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terça-feira, 20 de abril de 2010

BARÃO DE ALCAPARRAS

Leu a reportagem no jornal de domingo falando de Monteiro Lobato. Decidiu pertencer ao círculo intelectual da cidade e, ao mesmo tempo, desenvolveria atividades agrícolas, artísticas, científicas, industriais e de prestação de serviços.


- Olha isso aqui, mãe, falava destacando a página no centro da qual uma fotografia em preto e branco ilustrava a matéria. O cara foi preso, quase expulso do país e mesmo assim insistiu. Trabalhou de promotor de justiça, fazendeiro, editor, escritor, tradutor, jornalista, descobriu poços de petróleo, viajou meio mundo e se correspondeu com os maiores intelectuais da época. Esse Monteiro Lobato tem história.


- Se tem, complementava a mãe, displicente, procurando algum utensílio na cozinha bagunçada.


Durante a semana entrou nas páginas de busca da internet e quanto mais reconstituía a vida do escritor infantil, mais se encantava com o sonho de cravar o nome no imaginário regional. Em quarenta anos seria lembrado pelos grandes empreendimentos. À noite, enquanto mudava os canais da televisão, pensava nas atividades econômicas em que arriscaria seu parco dinheiro.


- Jornal? Não. Aqui tem muitos jornais. Revista também não tem saída. Supermercado, farmácia, posto de combustíveis? Corretora de seguros, restaurante?


Talvez comprar alguns terrenos e construir imóveis populares, mas lembrou das altas taxas de inadimplência e da dor de cabeça em tribunais, cartórios, delegacias. Se adquirisse uma franquia? Escolas de inglês estavam fora de moda. Espanhol ninguém estudava. Investir em livrarias? Aventura arriscada. Se fundasse uma gráfica? Que tal convites de casamento?


Embora se esforçasse em traçar planos, as idéias sumiam ou se mostravam inconsistentes. O lampejo veio de uma prima bióloga. Desde a graduação estudava a função das alcaparras e, agora, finalizando o doutorado, precisava de um local para plantá-las. Ele nunca ouvira falar do condimento. Leu algumas informações da força da planta e da capacidade de reprodução na idade madura.


- Depois de plantadas, ensinou a prima, as mudas levam de quinze a cinqüenta dias para florescer. Na idade adulta, começam a produzir de verdade e dão um bom dinheiro. É muito fácil exportá-las. A Europa inteira compra esse produto, principalmente a Itália, onde se faz aperitivo.


Amanheceu no sítio da família – o avô possuía uma fazenda enorme, dividida posteriormente entre os filhos – pediu aos três empregados que derrubassem os pés de frutas, colhessem a soja e o milho do jeito que estavam. Os empregados telefonaram para a mãe. A soja e o milho se perderiam.


- Vou plantar alcaparras.


- Alca o quê?


- É uma frutinha. Vai vender para Europa. Vai vender muito mais do que soja e milho. Confie em mim. Daqui a algum tempo, quando a senhora fizer caminhada no Parque do Povo, as pessoas vão apontar e dizer: - Aquela é a mãe do Barão de Alcaparras.


A mãe endossou as ordens do filho. Árvores frutíferas, soja e milho cederam espaço às plantinhas sulcadas durante o fim de semana com o auxílio dos empregados, de alguns amigos e de duas dúzias de trabalhadores contratados especificamente para tal fim.


Em quinze dias, as mudas romperam a terra e aos quarenta atingiram perto de um metro. Tamanho ideal. A cotação do dólar favorecia a venda nas próximas semanas. Itália, Holanda, Dinamarca e Grécia seriam os destinos iniciais. Após a primeira colheita, pagar os empréstimos em três bancos, devolver o dinheiro de um tio e de um amigo, recuperar o carro deixado empenhado em um estacionamento e quitar as prestações de oito cartões de crédito, que juntos ultrapassavam trinta mil reais.


- Barão de Alcaparras. Acho que vou mandar colocar uma placa na frente de casa: Aqui mora o Barão de Alcaparras. Os amigos, sentados num bar, riram, brindaram e secaram os copos.


Passaram-se cinco meses. Angustiado, telefonou para a prima. Onde estavam as frutas?


- Aparecem na idade adulta. As alcaparras ficam adultas depois de sete anos. Até lá, cuidado com excesso de sol, falta de chuva, temperaturas elevadas, pragas e manuseio de agrotóxicos...



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de abril de 2010.

2 comentários:

Márcio Alexandre da Silva disse...

Parabéns Vicentônio pelo texto e blog.
Vicentônio é grande expoente da literatura regional e num futuro próximo nacional. Apostem nisso. E acompanhe a trajetória desse literário.
Abraços a todos.
Márcio Alexandre da Silva – Vila Prudenciana – Assis – SP

Sociologia e o mundo disse...

Às vezes ácido... às vezes hostil, mas sempre, repito, sempre sutil!!!

Abraço amigão.
Júlio.