 4 de setembro de 2010

EM POSIÇÃO!

Pelos menos dois gêneros – ou como queiram chamá-los – merecem atenção redobrada quando da criação literária: Literatura erótica e Literatura infantil ou infanto-juvenil. A Literatura erótica precisa se munir de cautelas para não descambar em relatos pornográficos de idêntica forma que as mesmas cautelas são necessárias aos que pretendem passear no mundo das crianças e dos adolescentes. O que queremos – todos nós leitores, independentemente da idade – são narrativas bem estruturadas, enredos interessantes e personagens bem construídos.



As lições de moral podem constar sutilmente das mensagens das obras sem, no entanto, transformá-las em manuais de bons costumes. Quando consegue compreender esse elemento primordial da Literatura infantil ou adolescente, o escritor atinge a fantasia e tem grandes possibilidades de conquistar o leitor, como acontece a David Grossman em “Duelo”.



Um homem de vinte e oito anos conclui que é hora de transpor ao papel as aventuras pelas quais passou aos doze anos de idade quando, participando de um projeto da escola que previa a visita semanal a um hóspede de asilo, firmou amizade com um idoso. O narrador, que relata os fatos em primeira pessoa, conferindo tom confessional que aumenta a intensidade da trama e reforça os elementos de verossimilhança, é um menino solitário que descobre nessa amizade uma maneira de se ambientar e de se socializar. A mãe reprova-lhe o comportamento, desejando que mantivesse relações com adolescentes de sua idade e largasse os livros para brincar, se divertir, passear.



Talvez o comportamento silencioso, observador e solitário amadureça a compreensão do conjunto dos fatos que o envolvem de tal maneira que Heirinch Rosenthal, o amigo idoso, hóspede do asilo, de mais ou menos setenta anos e baixinho, compartilha as angústias causadas por uma carta recebida ainda naquele dia: Rudy Schwartz – o valentão da faculdade de medicina, calçava quarenta e sete, levara o campeonato de tiro ao alvo, levantava a enciclopédia de medicina de doze volumes com apenas uma mão e quebrara os dentes de cinco alunos alemães – apareceria às sete horas da noite para ajustar as contas.



O Sr. Rosenthal enche-se de coragem, mas o narrador, escondido embaixo da cama do idoso, percebe as finas pernas tremerem durante todo o tempo e já espera o pior. Seu coração dispara de medo quando tem conhecimento do conteúdo da carta. Entre outras ameaças, o valentão da faculdade de medicina insulta o Sr. Rosenthal de ladrão miserável e sem-vergonha.



O tom confessional, já mencionado, o ritmo narrativo, os fatos que se sucedem interrompidos inteligentemente por espasmos mnemônicos ou psicológicos, as angústias estampadas nos espíritos dos ameaçados e a impressão de fim inevitável projetada na provável briga pela “boca dela” fortalecem a maestria de David Grossman por, entre outros fatores, transmitir reflexões maduras e acertadas por meio do narrador de doze anos que discorre sobre o isolamento provocado pelas características essenciais de distanciamento entre grupos sociais:



“Sei que existem meninos que não gostam de gente velha; que dizem que os velhos às vezes têm cheiro ruim e cara cheia de rugas ou que irritam a gente porque são muito lerdos para fazer as coisas. Só vou dizer uma coisa sobre isso: existem muitos velhos largados e desleixados, mas é só porque foram largados pelas outras pessoas. Eles não têm ninguém que os ame ou cuide deles. E isso é muito simples, é como uma regra básica de gramática: se você larga uma pessoa, ela fica largada. E pronto. Não fui eu que inventei essas coisas. Ouvi isso várias vezes dos velhos no asilo, sentado conversando com eles enquanto esperava o senhor Rosenthal. Muitos deles tinham famílias e amigos e colegas de trabalho, mas no instante em que entraram no asilo, parece que todo mundo esqueceu deles. Havia uns velhos que não recebiam mais visita nem dos filhos”. (p. 11-12)



O fragmento acima demonstra a maturidade e a beleza com que David Grossman universaliza os conflitos entre crianças, adolescentes, adultos e velhos demonstrando, de maneira sensata e sem afetação, as reflexões que precisamos – adultos ou crianças – desenvolver diariamente. Sem dúvida, o melhor livro infanto-juvenil dos últimos anos.





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Duelo
David Grossman – Companhia das Letras – 136 p. – R$ 32,00


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente - SP) de 3 de setembro de 2010.

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