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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

SONHO A DOIS


Pressuposto de vida a dois: compreensão. Ingrediente essencial: carinho. Sentimento dispensável: egoísmo. Ação desejável: entrega. Perspectiva pragmática: desconfiança. Comportamentos necessários: pluralidade, alteridade, horizontalidade, desprendimento, dedicação. Verbos imprescindíveis: ouvir, ver, cheirar, tocar, gritar, incentivar, errar e perdoar, acertar e compartilhar, chorar, sorrir, preocupar, refletir, reconhecer, limitar, cumprir, perder, encontrar. Altruísmo: embarcar no sonho. Transcendentalismo: sem cobranças. Metas: caminhadas ao fim da tarde, chocolate (barra ou líquido, quente ou frio, puro ou misturado), Coca-Cola, beijar a quem se ama, deseja ou adora, poesia, ópera de idioma desconhecido e melodia inexorável, batatas fritas, filé de frango à parmegiana na Cantina do Alemão (Assis/SP) ou Adega do Café (Cornélio Procópio/PR), cinema, teatro, piscina no calor, grudados no edredom no frio, trabalhar pouco, aproveitar muito, viajar frequentemente, divertir-se sempre. Obrigação: descobrir a identidade do outro. Direito: saber-se único. Bom-humor ao acordar. Crônicas ao dormir: Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rony Farto Pereira, Affonso Romano de Sant’Anna, Sérgio Faraco, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo, Rubem Alves (primordial). Poesia de Cecília Meireles, Florbela Espanca, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Antônio Lázaro de Almeida Prado. Almoço improvisado. Jantar sem horário definido. Sem fósforos, água mineral e papel higiênico nos momentos mais angustiantes. Sapatos mal cheirosos no quintal, corpos perfumados na casa. Telefones desligados, luzes apagadas, corpos acesos. Conversas rotineiras recheadas de filosofia, de história, de sociologia, de teoria literária, de pensamentos soltos, de trocas de experiência e de reflexão de que queríamos, de que temos e de que almejamos. Mentiras constantes: roupa linda, cabelo perfeito, pele irresistível, olhar carismático, simpatia, paciência, ciúmes. Prestar atenção nos detalhes importantes, deixando de lado os pormenores que nos roubam ternuras e encerram irreversivelmente desejos: fim das contas, roupas espalhadas pelo chão, sandálias perdidas embaixo da mesa da cozinha ou do sofá, toalha molhada na cama, cama desfeita sete dias por semana, louça acumulando na pia, camisa sem passar ou vestido desbotado são tão importantes para se gastar horas, dias ou vidas? Falar menos, ouvir mais, compreender em qualquer ocasião, estimular invariavelmente, chorar pelas mudanças que incentivamos, contudo nos magoam e, ao mesmo tempo, festejar as transformações que não respaldamos, mas que se mostraram benéficas. Jamais reconhecer erros: erros não existem. Existem as convicções que formamos de acordo com o grau de amadurecimento: o namorado de hoje, louco para uma “dentada” na namorada durante acampamento ou churrasco na casa dos colegas, é o pai de amanhã, doido para transformar o couro do genro numa peneira. Vento invadindo os corpos e produzindo seus naturais efeitos. Estrelas atrás da luz ou surpreendendo nas estradas desertas ou nos lugares afastados das cidades. Sorrisos de noite, bocejos à tarde e cara amassada ao acordar. Espetáculo particular do “Roupa Nova” numa praia de ventos frios durante o verão. Fim de semana vagando entre as árvores da chácara amiga, ora olhando o relógio parado, ora espantando-se com a ascensão da noite, ora surpreendendo-se com a passagem da manhã, ora lamentando o fim dos enroscos. Wagner para o café da manhã, Chopin depois do almoço numa sala escura, Ravel entoando seu “bolero” ao fim da tarde para anunciar o clímax das esperanças do dia e o início dos eflúvios noturnos. Lembrar a aprender sempre e sempre aprender a lembrar. Recuperar cacos de ignorância, espalhar sementes de arrependimento, descobrir perdões – dados e recebidos – não apenas explicitamente e nas palavras, mas também nos gestos e nos constrangimentos. Entrar nos périplos das conjugações: “cooperar” é mais importante do que competir. Refletir sobre a brevidade da vida: não somos donos de nada nem pertencemos a ninguém.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 14 de dezembro de 2012.

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