Páginas

sábado, 16 de abril de 2011

SEX SHOP

Bezerra construíra a imagem de homem modesto, austero e sério. As rodas de anedotas eróticas ou pornográficas cessavam quando atravessava os corredores do escritório para ir ao banheiro, pegar um copo de água ou buscar um cafezinho. Um estagiário empalideceu ao contar uma fofoca de um encontro frustrado entre dois colegas e, ao se virar depois de pegar os boletos para pagar na casa lotérica, dar de cara com os olhos reprovadores do companheiro de trabalho.



O discurso em casa não era diferente. Os filhos sabiam das regras à mesa, à sala de estar, aos churrascos dos quais eventualmente participavam aos fins de semana, às comemorações eclesiásticas, ao trabalho, à fila do banco, do supermercado ou da farmácia... A esposa caminhava pela rua vestida de dignidade invejável. As mulheres – solteiras e comprometidas – olhavam com ira a esposinha apertada em vestidos dos tempos da Mariposa.



Embora as virtudes sejam muitas e irregulares, os defeitos são poucos e eficazes. Bezerra, mordido pelo demônio da curiosidade, nutria o desejo de entrar no Sex Shop escondido ao fundo de um pequeno edifício térreo de salas comerciais. Descobrira que para chegar até a loja, precisaria passar pelas portas das salas de três engenheiros, oito advogados, dois dentistas, três contadores e um prestador de serviços genéricos (trabalhava como jardineiro, porteiro, encanador, eletricista, pedreiro, marceneiro e assentador de azulejos).



Proporia à mulher que visitassem juntos a loja de produtos eróticos, entretanto, à hora da novela, mudou de idéia ao vê-la criticar duramente umas moças que dançavam semi-nuas. Dormiu ansioso, imaginando como faria para entrar no Sex Shop sem ser visto nem flagrado por eventuais clientes que poderiam sair das salas dos profissionais liberais. Passava das duas da manhã quando, exausto e sem idéias práticas, resolveu fechar os olhos e desenhar os contornos de luxúria que uma loja daquelas abrigava.



Manhã seguinte, à mesa do escritório, separou e amontoou papéis, conferiu cálculos, retirou dinheiro do cofre para quitar contas que venciam naquele dia, mas ao fim da manhã sua mente perdeu-se novamente nos contornos da luxúria. O que uma loja daquela abrigava?



Saiu para o almoço pisando firme, comprou um jornal, verificou se ninguém o observava, ajustou um boné que pegara emprestado do auxiliar, apertou o passo, atravessou oito quadras e, esbaforido, chegou ao endereço, previamente visitado.



Cruzou a rua, ameaçou entrar no corredor, entretanto o cliente de um dos advogados abriu a porta do escritório. Cabisbaixo, Bezerra fingia ler uma notícia. Deu mais dois passos, um cliente do dentista também saiu pelo corredor, mão no lado esquerdo da boca. Bezerra valeu-se novamente do jornal, desta vez assumindo postura mais natural.



Respirou fundo, calculou os passos que o afastavam da porta da loja, se programou, mas a buzina de uma moto na rua movimentada o amedrontou a ponto de quase levá-lo ao chão. Respirou mais uma vez, olhou novamente para os lados, postura ereta. Estratégia: caminharia como se fosse entrar na penúltima sala, demoraria um pouco confirmando o letreiro com o nome e a qualificação do profissional, constataria a ausência de testemunhas, entraria correndo na loja ao lado. Lá dentro, imaginou, vasculharia à vontade todos os produtos.



O coração acelerado recusava o plano. As pernas seguiram as ordens da mente: deixaram para trás as demais salas e se dirigiram para a penúltima porta, esperando o momento adequado. Uma porta ameaçou abrir. Bezerra socorrer-se-ia novamente da leitura de jornal, mas as folhas do periódico voavam pela calçada: esquecera-o em cima de um murinho.



A porta se fechou. Ele avançou rapidamente para a penúltima sala, o suor invadindo as costas da camisa, os olhos fulminando a placa do dentista na sala de quem parara à porta, ajeitara as calças, relaxara o pescoço. Cruzaria os três passos que separavam a porta do dentista da do Sex Shop. Finalmente conseguira, pensou satisfeito. Uma mão no bolso traseiro o assustou:



- Oi, papai. Não sabia que precisa vir ao dentista também. Se soubesse, teríamos vindo juntos.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 15 de abril de 2011.

Nenhum comentário: