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sexta-feira, 13 de abril de 2012

CONTEÚDO ADULTO


A conversa rolava desde o subsolo, mas no terceiro andar tomou fôlego quando a assistente social, salto alto e caixa pesada, ouviu os argumentos da advogada descolada, do arquiteto frustrado, da arquiteta observadora, do publicitário vazio e do contador arrasado – estes dois desceriam no vigésimo terceiro, consultório do endocrinologista; o publicitário, consulta, o contador, imposto de renda.



- Eu vejo, sim. Enfatizava a advogada descolada. – Vejo páginas de internet de conteúdo adulto. Qual o problema? Estamos na segunda década do Século XXI. Temos Constituição democrática que, vinte e quatro anos atrás, estabeleceu relações de igualdade entre homens e mulheres. Sou independente, malho todos os dias, pago minhas contas, dei sorte de nascer num país em que a liberdade é assegurada a todos.



- Acho um absurdo, interrompeu o contador arrasado. Essas páginas de conteúdo adulto são destinadas exclusivamente aos homens. Mulheres que usam a internet para tais fins, não sei, não... Que tipo de mulher é essa?



- Uma mulher que não tem vergonha na cara, declarou a assistente social, segurando a caixa com muita dificuldade. – Se soubesse de alguma funcionária que entrasse nessas páginas, certamente solicitaria o desligamento da empresa. Mulher de bem não se dá ao desfrute de páginas de conteúdo adulto. Onde já se viu uma coisa dessas?



- Viu? Não estou sozinho. Ela também concorda comigo, retomou o contador, constatando o décimo sexto andar.



- Sinceramente, o publicitário manifestava-se, eu não vejo o menor problema. A advogada já disse tudo: somos um país de liberdade. Homens e mulheres têm direitos iguais. Se os homens podem acessar páginas de conteúdo adulto, as mulheres também possuem idêntico direito.



- Vejo todos os problemas, manifestou-se o arquiteto frustrado. Essas mulheres não têm liberdade, mas libertinagem. Perderam a vergonha na cara desde o momento em que decidiram largar o fogão, o tanque de roupa e os serviços domésticos. Estão roubando nossos lugares no mercado de trabalho. Mulher minha fica em casa. Obedecendo minhas ordens.



- Concordo em partes com o senhor, disse a assistente social. Quem não consegue trabalho digno, a melhor ocupação é ficar em casa. Eu mesma, enfatizou, dedico-me ao trabalho dez horas por dia. Quando chego, faço jantar. Sou tradicional. Mulher para mim tem que se dar o respeito. Nada de entrar na internet em busca de página de conteúdo adulto. O mundo está perdido. O que vamos deixar para os nossos filhos?



O elevador estacionou no vigésimo segundo andar. A assistente social concluiu suas perspectivas sobre o tema. Antes de sair, o salto enroscou na pequena saliência deixada pelo elevador, torceu o pé e a caixa que carregava abriu-se violentamente no chão, espalhando coleções completas de Private, G Magazine, Brasileirinhas...



- Para os “nossos” filhos eu não sei que mundo deixar, ironizou a advogada descolada, mas para “seus” filhos, revistas de conteúdo adulto certamente não faltarão.



As portas do elevador encerraram as risadas. O contador e o publicitário desceram no vigésimo terceiro. Antes de se despedir, o publicitário trocou cartões com a advogada, sugerindo um vinho no apartamento dele para discorrerem mais sobre o assunto.



O elevador retomou seu trajeto ininterruptamente até o trigésimo quarto andar onde o arquiteto frustrado, a arquiteta observadora e a advogada descolada mantinham seus escritórios. A arquiteta pediu que a incluísse no vinho caso o encontro com o publicitário desse certo. A advogada descolada virou para o arquiteto: não gostaria de se encontrar com eles qualquer tarde dessas? O profissional de formas, estéticas e cores: - Não me misturo com pessoas desse tipo.



A advogada descolada advertiu que sempre existiria tempo para mudar de idéia. Sentou-se na sua cadeira e, vinte minutos depois, a secretária informou que o arquiteto do escritório vizinho desejaria conversar com ela.



- Sempre existe tempo para mudar de idéia? Será que posso levar minha esposa nessa tarde de vinhos também?





*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 13 de abril de 2012.

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