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sábado, 11 de setembro de 2010

QUERO SER ROBERTO CARLOS

O menino terminou de almoçar arroz com alface – o décimo oitavo no mês – colocou a louça na pia, abriu as cortinas para economizar energia. Entrou no quarto para pegar o caderno. Talvez tivesse dúvidas sobre uma pergunta da professora. Quando voltou, a tia conversando com a mãe na cozinha.



- Oi, meu querido. Tudo bem com você? Você não sabe da maior. A tia comprou um cachorrinho. Tem três meses. Um amor. Ainda não tinha tido tempo de vir aqui para contar a novidade.



Uma foto na carteira: o animal, de pelos grossos, olhava para câmera como se soubesse que sua imagem fixa voaria pelos quatro cantos na bolsa da dona. A mãe fingiu procurar café para oferecer, porém voltou a se sentar puxando conversa sobre uma prima ou uma tia que viria a Presidente Prudente em dois meses.



- Mas é lindo, interrompeu a tia. Passei na loja de animais. Algo me chamava. Primeiro, comprei um peixe. O peixinho viveu dois anos. Depois, uma tartaruga. Você lembra, mana? Fiquei com ela quase uma década. Em seguida, ganhei um canário de presente. Numa noite que deu aqueles ventos que arrancou o telhado, o bichinho se foi. Hoje, quando passei em frente da loja de animais, eu vi o Roberto Carlos.



- Roberto Carlos? Indagou a irmã, entre surpresa e irônica.



- Nós o batizamos de Roberto Carlos, porque é um sucesso em todas as idades! Achei barato. A vendedora até me deu um desconto: Roberto Carlos custava oitocentos reais, mas me fez por setecentos e noventa.



A irmã pasmou diante da informação. Os olhos do menino vidrados na tia, popular Professora Filezinha, desconheciam os valores monetários.



- Tinha pegado o Roberto quando a vendedora me perguntou do enxoval. Mostrou os objetos que têm lá: caminha, redinha, almofadinha, colchãozinho, tapetinho, comedouro e bebedouro. Achei muito caro, mas como disse que me daria um jogo de garfo, faca, colher e xícara de chá para ele, passei o cartão em três vezes de cento e setenta reais. Já tinha colocado os acessórios no carro quando ela me perguntou se passearia com ele sem coleira. A cidade tem muito carro. Então me mostrou um armário com mais de mil coleiras. Como tinha gastado demais, comprei uma das mais baratas: oitenta reais.



A irmã disfarçava a admiração. Tentava conciliar a indignação e a revolta do dinheiro aplicado em Roberto Carlos e, por tabela, pensava em quebrar um por um os discos do cantor, guardados numa caixa velha dentro do guarda-roupa.



- Estava saindo quando, mais uma vez, retomou empolgada a tia, a vendedora perguntou quantas vezes jejuava ao mês. Achei a pergunta engraçada. Como ia embora sem levar o mais importante: ração? Quis a mais barata, porém depois que a vendedora me falou das necessidades de uma dieta rica em proteínas, fiz um esforço e comprei a melhor. Sabores de peixe, caviar, carne de boi, porquinho assado ou avestruz ao molho. Basta escolher e servir o prato do dia. Você acredita que algumas vezes ele fica com fastio e não chega perto da ração. Aí, fazer o quê? O jeito é assar meio quilo de filé ou de alcatra. Mesmo assim, ele deixa de lado...



A saliva do menino ameaçava discretamente estourar sobre o caderno, a mesa e a roupa, mas antes que a mãe notasse, a tia retomou o relato após um gole de água.



- Quando chego de noite é uma alegria só. Seu tio, apontou para o menino circunspecto, queria chamá-lo de Carlos Gardel, de Frank Sinatra, de Julio Iglesias e de Tony qualquer coisa. Só que preferi um nome brasileiro. Um nome de rei. E, como todo rei, além da caminha, da redinha e do tapete, mandei construir um banheiro privativo para ele. A mãe arregalou os olhos, perguntando o que ela queria dizer com construir um banheiro para cachorro. – Oras, disse a tia, eu mandei construir mais um banheiro para ele ter privacidade. Com vaso sanitário, bidê, banheira, chuveiro quente, hidromassagem e sauna.



A tia olhou o relógio, pegou a bolsa em cima da mesa, levantou-se, inclinou-se sobre a irmã, dois beijos:



- Tenho que ir. Vou levar o Roberto ao veterinário. Tudo é tão fácil nos dias de hoje, não é? Fiz um plano de saúde por duzentos e oitenta reais mensais. Já inclui banho e tosa semanais, passeio de carro pelo Parque do Povo, sessão de relaxamento, bronzeamento e condicionamento, raio X, exame de coração e, se necessário, operações de baixa periculosidade.



Quando a professora perguntou, o menino: - Quero ser Roberto Carlos!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 10 de setembro de 2010.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei a crônica. Como sempre, você nos surpreende.
Beijos
Te amo