Páginas

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PESCARIA NO MATO GROSSO

Juninho Gaeco nos convidou para churrasco de aniversário no sítio do doutor. Chuva intensa antecedeu nossa chegada e estourou os fios de energia elétrica, prontamente restabelecida graças ao eficiente trabalho da equipe da concessionária. Entre cervejas, Pepsi e guaranás (a Coca-Cola só chegou ao fim do evento), o Urutau preenchia regularmente o silêncio noturno com sua sinfonia afinada e ritmo pontual.

As conversas giraram em torno de política, de urbanização, da rentabilidade agrária – alugando-se terras às usinas ou grandes fazendeiros ou investindo em gado leiteiro – dos passeios, das mulheres. Quando chegamos à pescaria, alguém perguntou em que lugares costumava pescar e, diante de minha afirmação de que não pescava nem sabia manusear os apetrechos necessários, a risada do grupo abafou o canto do Urutau que, paciente, voltaria seguidamente a entoar sua melodia.

Assunto puxa assunto, a proposta de viajarmos no feriado de páscoa para capturar alguns peixes trezentos e vinte e sete quilômetros contando de Presidente Epitácio até os fins de Mato Grosso do Sul prontamente aceita por oito companheiros que calcularam a necessidade de três carros bem equipados para levar barracas, mini-fogão, dois botijões de gás...

Quando passamos de Presidente Epitácio, os primeiros raios de Sol. A paisagem se transformou e o cansaço desapareceu em favor da empolgação. Faltavam horas até o destino de modo que peguei o jornal, li a revista e bebi meio litro de Coca-Cola. Paramos num posto de combustíveis: veículos e banheiro.

O doutor abriu o porta-malas em busca de alguns mapas, guardados numa bolsa verde-escura. Enquanto procurava, a mão bateu numa sacola térmica de tamanho médio.

- Mas que raio de gelo é esse? Indagou, estranhando a bagagem.

- Um quilo e meio de peixe que comprei para... Mal terminei de falar, Juninho Gaeco estrondou numa risada, acenando euforicamente não apenas para os companheiros, mas igualmente aos clientes do posto: um pescador que, indo pescar, trazia peixe de casa.

Menos de vinte minutos, motivo de chacota. Bastava caminhão, carro ou moto estacionarem para abastecer, carroça ou bicicleta calibrarem os pneus para que alguém se aproximasse:

- Levando peixe para pescaria? Quem leva carne para o churrasco?

Os quilômetros restantes fomentaram a chacota. Vez por outra, algum dos passageiros dos outros carros nos telefonava para perguntar quanto custava o quilo de peixe paulista. Não seria mais barato pegar o mesmo peixe no rio a que nos dirigíamos ou, pelo menos, na cidade pela qual passaríamos a fim de comprar os produtos que ainda faltavam?

Quando entramos na cidade – distante setenta quilômetros de onde montaríamos as barracas e promoveríamos a grande pesca – supermercados, farmácias, papelarias e cabeleireiros fechados. O frentista do único posto de combustíveis informou do feriado prolongado. Comércio? Dali a três dias.

Montamos novamente nos carros e descemos no destino. Confesso que o lugar – uma espécie de lago de águas quase transparentes, árvores de tamanhos variados e clima bastante agradável – me tomou os sentidos por alguns minutos. A viagem mostrava-se mais interessante do que eu pesava.

Cinco horas da tarde e nada de peixe. Mudaram de lugar, de posição, de técnicas, de varas, de iscas, de intensidade de jogar o anzol. O Sol despedia-se lentamente e os sete pescadores, cansados de manusearem suas ferramentas sem alcançarem sucesso, sentaram-se na grama. Um deles grunhia reclamações pela altura do rio. Outro sugeria trago de cachaça. Um terceiro relembrava do tempo em que acampava, justamente àquele mesmo lugar, com o pai, o tio e um primo e, depois de retirar o peixe, devolvia-o às torrentes para que retomasse a vida e descobrisse a morte em outras mãos. Lembranças, conversas fiadas, histórias de pescador e novas empreitadas sucediam-se na roda de conversa quando Juninho Gaeco disparou:

- Vamos comer!

Perguntei o que comeríamos se ninguém tinha pescado nada. O doutor já tirava o peixe de minha sacola térmica enquanto outro de nossos companheiros atiçava um tímido de fogo.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 6 de abril de 2012.

Nenhum comentário: