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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

VENTILADOR


Álcool e calor são duas variantes longe de combinarem. Resolvemos passar alguns dias na praia de maneira que, carros, malas e euforias a mil, saímos de madrugada e ao fim do dia estacionávamos na casa de veraneio de amigo de trabalho, alugada a preço acessível. As mulheres entraram rapidamente, limparam sala, quartos, cozinha e banheiros, determinando que os homens usariam o de fora enquanto às mulheres destinava-se o de dentro. Saímos (nós, os homens) rumo à praia e ficamos nas areias o resto da noite, retornando para a residência de verão por volta das duas da manhã. Acomodamo-nos como e onde conseguimos e, manhã seguinte, filhos e esposa já gritavam palavras de ordem: praia, praia, praia!


Tomamos banho para tirar o resto de cheiro das bebidas da madrugada e meia hora depois parávamos num boteco a cem metros do mar de onde, sem grande esforço e com muita atenção, observávamos as esposas e os filhos jogando-se nas ondas que os levavam e os traziam de volta à areia. Combinamos de diariamente repetir o trajeto das manhãs e de fins de tarde: crianças e mulheres na praia; homens, no bar.


A rotina de bar e praia se mostrou satisfatória até o terceiro dia quando, alguns dos amigos, empolgados com as cervejas e a vista de lindas mulheres de biquínis quiseram estender o expediente tarde adentro retornando para casa quase alta noite.


O grande problema disso tudo é que, quanto mais ficávamos no bar, mais as bebidas – já não se engolia apenas cerveja – pulavam goela abaixo, animando os camaradas a contarem piadas, provocarem rivais de times de futebol, abordarem temas políticos sem importância, atacarem as denominações religiosas, discordarem dos acordos trabalhistas de grandes empresas, paquerarem descaradamente as meninas de dezoito ou vinte anos cujos cabelos pareciam a continuação do mar. Entre uma e outra paquera, o namorado de uma das meninas avançou sobre a mesa. Escapamos da pancadaria. O garçom – acostumado a esse tipo de situação e prevendo aquele resultado a qualquer momento – conversou com o surfista sugerindo-lhe esquecer o incidente e voltar à noite para uma bebida por conta da casa. Por conta da casa? Que nada! Quando saímos – ou melhor, quando fomos convidados a nos retirar – notei acréscimos em nossa conta.


Quase sete horas quando entramos em casa. Os meninos brincavam de bola na frente, outros jogavam cartas aos fundos. As meninas liam revista de fofoca, informando-se sobre o desaparecimento do sapato de apresentadora de televisão avaliado em dez mil reais e pago em dezenas de parcelas no cartão de crédito. Duas esposas descansavam nas redes: uma, folheando a revista nos últimos raios de sol; a outra, ressonando profundamente.


Jogamos alguns colchões no único espaço livre: o corredor entre a cozinha e a sala. Um dos amigos de copo trouxe três ventiladores. Espalhou-os de tal maneira que o vento atravessasse de um lado a outro sem interrupções. Apertou o botão do primeiro: nada. O do segundo: nada. O do terceiro: nada. Levantamos todos na intenção de ajudá-lo e cada um, conforme seu extraordinário e nulo conhecimento de eletrônica e de aparelhos domésticos, opinava, forçava a hélice, verificava se a tomada estava bem encaixada...


Depois de conferir todos os itens básicos e de o suor escorrer intransigentemente pela temperatura elevada do janeiro torrencial, a paciência se esgotou e um dos amigos arremessou o ventilador – adquirido dias antes de nossa viagem – contra a porta do banheiro. O segundo ventilador – pertencia a outro amigo que tomara quase meia garrafa de aguardente, dois copos de conhaque e cervejas – socou seu aparelho, convencendo-se de que se tratava de mau olhado da sogra, deixada com o cunhado. Solidário aos amigos, já me preparava para acabar com o meu quando a esposa do dono do primeiro ventilador, que ressonava tranqüilamente na rede, entrou esbaforida:


- Como vocês querem – perguntou, entre quase dormindo e irritada – que os ventiladores liguem se estamos sem energia elétrica desde o início da tarde?

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 11 de janeiro de 2013.

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