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sábado, 21 de agosto de 2010

SUSTO

A idéia parecia perfeita: um susto na Professora de Português. Afável, atenciosa e absolutamente profissional, interessava-se por nossos problemas literários, redacionais e lingüísticos e esforçava-se para resolvê-los. Pensei um pouco, mas me convenci sem muito custo de que se planejássemos contra outros professores, a artimanha não teria graça.



Então propus a Canelito que se escondesse. Quando entrasse ao fim do recreio, pediria a professora que fechasse a porta: susto imenso e risada geral. Em minha perspectiva, ela acharia a cena engraçada e começaríamos a aula mais leves. Entretanto, lançou o material sobre a mesa, mão direita na cintura:



- Quem fez isso?



Os alunos riam sem escutar a inquirição.



- A sala toda participou do episódio?



- Opa, rosnou um aluno que se mantivera longe da traquinagem. A sala toda? Não, senhora!



Nos momentos raros em que os integrantes do grupo se unem em defesa da integridade coletiva, eu percebia que meus planos iam por água abaixo.



- Os que planejaram fiquem de pé.



Sem saída, fui o primeiro a me levantar, seguido de Canelito, que lhe dera o susto e de um amigo cuja covardia sempre fora qualidade e a quem os colegas delataram pela falta de hombridade.



Não me lembro bem se chamou a diretora, mas, por uma ajuda divina – os infratores também têm ajuda divina – Tia Ana, a diretora, e Tia Vera, filha de Tia Ana e responsável pela escola quando da ausência da mãe, não estavam.



- Os três. Para fora da sala.



Enquanto Canelito e eu arrumávamos as bolsas, o colega covarde persistia na esperança de se livrar da expulsão. Do lado de fora da escola, duas preocupações: Tia Ana e meu pai.



O que Tia Ana perdia em altura ganhava na ferocidade e na capacidade indescritível de amedrontar. No dia seguinte, todos nos olhavam com desconfiança, esperando choro e ranger de dentes. Antes do recreio Tia Ana entrou, a sala emudeceu, meu coração disparou.



- Fiquei sabendo o que vocês fizeram ontem. Vocês não têm juízo? Já imaginaram se ela tem um ataque cardíaco ou um problema de saúde? Se ela desmaia? Vocês merecem uma suspensão.



Naquela época, a suspensão correspondia mais ou menos a uma sentença imposta aos bandidos. Já imaginava que se conseguisse sair vivo da escola portando um comunicado de suspensão, não conseguiria sobreviver em casa: meu pai me esperaria com uma espingarda e, se ainda me mostrasse firme na idéia de viver, um machado de esquartejamento.



- Vocês merecem uma suspensão, repetiu Tia Ana, mas não vou dar uma suspensão porque não adianta, porque vocês não têm brio. Sabem o que é brio?



Um mosquito atravessou meu ouvido gelado.



- Brio significa vergonha na cara e vocês não têm vergonha na cara.



À saída, esperei a Professora de Português. Desculpei-me pelo ocorrido. Quando entrei em casa, esperava a convocação paterna a qualquer momento e já preparava as mãos para a palmatória. A tarde escapou. Preparei-me para a surra no início da noite, mas a noite foi tranqüila.



Passaram-se dois, cinco, dezessete dias. No décimo oitavo, a surpresa. Meu pai prestava trabalho voluntário no Centro de Valorização da Vida (CVV). O trabalho no CVV consistia em atender, por telefone, pessoas com problemas, tristezas, angústias ou sozinhas, evitando atitudes impensadas como o suicídio.



- Meu filho, eu fiquei sabendo do susto que você e seus amigos deram em Fátima.



Se eu não estivesse sentado, teria caído no chão. Naquele instante, como numa trama que se arma para prolongar o suspense, o telefone estalou. Meu pai o atendeu:



- CVV, boa tarde. Dois segundos e retomou: - Olá, Mãe Jovem.



O trabalho do CVV objetivava acalmar e apoiar as pessoas. Nome, endereço ou eventuais características pessoais eram irrelevantes. Todas as pessoas são importantes, independentemente de suas opções, de seus erros, de seus acertos.



Eu não sabia quem era a Mãe Jovem nem prestei atenção ao que meu pai e ela conversaram por mais de dez minutos, mas mentalmente agradeci a Deus e a ela pelo tempo a mais que me concediam de vida. Enquanto conversavam, retomei a calma, estruturei meu discurso, articulei minha defesa. Meu pai então escreveu um bilhete: comprasse balas, chicletes e pão.



Quando entrei no CVV, a Mãe Jovem desligara, meu pai me esperava. Meu coração em descompasso sambava nas minhas costas. Minha garganta secou, frio na barriga, moleza nas pernas. Tempo para me despedir das namoradas?



- Meu filho, o que você fez não foi correto. Ana me telefonou. Já imaginou se Fátima tivesse algum problema de saúde em razão da brincadeira? Meu pai falou por quinze minutos, enumerando os problemas que minha brincadeira causaria e, quando me disse para pedir desculpas para ela – e eu rapidamente respondi que já as tinha pedido, me dispensou. Terminaria de preencher os formulários para voltar para casa.



À noite, fiquei um bom tempo rolando na cama enquanto a casa escura prendia a passagem do tempo. Ainda não acreditava que tinha saído inteiro do meu primeiro delito.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, no Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 20 de agosto de 2010.

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