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sábado, 9 de abril de 2011

TELEFONE SEM FIO

Dona Maria falava pouco perto de mim, mas as bocas da rua afirmavam: se tinha alguém bem informado, esse alguém era Dona Maria. Não apenas se informava, mas também informava os parentes, os vizinhos, os policiais, os clérigos, os auxiliares de enfermagem, os garis, os estudantes do ensino médio e também os universitários, os passageiros da rodoviária, os aposentados na fila do instituto de previdência, os pacientes do posto de saúde, a atendente da lotérica...



Seus olhos passearam sobre o envelope branco contendo o laudo de um exame de coração. Perguntou se estava bem de saúde. Quando lhe contava sobre alguns pequenos problemas descobertos na carótida, o elevador parou no oitavo andar, uma conhecida dela entrou e, muito desatenta, retomou a conversa comigo.



Dia seguinte, algumas crianças, me vendo descer do carro e desembarcar sacolas de compras, riram-se à vontade. Um casal de idosos parou de conversar para jogar os olhos em cima de mim. O entregador de jornais me cumprimentou mais demoradamente. Dona Maria espalhara alguma notícia!



Quinze minutos na fila do banco, a sub-gerente me convidou para o sofá macio ao lado da sala vip. Recusei o convite, mas sua insistência me convenceu. A atendente da padaria colocou uma almofada na cadeira onde me sento diariamente para tomar dois cafés. Ao pegar meu carro no posto de combustíveis, o lavador me informou que, a pedido do proprietário do estabelecimento, inserira uma dobra especial de assento utilizada por caminhoneiros. À noite, na reunião da escola de minha filha, a vice-diretora apareceu com uma poltrona verde. Quis oferecê-la a uma setuagenária, mas a senhora, muito gentilmente, me cedeu a vez, olhos compreensivos, gestos beneplácitos.



Os primeiros dias de bondade coletiva não despertaram nenhum incômodo, mas aos poucos me senti desconfortável. Não me lembro se na igreja ou se numa farmácia, alguém quis me ceder o lugar alegando que eu precisava mais do que ele. Como assim? Por que precisaria sentar mais do que os outros?



Quando cheguei à hora do almoço, Dona Maria varria a calçada. Terminou de juntar as folhas, pegou a vassoura e entrou em casa, olhar cúmplice. Quis indagar de suas peripécias. Daria o braço a torcer? Assim que fechou o portão, o filho do vizinho, doze anos, louco por dinheiro, saiu de bicicleta. Apertou minha mão solenemente. Sua pergunta deixou-me inquieto:



- Como tem passado de saúde? Já está conseguindo se sentar?



Sentar-se bem? O que meu eventual problema de coração tinha a ver com meu bumbum? Puxei minha carteira, revirei os papéis e achei vinte reais que colocaria na mão do menino para que me contasse sobre o boato espalhado por Dona Maria, todavia a mãe apareceu ao portão, cumprimentou-me e o apressou para pegar leite, manteiga e ovos na padaria. Receita de bolo sobre a mesa.



Dois ou três caroços de feijão e de arroz. Deixei de lado as batatas fritas e comi metade de um tomate. À tarde, descobriria de qualquer jeito o que Dona Maria espalhara na vizinhança para causar tamanha comoção. Depois do almoço, abri a garagem. Dona Maria saiu à rua. Vassoura em punho. Menos preocupada com a sujeira das folhas do que com a curiosidade dos movimentos alheios.



Retirei o carro, cruzei a esquina, vislumbrei pelo retrovisor e a cara de compaixão de Dona Maria me fez dar um giro de trezentos e sessenta graus, estacionar em frente dela. Já tomava coragem de encostá-la na parede a fim de saber das longas e detalhadas notícias criadas sobre mim. Um homem discreto, poucos amigos, reputação ilibada. Por um momento, uma nuvem de arrependimento sobrevoou meus pensamentos e cogitei a alternativa de arrancar o automóvel. O neto dela apareceu ao meu lado, desejando boa tarde.



Soltaria cobras e lagartos sobre a avó: fofoqueira, mau caráter, interesseira, filha do Demo, fingida, charlatã, biltre, amiga de Lúcifer... A simplicidade despretensiosa do menino, sugando o sorvete que escorria, fez-me finalmente entender por que todos buscavam um assento macio para mim:



- O senhor está melhor das hemorróidas?



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 8 de abril de 2011.

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