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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Histórias de um motorista

Depois de juntar dinheiro, combinou com os irmãos de visitar uns parentes em Mato Grosso do Sul. Embora gostasse de dirigir, nunca se distanciara mais de cinqüenta quilômetros de casa.

Ou pela inexperiência, ou pela ansiedade de chegar ao destino e mostrar o carro recém-adquirido em dezenas de prestações, percorreu trezentos e setenta e sete quilômetros até fazer a primeira parada, forçada pelo desconforto estomacal de uma sobrinha que, sem se agüentar, exalou os primeiros odores.

O inconveniente nada acrescentou ao motorista. Rodando duzentos e cinqüenta quilômetros, parou apressadamente para outra sobrinha urinar. A saia branca saiu acinzentada do meio dos colonhões.

Gostou tanto de dirigir que, ao voltar, pediu as contas no banco e com o dinheiro da rescisão do contrato comprou um táxi e um caminhão.

- Quando eu não estiver dirigindo o caminhão, não fico parado. Vou lá e trabalho no táxi, disse para a esposa enquanto trocava de roupa para dormir.

Mais uma vez a ansiedade tomou conta dele. A primeira passageira que pediu para ser levada a Marília quase teve o braço decepado. Na pressa, arrancou sem nem prestar atenção se a cliente entrara.

Se a ansiedade e a felicidade se misturavam, o cuidado com o carro fazia-o franco demais. Numa ocasião, um rapaz pediu para levá-lo até Palmital. Ajudou a acomodar as duas pesadas caixas no porta-malas e guardou no banco traseiro uma televisão de vinte e nove polegadas. No banco do carona, o passageiro segurava um pequeno aquário comprado para a irmã de cinco anos.

Saíram da via urbana e pararam no primeiro posto de combustíveis onde, usando de sua maneira franca e direta, pediu o dinheiro da corrida para abastecer o veículo.

- Meu pai vai pagar quando chegarmos.

- Pagar lá? Perguntou surpreso. Negativo. E se chegar lá e teu pai não estiver? Eu que levo o prejuízo? Pode descer.

Sem cerimônias saltou do volante, retirou a televisão, as duas caixas do porta-malas e, diante da incredulidade do passageiro, disparou:

- Vai sair ou vou ter que te colocar para fora?

Numa outra situação, passava das onze da noite quando uma mulher bateu em sua porta pedindo para levar a ela e aos filhos a Londrina. A viagem ia bem até que depois de alguns quilômetros da entrada de Sertanópolis, abriu a bolsa e tirou cinco coxinhas de frango e de carne para dar às crianças.

- O quê? Comer no meu carro? Negativo! Pode descer.

Dessa vez os passageiros tiveram sorte. Colocou para fora a mulher e os filhos e esperou que terminassem de comer para, verificando minuciosamente roupas, sapatos, boca e mãos, permitir o retorno ao veículo. Limpos, poderiam entrar.

Outras diversas cenas do taxista poderiam ser enumeradas. Entretanto, deixamos espaço para uma situação como caminhoneiro.

Os pedágios espalhados pelo país, assalto aos motoristas, encolheram os preços dos fretes. Já que não poderia abrir mão nem do diesel nem da manutenção do veículo, optou por economizar nas refeições. Escolhia as lanchonetes em vez de restaurantes, optava por marmitas no lugar de refeições por quilo, preferia os produtos casados (comida com alguma bebida) aos preços individuais.

Fugindo do pedágio, entrou por uma estrada de terra entre duas cidades de Santa Catarina e, nos quarenta quilômetros do atalho, parou para jantar numa lanchonete. O trecho parecia bem movimentado, pois uma fila de ônibus, de caminhões e de carros de passeio transitava pelo pátio em busca de uma vaga.

O térreo destinava-se exclusivamente para bebidas e petiscos. O primeiro andar dispunha de ar-condicionado, de mesas sempre limpas e de cadeiras estofadas. Provavelmente por esses confortos não percebeu que o preço do cachorro-quente e da Coca-Cola compraria cinco marmitas.

Informado depois de ingeri-los, não se conformou: brigou, reclamou, bradou contra o que cobravam. Sem querer arrumar confusão, o gerente gritou que não precisava pagar. Deu-se por satisfeito, mas começou a correr desesperadamente ao chegar ao topo da escada. Ficara receoso de levar um tiro pelas costas por não pagar a conta.

Mais de vinte anos trafega pelas estradas do país. De carro ou de caminhão. Reclama dos pedágios, da estrada, do preço baixo do frete, dos impostos, das demoras nas cidades, da falta de reconhecimento por sua profissão, da polícia que vira e mexe enche-lhe a paciência, dos comerciantes que lhe dão calote, do calor excessivo, do frio de lascar. Mas, ele quer largar essa vida imprevisível?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 26 de fevereiro de 2009.

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